Luana Silva Borges

Um hipopótamo no chão do rio. Flutuando no dentro como se água fosse ar. Peso, aquele peso, toneladas-dentro, e mesmo assim o ar nos pulmões imensos, e mesmo assim a leveza de quem flutua por saber usar… o próprio peso.

Quinta-feira de novo, este meio, meio de tudo, o tempo eterno dos que fingem que há divisões, ano, semana, mês, tudo convenção. Um tempo eterno, sempre meio, e eu cansada resolvi parar e ver: hi-po-pó-ta-mos.

Minha afilhada tem três anos e também se encanta, no fundo a intuição primária de que nascer desde sempre, desde o primeiro berro, o primeiro grito, é sustentar o próprio peso com a arte de nadar como se fosse nada. Nada mesmo é o que fiz hoje e ontem.

E você também, que se engana aí preenchendo as fichas do DP.

Há muito não escrevo, falta sinto da escrita vital, da tese, de pensar. Você pensou hoje ou apenas seguiu? Pensar demais leva ao hipopótamo. O cansaço leva ao hipopótamo. E o YouTube me presenteou com vídeos em série de hipopótamos.

Pelo menos eu Rio. Não sei de mar não.

Não há hipopótamo no mar, mas naquele dia em Abrolhos tinha um peixe imenso e eu mergulhei e vi. Debaixo do barco. Os outros eram ligeiros e nadavam juntos.

Muito bonitos como vocês aqui, no feed do Instagram, ligeiros e juntos, coloridos, raio de cores, rápido, rápido, nesse mar imenso, cada cardume. Anda-se em bando. Mas o peixe não.

O grandão de Abrolhos estava sozinho debaixo da couraça do barco, uma cara inchada e triste. Parecia um BullDog habituado. O peixe. Peso grande e ao mesmo tempo flutuando como se fosse nada.

Gosto da arte dos que mergulham como se fosse leve. Nadei ontem 3km. Vocês podem imaginar a tortura da cabeça mas não a verão na ponta dos dedos que suavemente furam a água. A vida é a arte do engano. Autoengano é o melhor. Vital.

Sugiro então, a mim e ao outro, que mergulhem. À minha pequena gosto de apresentar hipopótamos porque neles vejo o desajuste mais visível.

Um gigante daquele, uma bocarra daquela, uma perna desproporcional, imaginem o joelho, embora biólogos não tenham sido consultados o joelho do hipopótamo não deve valer de nada, e mesmo assim o leve toque no chão do rio, só a pontinha, e se vai ao longe, flutua-se como pena.

À pequena não quero dizer que a vida é leve. Só que só há isso mesmo a se fazer, usar o próprio peso neste texto cíclico, neste meio, neste meio, neste eterno meio, que nem eu e nem você sabem como terminar.

Eu penso isso e não digo nada, mas coloco pela quinta vez o vídeo do hipopótamo. A pequena e eu assistimos lado a lado. E como estamos juntas (!), ela toda admirada, sem piscar, pensando em silêncio sabe-se lá o quê. Muito viva. E eu também.

Luana Silva Borges é jornalista e professora universitária.