Simone Athayde

Especial para o Jornal Opção

Há diversas categorias dentro da literatura. Podemos ter, por exemplo, a literatura de entretenimento, a clássica, a engajada, a instrutiva. Todas têm seu espaço e sua importância, dependendo do público que queiram alcançar e dos objetivos de seus autores. Ainda é possível encontrar traços de um tipo dentro do outro, num mosaico criativo que, por vezes, cumpre mais de uma função.

Dentro da literatura que considero necessária, conforme consta no título deste artigo, entendo como aquela que tira o leitor de um lugar de alienação, que mostra a ele alguma realidade social relevante, que o instiga a pensar ou agir de forma mais consciente, coletivamente falando. Esse é o caso de dois livros do jornalista Jairo Marques, “Malacabado — A História de um Jornalista Sobre Rodas” (Editora Três Estrelas), e “Crônicas Para um Mundo Mais Diverso — Cem Histórias Para Despertar Amor, Respeito, Justiça, Inclusão e Solidariedade” (Editora Serena). São obras que abordam o cotidiano de uma pessoa com deficiência física, com todas as suas dificuldades e lutas, trazendo ao leitor a experiência de vivenciar aspectos de uma outra vida diferente da sua, e o fazem com competência na escrita. O autor, colunista da “Folha de S. Paulo”, é um exímio cronista, e consegue tornar suas histórias, por vezes trágicas, em textos primorosos e, ao mesmo tempo, socialmente relevantes. 

No primeiro livro, “Malacabado”, Jairo Marques narra “uma série de enfrentamentos que vivi, de lições que aprendi, de constatações alegres, tristes ou apenas deselegantes, ao ter que lidar com o olhar dos outros. Embora as histórias sejam todas relacionadas a passagens de minha vida, não tive a impressão de fazer um relato autobiográfico. Minha intenção foi extrair desses episódios alguma reflexão a respeito do cuidado que temos (ou não temos) com a vida alheia e das consequências de nossas atitudes.” Escrita a partir da premissa do olhar, dos outros para ele e dele para o mundo e para si, a obra mostra, de forma tocante e irreverente, esses sofrimentos, lutas, vitórias e alegrias pelas quais ele passou desde que adquiriu poliomielite aos nove meses de idade, provavelmente devido à omissão governamental na distribuição de vacinas. Com a doença, iniciou-se a peregrinação de sua mãe, a quem dedica o livro, em busca, não só dos mais difíceis tratamentos, quanto de formas de integrá-lo a um mundo muito duro. Oriundo de uma família muito pobre, num tempo no qual a palavra acessibilidade sequer era conhecida, Jairo passa por dificuldades impensáveis para as ditas pessoas “normais. É difícil não se emocionar com as descrições muito bonitas, sensíveis, que Jairo faz dessa mãe, personagem central em sua vida, guerreira com quem ele aprendeu a nunca desistir. E foi entre tantas batalhas que Jairo conseguiu sair de Três Lagoas, Mato Grosso do Sul, e da vida de extrema pobreza, para a faculdade de jornalismo e, depois, para um lugar de destaque profissional.

O autor tornou-se uma voz importante dos “malacabados”, como ele chama as pessoas que, como ele, têm qualquer tipo de deficiência. Na apresentação do livro, o autor explica: “A palavra malacabado, espécie de corruptela de “mal-acabado”, é uma galhofa, uma provocação à falsidade disfarçada em discurso politicamente correto, que abraça e chama alguém de “especial” diante de uma plateia, mas golpeia a cidadania pouco a pouco, nas situações em que ela precisa verdadeiramente ser representada e respeitada com inclusão, com acesso, com todos juntos.

Jairo Marques: jornalista e escritor | Foto: Divulgação

Engana-se, porém, quem pensa que o autor tem um olhar amargurado sobre sua condição de cadeirante. Mesmo com todas as dificuldades, os olhares tortos e os obstáculos intransponíveis, Jairo foi um menino cheio de amigos, um rapaz inquieto e namorador, teve os mesmos problemas para arrumar emprego após a formatura que os jovens normalmente têm, com o agravante de ser preterido devido à deficiência. Muito estudioso, sempre teve consciência de que “o conhecimento seria um instrumento fundamental para eu me firmar na vida”. Assim, tornou-se pioneiro em várias empreitadas: foi professor na Universidade Metodista de São Paulo, viajou para vários lugares do Brasil e do mundo como repórter, cobriu a Paralimpíada de Londres, entrevistou figuras importantes, além de ter lançado um dos primeiros blogs sobre o tema da deficiência, o “Assim como você”.

Em “Malacabado”, Jairo Marques nos mostra a importância dos olhares alheios, os empáticos, os amigos, os atentos às necessidades dos outros, que podem ser decisivos para que a pessoa com deficiência consiga viver de forma mais plena, assim como os olhares de desdém, de desprezo, invisibilizam essas pessoas e tornam suas vidas mais duras. Também nos fala sobre a importância de um auto olhar confiante e corajoso: “seguir adiante foi sempre o meu lema de vida”. Embora ele ache intragável a expressão “exemplo de superação”, não há como não achar, nas entrelinhas dessa obra, exemplos para os seres humanos “bem-acabados” que, por muito pouco, já se dão por vencidos. Ao final, ficou na minha mente a reflexão de Eliane Brum escrita para a orelha do livro: “Os sentidos de uma vida não são determinados antes da vida. Nem são limitados pelo corpo. Uma vida só se torna viva pela capacidade daquele que vive de criar sentidos. As barreiras intransponíveis não são dadas pelos corpos mal-acabados, mas construídas com criminoso afinco pelas almas mal-acabadas.” Ou seja, a pior deficiência não é a que afeta o corpo ou a mente, mas a de caráter, das pessoas que lançam e disseminam olhares de desprezo e de ódio a quem é diferente. 

Os sentidos de uma vida não são determinados antes da vida. Nem são limitados pelo corpo. Uma vida só se torna viva pela capacidade daquele que vive de criar sentidos. As barreiras intransponíveis não são dadas pelos corpos mal-acabados, mas construídas com criminoso afinco pelas almas mal-acabadas. — Eliane Brum

Já seu segundo livro, “Crônicas Para um Mundo Mais Diverso”, é o apanhado de crônicas publicadas originalmente na “Folha de S. Paulo”, que abordam tanto suas questões autobiográficas, quanto falam sobre a problemática de pessoas com vários tipos de deficiência, num Brasil que passou por um período de endurecimento nas relações pessoais e políticas, com a perda de muitos direitos por parte dessa população. Especialmente belas são as crônicas “Amor de filho”, que fez em homenagem à sua mãe, e “Os filhos que a gente (não) quer”. Também dedica várias ótimas crônicas para sua filha Elis, a quem ensina a respeitar a diversidade e o direito dos outros. A questão do afeto, do envelhecimento, das perdas causadas pela vida, dos desafios da paternidade como cadeirante, da falta de empatia de uma parte da sociedade, são outros dos temas abordados nos seus textos. “Dez dicas para ser mais inclusivo”, um de meus textos preferidos, é escrita de forma didática para ser um manual de convivência em sociedade e deveria ser lida por todos os brasileiros.  

Assim, os livros de Jairo Marques são o que podemos configurar como um serviço da escrita em prol da vida, sem que neles se perca a beleza da boa literatura.

Simone Athayde é escritora e crítica literária. É colaboradora do Jornal Opção.