Crônica de uma violência anunciada contra camponeses em Goianésia

Jagunços, a serviço de gente da alta sociedade, mataram e feriram pessoas. Crianças, mulheres e idosos passaram fome

Aureliano Martins Peixoto

Especial para o Jornal Opção

Fim da década de 1950, o Estado de Goiás passa por problemas agrários em algumas cidades. Goianésia não é diferente. De um lado, camponeses defendendo seu cantinho. Do outro, o temido José de Oliveira — conhecido como Aymoré —, um indivíduo de má fama, que andava armado como a maioria dos homens da época. Ele estava sempre acompanhado de capangas e arruaceiros dispostos a promover bagunça e mortes pela cidade, sempre a mando de grandes nomes da sociedade, principalmente grileiros de terras.

Os Retirantes, de Portinari

O secretário de Segurança Pública, a serviço do governador José Feliciano Ferreira, enviou tropa de soldados com armas de grosso calibre para que fossem apaziguados os ânimos. Do embate saíram mortos e feridos. Aqueles que escaparam foram arrebanhados e deixados ao relento na cidade. Alguns foram confinados em um galpão no centro de Goianésia.

Mais de 100 crianças, mulheres e idosos passaram fome, levando representantes da população goianesiense a pedirem auxílio à capital. Buscavam remédios e socorro aos abandonados ao deus-dará. Uma reunião marcada com o governador — para tentar resolver o terrível imbróglio — não surtiu nenhum efeito. Havia uma necessidade em atender interesses políticos e particulares, inviabilizando assim o atendimento aos camponeses.

Naquela época, Goianésia era uma cidade na qual a lei estava a serviço não da legalidade — de todos, para democratizar a vida cotidiana —, e sim dos interesses da alta sociedade. Por sinal, uma sociedade que se formava na truculência, na barbárie, e não de maneira civilizada.

Aureliano Martins Peixoto é escritor.

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