Deus não é trouxa, mas o fiel sim, Malafaia
03 abril 2026 às 08h00

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O pastor Silas Malafaia, cujas duas primeiras sílabas do seu sobrenome dão indícios sobre ele, é uma raposa astuta. No entanto é fácil ver o pelo das ovelhas tosquiadas em sua boca faminta por dízimo. Em 2026, um vídeo seu bombou nas redes sociais. Nesse vídeo, ele, num xaveco ardiloso, disse que “Deus não é trouxa”. Isso foi dito para puxar a orelha dos fiéis que mentem sobre o valor real dos dízimos, contribuindo com valores menores do que deveriam levar para igreja, “a noiva de Cristo”.
Malafaia está coberto de razão. Só que o trouxa nessa história é o fiel, que leva muito a sério o que consta em Malaquias 3:10 e que é muito cantado em verso e prosa pela maioria malandra dos líderes religiosos: “Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja mantimento na minha casa, e depois fazei prova de mim nisto, diz o Senhor dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu, e não derramar sobre vós uma bênção tal até que não haja lugar suficiente para a recolherdes”.
Se Deus, como consta na Bíblia, é onipotente, onisciente, onipresente, que necessidade Ele tem de dízimo? Inclusive em Salmos 24 está escrito: “Do Senhor é a terra e a sua plenitude, o mundo e aqueles que nele habitam”. A necessidade, sabe bem você, altaneiro leitor (que não é trouxa), está nos malas de templos, que se valem do dízimo dos fiéis para comprar mansões, carrões, aviões e outros penduricalhos mais.
Falando em aviões, o líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo voltou a bombar nas redes sociais. Agora Malafaia aparece dizendo que está orando de joelhos pregados no chão para que Deus possa ajudá-lo a trocar de avião. O que possui agora, segundo ele, foi comprado em 2009 por 12 doze milhões de dólares, “a preço de galinha morta”, pois à época valia 16 milhões de dólares. Agora ele alega que a aeronave está bem velha. Às críticas dos internautas sobre uso da igreja para gastos pessoais, ele justifica a necessidade de um avião mais novo por motivos profissionais. Certamente para fazer o que se pede em Marcos 16:15: “Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura”. (Me engana que eu gosto.)
Há uma intimidade inventada entre Deus e as instituições, e ela, sabe você, altaneiro leitor, é muito rentável. Aqui no Brasil, igrejas vivem em lua de mel com a Constituição: imunidade sobre patrimônio, renda e serviços ligados às suas atividades essenciais, conforme o Art. 150, VI, “b”. Nenhuma nota cai no cofre sem que o Estado, delicadamente, vire o rosto para não constranger a bênção tributária. É bênção que não acaba mais. Só bonança. Basta, portanto, que não haja distribuição de lucros e que tudo fique dentro da santíssima entidade; fato que não temos presenciado. É um sistema perfeito, uma engenharia fiscal certamente elaborada por belzebu. Nos tempos de Jesus, Ele usou um chicote para expulsar os vendilhões do templo; hoje, diante da abundância de igrejas transformadas em empresas de fé, haveria escassez de chicote.
Mas enquanto alguns garimpam ouro em nome de Jesus, vendendo paraísos que não entregam, outros tentam descobrir o próprio céu no quintal da razão. Para o filósofo holandês Baruch Spinoza (1632 – 1677), Deus não anda de terno e gravata, não sobe em púlpito, não briga com demônio, não tem necessidade de dízimo. Deus, para ele, é o tecido infinito do real, é o cosmos. Tudo é expressão dessa única substância divina. Einstein dizia acreditar no “Deus de Spinoza”, rejeitava a ideia de um Deus pessoal e interventor. Ele entendia que o sagrado está no cosmos e não no caixa eletrônico da fé.

Cabe colocar nesta conversa o filósofo, escritor e humanista francês Michel de Montaigne, nascido 99 anos antes de Spinoza nascer. Para ele, a fé abre janelas que a razão sozinha não alcança, mas isso não significa que as pessoas devem pendurar seu cérebro no púlpito da igreja, que é o que mais temos constatado. Para Montaigne, há dignidade em pensar, sobretudo pensar sobre o que não entendemos. Ele recomendou a gente a pôr o cérebro para funcionar: “Não há como duvidar um momento sequer que seja este o emprego mais digno que nos caiba dar a nossas faculdades mentais”. Ou seja, acreditar não exige desligar a luz da consciência; exige apenas não deixá-la cegar. Quando ocorre a cegueira, a gente vira trouxa.
E talvez esse seja o ponto que tanto escapa no espetáculo religioso a que temos assistido: a fé, em vez de horizonte, virou um cabresto, que transformou o fiel em caixa automático. Perdido entre medo e esperança, o fiel continua sendo presa fácil dos discursos engenhosos. E Deus — seja o de Spinoza, o de Einstein, o de Montaigne ou o de nenhuma doutrina — permanece intacto em todos os cantos do universo, irredutível, silencioso, alheio ao marketing maligno que fazem em seu nome.
Sinésio Dioliveira é jornalista, poeta e fotógrafo da natureza

