Gosto de participar de eventos de plantio de árvores quando eles contam com a presença de crianças. O processo flui melhor, pois elas lidam com a terra com naturalidade, curiosidade e disposição. Com adultos, na maioria dos casos, tudo tende a ser mais lento e formal, muitos evitam sujar as mãos ou demonstram certa resistência ao trabalho manual de abrir o berço (que muitos conhecem como cova), retirar a muda do saquinho plástico e depois jogar terra na plantinha. Mas as selfies atrás das mudas plantadas (por outras mãos) são infalíveis e com direito a riso de zíper: daquele que abre e fecha rápido sem deixar nenhum vestígio de alegria brilhando nos olhos. As crianças, ao contrário, mergulham na atividade sem medo. Cavam, cobrem o berço com terra e se divertem enquanto fazem isso. Alguns, no entanto, para trabalho das mães, se descuidam e limpam as mãos no uniforme. O que é uma sujeira limpíssima perto das sujeiras diárias mostradas nos noticiários.

Na segunda-feira, 24, fui escalado para ir ao Jardim Botânico Amália Hermano Teixeira acompanhar a comemoração do Dia Mundial da Água, que é celebrado em 22 de março. Lá estavam 304 estudantes da rede municipal de quatro escolas municipais: Grajaú, Bom Jesus, Rui Barbosa e Santa Rita de Cássia. O anfiteatro do Jardim Botânico ficou lotado. Não faltaram entusiasmo e reflexão educativa especialmente preparada para a data. A iniciativa foi organizada pela Secretaria Municipal de Educação e a Agência Municipal de Meio Ambiente (Amma) e contou também com o apoio da Guarda Civil Metropolitana.

O evento começou com uma palestra sobre a importância da preservação dos recursos hídricos, destacando a necessidade do uso consciente e a relação direta entre água, vida e equilíbrio ambiental. Mas antes da palestra, os alunos foram estimulados a dar um grito vibrante, um grito de guerra em favor da proteção dos mananciais: “Viva a água!”. O gesto sintetizou o espírito do encontro: uma celebração que uniu aprendizado e respeito pela natureza. Foi algo bonito de se ver.

Logo depois, o Jardim Botânico se transformou num espaço filosófico a céu aberto. Assim como o filósofo Aristóteles (que foi discípulo de Platão por 20 anos) caminhava com seus discípulos em meio à natureza, ensinando enquanto a vida pulsava ao redor, educadores ambientais conduziram os estudantes numa caminhada reflexiva pela mata. Foi uma aula peripatética no sentido mais profundo do termo: conhecimento em movimento, corpo e pensamento caminhando juntos, cada passo alimentando a curiosidade e a alegria de descobrir o desconhecido.

Durante a trilha, as crianças conheceram diversas espécies de vegetais e aprenderam, de forma sensorial, como o equilíbrio dos ecossistemas depende diretamente da água. O ponto de maior encantamento delas foi o encontro com um jequitibá gigante, que é a maior árvore do parque e que por isso dá nome à trilha pela qual a meninada caminhou. Diante do jequitibá, os estudantes ficaram em silêncio, como se a árvore guardasse um saber que nenhum livro alcança. Maravilhados, eles tiveram de inclinar bem o pescoço para trás a fim de enxergar a copa, que parecia conversar com o céu.

Jequitibá, por ser a árvore mais alta do parque, ela dá nome à trilha, na qual são realizadas por educadores ambientais da Amma aulas peripatéticas com os estudantes | Foto: Sinésio Dioliveira

A visita seguiu até o horto medicinal do Jardim Botânico, onde 22 espécies de plantas são cultivadas e usadas tradicionalmente na produção de chás e remédios naturais. Essas plantas são oferecidas gratuitamente em eventos realizados pela Prefeitura de Goiânia ou pela própria Amma. Durante a explicação de um educador ambiental sobre as propriedades medicinais de cada planta, uma menina disse que sua avó bebe chá de erva-cidreira. Eu quis falar também que sou um apreciador desse chá, sobretudo acompanhado com um bolo de fubá.

O passeio foi encerrado sob as copas das árvores, onde todos compartilharam um lanche e trocaram impressões sobre a descoberta do dia. Ações assim e afins reforçam a necessidade de o poder público, sobretudo na atuação em educação, se envolver mais na realização de educação ambiental, e que isso seja ministrado com práticas pedagógicas que despertem a sensibilidade e a consciência nos estudantes.

Ao transformar o Jardim Botânico em uma sala de aula peripatética, os educadores ambientais aproximaram os estudantes da natureza e assim lhes proporcionando uma lição viva: de que aprender caminhando também é uma forma de atuar na preservação do mundo.

Sinésio Dioliveira é jornalista, poeta e fotógrafo da natureza