Dança de André Masseno revisita questões do corpo-em-desbunde

A apresentação do espetáculo “Confete da Índia” será no sábado, 25, pelo circuito Manga de Vento, no palco do Teatro Sesc Centro

Confete da Índia,do carioca André Masseno, é um trabalho que propõe possibilidades de se tocar  um corpo em êxtase, um corpo que está sempre transbordando sem pensar em delimitações

Confete da Índia,do carioca André Masseno, é um trabalho que propõe possibilidades de se tocar um corpo em êxtase, um corpo que está sempre transbordando sem pensar em delimitações

Ser lábios de mel, deglutir locomotiva, ser computado, misturar e mandar, ser pássaro formoso, ser uma festa, morder com força, o que era tabu virar top, ladroar o teu, ficar tudo joia rara, ser da cabeça aos pés, morrer no ar um resto, ser grito de gata no cio, segurar um caju, ser três da madrugada, beijar face gloriosa, deixar passar e sangrar, interromper formigas, ser rainha diaba, ser nesta encarnação uma manga, ser redondo colorido pequeno, ter fé no veneno, desbundar.

André Masseno

Yago Rodrigues Alvim

Não havia signo ne­nhum e o papo ia mes­mo sendo bom. Podia ser pela em­bria­guez da letra de Cae­tano, talvez pelo preto e branco de Omar e, quem sabe ainda, pelas cores de Dzi Croquettes. Era, sem dúvida, pela euforia curiosa de Masseno, o André. Ele mesmo, lá do Rio de Janeiro, enchia de referências o lado de cá do telefone, que lhe perguntava sobre O Confete da Índia. “Estou curioso pelo público”, empirulitou. Até porque não é uma coisa só palco e plateia, papai e mamãe. “O Confete da Índia” deve ser como “Da Maior Importância” na voz de Gal: “Uma transa qualquer pra você e pra mim/Entre nós”.

Masseno nasceu no Rio mesmo. Se for­mou, inicialmente, como ator na Fe­de­ral do Rio (UNIRIO) e se tor­nou mes­tre em Literatura Bra­si­lei­ra pela Es­tadual (UERJ). No ano de 1996, mi­grou para dança. Mais es­pecifica­men­te, dança contemporânea. Traba­lhou em algumas companhias e passou a investir em trabalhos autorais. São mais solos, onde busca as possibilidades de dialogar dança contemporânea e performance.

Seus interesses olhavam sempre para uma mesma amplidão. “Meus temas estão muito ligados na relação entre arte e corpo.” Qual a sexualidade ou quais as identidades de gênero que se desprendem de um corpo que dança, perguntou Masseno. É que, nas palavras dele, por um período da dança contemporânea, o corpo da bailarina e do bailarino foram pensados como um corpo assexuado ou, até mesmo, como um “elemento” à mercê do desejo de uma coreografa ou coreografo.

— Até que ponto esses corpos estão reverberando questões de gênero apesar do desejo de abrandar suas diferenças e transforma-los em elemento?

Portanto, a dança de Masseno se debruça num linóleo abrangente, o da sexualidade, do gênero. Ainda assim, bem pontua ele, “cada um dos trabalhos se dá de maneira completamente distinta”. Comtemplado em 2011 e 2012 (ano de estreia) pelo Prêmio Funarte de Dança Klauss Vianna, para montagem e circulação, respectivamente, e pelo Fun­do de Apoio à Dança (FADA), em 2011, Confete nasceu em 2011 e, hoje, diante à antiga novas discussões, se reconfigura.

— O curioso desse processo é que a configuração do atual estado das coisas em que a gente se encontra, com os ânimos muito aflorados, principalmente em relação ao preconceito, à homofobia e transfobia, à aver­são ao outro, que tomaram um âmbito pú­blico e so­cial muito a­bran­gente atual­mente, é algo que já faz par­te da nossa cultura há muitas décadas, ainda que muito velados.

Masseno sublinha que revisitar o trabalho, com todas suas referências que se de­bru­çavam no corpo e na arte para questionar políticas e ideologias da época, é perceber potencialidades artísticas que podem colocar o status quo (não muito agradável) em questão novamente.

— Me parece uma ma­neira de confrontar o presente, revisitando algumas apatias do passado que estavam já sendo discutidas. Não quer dizer também que na década de 1970 existia um movimento completamente libertário, pois vivíamos a ditadura. Mas ali, já tinham alguns movimentos artísticos comportamentais de resistência; então, retomar esses movimentos hoje, revisitando o passado, é bom para pensar também como demos um passo a frente.

André Masseno tem como referência, no espetáculo “Confete”, as obras “Índia”, de Gal Costa, “Antropologia da Face Gloriosa”, de Arthur Omar, e “Dzi Croquettes”, que falam do extático, do corpo-em-desbunde | Fotos: Divulgação

André Masseno tem como referência, no espetáculo “Confete”, as obras “Índia”, de Gal Costa, “Antropologia da Face Gloriosa”, de Arthur Omar, e “Dzi Croquettes”, que falam do extático, do corpo-em-desbunde | Fotos: Divulgação

Confete da Índia

O corpo, tão ci­ta­do, ganha complemento em Confete da Ín­dia. Mais um estado, se ca­racteriza na dan­ça/per­formance enquanto “corpo-em-desbunde”. Era essa a ideia da década de 1960/70. A busca por uma ideologia de vida, uma política estética estava centrada, completamente, no corpo de uma maneira extasiada com as sensações. Eis, então, o ponto de partida de Masseno.

— A ideia era pensar, no momento atual, em possibilidades de se tocar um corpo em êxtase, um corpo que dança, um corpo que está sempre transbordando sem pensar em delimitações, contenções. Era procurar um trabalho que estivesse a toda hora relacionado com esse estado de êxtase; como alcança-lo em cena e como isso também poderia envolver o expectador de uma maneira muito sensorial. Era essa a linha do Confete.

O nome está ligado ao carnaval, à carnavalização. E também à índia. É essa junção, do confete de festim a índia de Iracema e Moema, da literatura, intrínsecas à cultura brasileira. E, não necessariamente, seja apenas essa a leitura – diz. O título apareceu por uma questão de sonoridade, de juntar ambas as palavras, o que, de certa maneira, reverberou o próprio trabalho, calcado nas questões sensoriais, sem uma mensagem por trás. Signo nenhum.

— O próprio sensorial, a própria fisicalidade já são por si só o conteúdo do trabalho. O título também é isso, um enigma sem uma leitura muito definitiva do que seria o trabalho.

O bailarino explica o espetáculo “O Confete da Índia”: “Muitas vezes eu não o vejo como espetáculo. Nós, da equipe, o vemos como um evento, um acontecimento”. Então, emenda, “esse evento, que acabou tendo uma configuração de espetáculo, é um trabalho composto por determinadas estratégias físicas que estão preocupadas em chegar a uma fisicalidade quase de saturação dos movimentos”.

Portanto e simplesmente, Con­fete é desbunde, plenitude em uma vastidão de referências. São estratégias simples estendidas no tempo, levadas até o fim por meio de sua repetição, por seu investimento em si mesmo. Confete é um espaço sensorial “entre nós”, é um encontro com o performer André Masseno, a fim do curioso, do pleno. É parte de Manga de Vento, é espetáculo em cartaz na capital do telefone goiano que o encheu de perguntas, é uma oportunidade de ver a dança contemporânea brincando em outra linguagem. É, enfim, convite para festim.

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