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Não bastassem só as minhas tristezas, há também as tristezas sociais. Mais abaixo falo destas, que são a causa desta crônica (insípida como chupar laranja após escovar os dentes). Pois bem. As minhas, entendo, podem me melhorar enquanto pessoa. Tudo vai depender da minha sabedoria em extrair-lhes lições. Destas, vem a coragem de me sentar diante da dor e questioná-la no que veio me dizer. A dor pode nos expandir ou nos encolher. Dependendo dela, pode até nos fazer subir para o andar de cima ou descer para o baixo. Não tome meu gesto, altaneiro leitor, como romantização da dor. Na verdade, isso é a minha responsabilidade emocional. (Pelo menos acredito que seja isso.) As cicatrizes podem ser a chave das algemas. Li em algum lugar que sofrer é humano, e que aprender com o sofrimento é escolha.

As dores sociais, confesso, não consigo digeri-las. São pesadas, ruidosas, sanguinárias. Chegam sem pedir licença. Ao contrário das minhas, que cabem dentro de mim, as tristezas sociais não estão dentro da minha capacidade de solução. Só posso externá-las e falar da minha repugnância a muitas delas.

Os noticiários me esbofeteiam diariamente com essas tristezas. O sangue é a seiva diária nas manchetes dos jornais. Cada manchete é um soco no olho da alma da gente. E o soco dolorido mais recente é o episódio da megaoperação realizada em algumas comunidades do Rio de Janeiro, em que morreram 121 pessoas, Incluindo quatro policiais.

Essa megaoperação me lembra a música “Mosca na Sopa “, de Raul Seixas, lançada nos anos de 1970. Nela Raul falava de uma verdade incômoda: “e não adianta vir me dedetizar / pois nem o DDT pode assim exterminar / porque você mata uma e vem outra em meu lugar “. O poeta Maluco Beleza falava contra a dedetização da liberdade, da resistência, de tudo o que insiste em existir apesar das tentativas de apagamento (muitas vezes violenta). A canção, por outro lado, se enquadra perfeitamente no cenário atual, como um ciclo de violência que se repete como um disco arranhado. O Estado, cansado das moscas, despeja seu inseticida recorrente. E as moscas, porém, voltam. Sempre voltam…

As moscas pousadas na sopa do Rio e de outros estados não nascem no ar. Nascem no meio de uma podridão variada: miséria, escola ruim, trabalho que não existe, saúde que não chega aos pobres, ausência de rigidez da justiça na punição dos crimes dos endinheirados. Nessa ausência de coisas, que ferem o que determina nossa Constituição, mata-se inúmeros bandidos enquanto crianças e adolescentes adentram na vivência do mundo do crime dentro dessas comunidades. Serão as futuras moscas. É uma interminável ciranda de sangue.

“As leis são sempre úteis aos que têm posses e nocivas aos que nada têm.”
Jean Jacques Rousseau | Foto: Divulgação

As operações militares não substituem as políticas públicas. Enquanto o estado der aos jovens dessas comunidades apenas a alternativa da bala ou do vício, enquanto a escola, o esporte e o emprego forem ações inexistentes, o ciclo de sangue não findará. Meninos e meninas que poderiam transformar suas vidas pela educação acabam, portanto, se tornando soldados das facções criminosas (ou cadáveres), visto que não foram protegidos pelo Estado, o qual opta em ser agente da morte. O que é um explícito rompimento do pacto que o filósofo, escritor teórico Rousseau chamou de contrato social. Segundo ele, nenhuma ordem é legítima quando se sustenta pela violência. Se o preço da estabilidade é o sangue, então não há sociedade que possa se dizer justa.

Essa vitrinização das apreensões de armas e corpos estendidos no chão não possui nada de heroico, visto que não se dá fim ao estado de abandono das escolas, às falhas do serviço público, à precariedade da saúde. Voltando à música, essa “detetização” — limpeza social pela violência — só produz nova sujeira. Ou seja, sempre vêm outras moscas no lugar das eliminadas com saraivadas e mais saraivadas de bala.

Infelizmente, o pudor do Brasil está na lata de lixo. Isso é explicitado quando a morte é usada como bandeira de campanha política. Exaltar o extermínio passa muito longe de ato herói, é tão somente uma perigosa banalização da barbárie. Quando o Estado passa a medir sua eficiência pelo total de mortos produzidos por seu aparato policial, a própria fronteira moral é lançada à lata de lixo.

Nessa toada torta em que o país caminha, logo, logo estaremos assistindo a nova empreitada de morte.

Sinésio Dioliveira é jornalista, poeta e fotógrafo da natureza

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