Cronos, tempo e 2015

Por Duanny Gumesson

Era ela, a aspirante a escritora. A escritora dos momentos de desabafo. Sentava na dura cadeira de madeira, lia alguns textos diversos, esvaía aquela breve inspiração e desistia. Precisava de bem mais que inspiração. Precisava de fatos, de gente, de sentimento, vida pra transformar tudo em um misto de palavras. Era quase um diário da menina. Digo, da pseudoescritora. O que não permite que os críticos ferrenhos digam que não há vida, ou verdade. Porque ela é toda verdade, toda vida, toda movimento, encanto, marcação.

Precisava de um start pra iniciar a sessão de textos do novo ano. E a melhor forma de iniciar escrevendo em um novo ano é falando sobre ele, claro. Teste, início, formas… Chegaram! Um dos encantadores da menina aspirante à escritora forneceu a matéria-prima pra brincadeira de palavras que ela queria elaborar. Era um texto sobre 2015. Um ótimo texto. Ela, então, saiu da crise criativa em que estava e produziu algo que era mais ou menos assim:

Reprodução

Reprodução

“Sem saber o que falar, não posso me dar ao luxo de não desejar um belíssimo ano aos meus companheiros fiéis. Andam dizendo por aí que 2015 será um bom ano. Concordo. Que será um ótimo ano. Concordo. Disseram que será o melhor ano. Discordo.

“O melhor ano da sua vida será 2015”, ouviu de longe 2016, que contou para 2017, que repassou a informação pra 2018. Os três próximos anos ouviram e foram reclamar com as autoridades competentes (seriam os maias, talvez?). Chegaram, pegaram a senha e ficaram discutindo na sala de espera a pretensão de 2015. Se fosse 2015 o melhor ano de todos, era melhor que os próximos nem chegassem, porque 7 bilhões de pessoas iriam se lamentar pelo resto de suas vidas por não terem mais ótimos anos como aquele.

Chamaram a senha de número 15 e lá se foram os três anos revoltados, na ordem crescente. Chegaram à sala do Senhor Cronos –– coincidentemente (ou não), o mesmo nome do deus do tempo da mitologia grega. Explicaram a situação, Cronos os ouviu, atentamente, e silenciou. Os anos também calaram-se. O ruído calado incomodava aqueles elementos temporais todos.

Cronos levantou-se, acendeu um cigarro, olhou a vista da janela. Achou normal. Voltou-se para os três anos ali, revoltados. Apoiou seu cigarro no cinzeiro, desligou as luzes e ligou o datashow. Logo no começo apareceu o calendário maia. Perguntou aos presentes:

–– Sabem o que é isso?

–– Claro –– responderam em coro.

No próximo slide, os anos 2000 aparecem com a ilustração das panes nos sistemas informatizados. Cronos questiona:

–– Reconhecem? –– e eles responderam afirmativamente.

Cronos acelerou a velocidade de apresentação dos slides e mostrou, em sequência, o efeito Júpiter de 1974, a Ruptura de maio de 2011 e o Armagedon de 1914. Tragou mais uma vez seu cigarro, pousou-o no lugar apropriado, voltou-se para 2016, 2017 e 2018 e disse:

–– E então?

2015 disse, meio envergonhado, que achava não ter compreendido o que o responsável pelos tempos tentou transmitir.

Cronos sorriu e afirmou, conclusivamente, que estavam todos ali, discutindo acerca de um novo ano que iria acontecer de várias formas para várias pessoas. Podia ser que alguns aguardassem o fim, que outros alcançassem objetivos, que muitos iniciassem de forma otimista ou pessimista. Sonhos se realizariam em 2015, tragédias também. E assim seria em 2016, em 2017, em 2078. Porque não adiantaria os tempos se preocuparem, os personagens principais são humanos. Ou desumanos.

Os três anos subsequentes agradeceram a explicação de Cronos e deixaram a sala. Se olharam, sorriram. E perceberam que 2015 deixaria espaço e bons acontecimentos para todos os outros. Porque a vida é assim: expectativa, indecisão, decisão, sorte, amor, azar, companheirismo ou a falta dele, independentemente de quatro algarismos.”

Assim sendo, a escritorazinha terminou. E esperou muito do 2015 dela, que, aliás, havia começado muitíssimo bem. E levava consigo muita esperança, amor, sonhos, alegrias pra viver aquele ano. E todos os outros. Queria tudo de bom pra quem amava, pra quem a fez se sentir bem nos anos anteriores e para quem ainda iria aparecer e colorir com diferentes motivos tudo aquilo.

 

Amazonense, Duanny Gumesson é escritora, formada em Letras, e pós-graduanda em Revisão de Texto e Educação a Distância

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