A primeira vez que fui a Jericoacoara foi um dia desses. Assim como Amapola e Varsóvia, desembarquei por lá, sem bagagem e sem reserva em hotel. Não tomei nenhum avião ou ônibus. Simplesmente me vi lá, nas ruas de areia, às margens de muita duna, muito mar e muita gente. Gente de vários mundos, concebida à luz de imaginação. Gente que transita entre eras, entre dimensões, entre o fogo que arde sem cessar no paraíso.

As mortas Amapola e Varsóvia ganharam o sopro de vida pelas mãos da escritora brasileira-goiana Cássia Fernandes no romance “Histórias Encantadas — Entre Cordilheiras de Areia”, publicado pela editora paraibana Arribaçã. Minha viagem foi através das páginas desse livro.

A narrativa coloca as duas debutantes do pós-túmulo no paraíso. Não o paraíso com Deus, orquestra de serafins e ruas de ouro e cristal. É um paraíso mais mundano, tropical, com ruas de areia, mar morno, pessoas vendendo miçanga, gringos de vários sotaques e, claro, nativos saudosos de um Éden, povoado por pescadores, jumentos e um vento soprando tédio por todos os lados.

Anhangás, eis o lugar. Nesse universo paralelo criado — ou interpretado — pela autora, a vila de Jericoacoara é rebatizada. Habita o mesmo mapa que Macondo, a idílica cidade colombiana que Gabriel García Márquez deu à luz os Buendía. Ou a vila italiana que abriga os excêntricos personagens do filme “Amarcord”, de Federico Fellini. Fico a imaginar o solteirão tio Teo do filme, em cima de uma árvore bem alta, de frente para o mar do Ceará, gritando: “voglio una donna!” (quero uma mulher!).

Cássia Fernandes: escritora | Foto: Facebook

O personagem principal do livro não é Amapola, não é Varsóvia. Não é o pastor alemão que deixou de salvar gente para acudir bichos. Não é o andrógino cozinheiro itinerante francês, que se dedica a servir pratos veganos com gosto de toda sorte de bicho. Não é o saxofonista gaúcho que acumula restos para fazer sua arte na praia ou o espanhol que virou carne defumada. O mocinho e o vilão da vida e morte concebida pela escritora é Anhangás, a vila que se revela paraíso, purgatório e inferno de muitos destinos.

A delícia maior do livro, confesso, é o voyeurismo. A gente segue Amapola e Varsóvia por todos os cantos. Seus primeiros momentos na eternidade são acompanhados por nós, leitores, com a devoção de quem, de repente, se vê com os poderes da invisibilidade. Elas espiam as muitas formas de vida. E de morte, vai saber. O que elas não desconfiam é que também são observadas, são seguidas de muito perto. E juntos formamos um séquito sedento por devorar cada nova sensação, cada arremedo do que talvez seja a realidade. A realidade com alguma amplificação.

Anhangás é, talvez, o paraíso possível, o paraíso por meritocracia. O paraíso pagão. Ou talvez seja o inferno e ele não é o que mostra a propaganda. Não se chega a um acordo entre as partes e Anhangás talvez seja apenas um limbo, mas governado por gente, sob as mesmas leis da miséria e do encanto que ornamenta o submundo das coisas.

A Pedra Furada, cenário de selfies do mundo dos vivos, serve como uma metáfora para que acontece em Anhangás. Ela é um portal, em constante trânsito, de vivos de hoje e de ontem, do tempo que não se mede com a lógica dos relógios. O livro é, antes de tudo, o olhar de quem ousa se transportar para um mundo novo, farto de magia, com seres encantados que se movem sob a luz e a sombra do mesmo sol.

Anderson Alcântara é jornalista e escritor. Colaborador do Jornal Opção.