Não estou aqui para dizer se a borboleta desta suposta fábula estava certa ou errada quanto à atitude que tomou em relação à própria vida. Vida que ela julgava monótona como um relógio velho num canto triste de uma parede descascada sem que ninguém o procure para ver as horas.

Meu propósito é tão-somente relatar o que aconteceu a ela; algo, por sinal, muito trágico, desses que não fazem barulho, mas deixam um silêncio dolorido. Em meu relato, não vou acrescentar uma vírgula sequer nem muito menos algum ponto. Arrisco a chamá-lo de fábula. Espero que ela te agrade, altaneiro leitor, e assim cumpro-me da tarefa; caso contrário ofereço uma das minhas orelhas para um piparote.

Pois bem. Era uma borboleta linda, de cor preta e verde — cores de luto e esperança misturadas , coisa que a natureza não sabe. Ela, no entanto, não tinha olhos para sua beleza. Sempre chorava ao se ver refletida nas gotas de orvalho nas flores e folhas do hibisco amarelo, como quem se reconhece num retrato e não se aceita. Esse hibisco era a única planta que havia no local. Só a ele suas asas conseguiam levá-la. Era, digamos, uma pequenina ilha vegetal cercada por concreto.

Ela estava cansada de buscar néctar apenas nesse pé de hibisco. Queria conhecer outras flores, outros perfumes, outras promessas. Havia outras, só que bem distantes, e ela poderia morrer antes de alcançá-las. Certa vez até tentou, porém voltou quando sentiu que suas forças já não sustentavam seu sonho de mudança. Outrora existiam flores e mais flores, de várias espécies, mas foram eliminadas por prédios, casas, comércios, asfalto… O progresso, afinal, é uma praga que não tem amor pela natureza.

O hibisco, sempre que via a borboleta chorando, tentava persuadi-la a sair da tristeza. Dizia-lhe, com a sua sabedoria vegetal, que também queria oferecer seu néctar a outras borboletas e que nem por isso vivia ressentido. Isso era dito com a maior paciência. A borboleta, no entanto, não o escutava. Na verdade, nem o deixava falar: voava para longe, deixando-o falando sozinho.

Foto: Reprodução

Numa certa manhã, quando a borboleta estava em sua rotina de ir e vir automático nas flores do hibisco, viu algumas flores diferentes. Essa novidade avivou-lhe o ânimo. Seus olhinhos brilharam de alegria. Tão afoita ficou que nem ouviu, ou fingiu não ouvir, o hibisco alertá-la para não procurar aquelas flores. Pobre infeliz.

Assim que chegou, a borboleta, num afã desesperado, começou a procurar néctar. Nada. Nada de aroma, nada de orvalho, nada de vida. Eram flores artificiais, ensaios de beleza sem vida, néctar, pólen. Nesse intervalo de tempo, alguém da casa fechou a janela sem perceber o inseto.

Ao percorrer todas as flores e não encontrar o que procurava, a borboleta, frustrada, resolveu voltar ao hibisco. O que não foi possível. Acabou morrendo de tanto se debater na vidraça da janela, confundindo transparência com passagem, luz com liberdade. Morreu tentando atravessar o que parecia não existir.

O hibisco, vendo a sua agonia, acabou chorando. Ela era a única borboleta para quem oferecia suas flores, e agora, o néctar sobraria, inútil como um afeto sem destinatário. Talvez esta fábula não ensine nada. Talvez apenas insinue que nem toda flor é flor, e que, às vezes, o que nos salva está exatamente onde aprendemos a nos entediar.

Sinésio Dioliveira é jornalista, poeta e fotógrafo da natureza