No feriado prolongado da Semana Santa, mergulhei fundo em filmes: assistindo a novos como revendo outros. Preciso admitir: não li uma única página de livro. O máximo que fiz foi procurar o meu livro autografado da poeta Cora Coralina: “Poema – Dos Becos de Goiás e Estórias Mais”. E não o encontrei. De repente, isso no domingo à noite, enquanto comia milho cozido em água com chimichurri, me veio à mente o “Poema do Milho”. Pensei: “Cadê o livro para eu ler o poema?”. Não o encontrei. E olha que não tenho tanto livro assim; inclusive cheguei a doar muitos para a biblioteca de uma escola estadual em Mairipotaba, cidade goiana bem próxima de Goiânia.

Ainda sobre Cora, dou aqui a mão a palmatória para confessar que, na rebeldia tola da juventude e sem mesmo ler a poeta doceira com olhos maduros, cheguei a dizer que a notoriedade de Cora era decorrente do fato de o poeta Carlos Drummond de Andrade ter publicado, em 1980, uma crônica sobre ela no Jornal do Brasil: “Cora Coralina, de Goiás”. Como fui tolo. Coisa que apenas vi, Drummond enxergou com profundidade. Ele contou em sua crônica: “Cora Coralina, para mim, é a pessoa mais importante de Goiás. Mais do que o governador, as excelências parlamentares, os homens ricos e influentes do Estado”.

Entre os títulos escolhidos, voltei a assistir a “O Filho de Mil Homens”, de Daniel Rezende, baseado no romance homônimo do autor angolano Valter Hugo Mãe, ganhador do Prêmio Saramago de Literatura. Na verdade, foi a segunda vez que o vi em menos de um mês. Vou tratar urgentemente de ler o livro. O autor, conforme pesquisei sobre o que achou da adaptação de sua obra, disse, num tom de brincadeira, estar “com medo de ser um dos únicos filmes da história que supera o livro”. Após a leitura da obra, vou saber se o autor tem razão no que disse.

Carlos Drummond de Andrade disse, na crônica “Cora Coralina, de Goiás”, publicada em 1980 no Jornal do Brasil, que a poeta “é a pessoa mais importante de Goiás. Mais do que o governador, as excelências parlamentares, os homens ricos e influentes do estado”
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Sobre o que Mãe disse, conclui-se que a literatura pode encontrar no cinema um caminho eficiente para ampliar seu alcance sem perder sua essência. E, mesmo sem ter lido nada no feriado, saí da experiência com a sensação de que a poesia segue encontrando seus meios de chegar até nós: às vezes pela página, às vezes pela tela. Na verdade, sabe bem você, altaneiro leitor, a poesia nos chega de modos mais variados. Sobre o livro de Cora Coralina autografado em 1982, acabei o encontrando dias depois do feriado após uma busca minuciosa.

Cinema e livro, sabe bem você, cinéfilo leitor, cada um possui a sua maneira específica de imersão. Enquanto aquele entrega som e imagens prontos, tudo mastigadinho e assim tornando a nossa percepção mais imediata; aquele exige que deixemos a nossa imaginação rolar, de modo a construir internamente as cenas expressas nas palavras. Enfim, na relação com o livro, o caminho semântico da obra não é demarcado como no cinema, que traz um caminho com sentido fixo. O cinema nos permite até conhecer a cara dos personagens.

“O Filho de Mil Homens” me transportou a “Lavoura Arcaica”, de Luiz Fernando Carvalho, que também se valeu de um livro homônimo do escritor Raduan Nassar. Em ambas películas, a estrutura familiar é abordada sob perspectivas opostas: enquanto este retrata a rigidez e os conflitos da família tradicional, aquele apresenta a construção afetiva de uma família formada sem laços sanguíneos. Elas são incontestavelmente “cinema de poesia”, dentro da definição do cineasta, poeta, escritor, pintor Pier Paolo Pasolini.

No making of do filme de Luiz Fernando Carvalho, o diretor conta que se conecta “aos poetas, que de alguma forma estão conectados com a natureza”. Para ele, “o mundo sensorial da natureza, os ventos, as sombras, os movimentos improváveis que uma árvore possa vir a ganhar com a presença do vento” são lições de cinema.

Sinésio Dioliveira é jornalista, poeta e fotógrafo da natureza