Coronavírus acaba com o prazer de circular pelas estantes das livrarias

Livreiros e proprietários de estabelecimentos de Goiânia contam como estão se virando com as restrições causadas pela pandemia

Parece coisa de gente do século passado, mas passear por entre as estantes de uma livraria – e, também, de uma videolocadora (quem se lembra?) – é uma das experiências mais agradáveis que se pode ter. Olhar as capas, folhear as páginas, ler a orelha, tocar. Tudo isso provoca percepções que tornam a compra de um livro uma atividade muito diferente do que é, por exemplo, baixar um PDF no computador ou tablet, ou fazer o download de uma obra inteira em menos de um minuto em um e-reader.

Essa experiência é ainda mais rica quando adicionada uma boa xícara de café. Pode ser o espresso, como dizem os italianos (ou em bom português, expresso), rápido e mais encorpado, com açúcar, adoçante ou puro mesmo – ao gosto do freguês. Pode ser um capuccino, com aqueles desenhos bonitos de desmanchar, feitos pelos baristas. Há quem não dispense o chantili por cima.

Para completar, uma boa companhia, para jogar conversas ao vento.

Era assim que funcionava a Livraria Palavrear, que fica ali no Setor Universitário, entre os prédios residenciais, bem perto da Marginal Botafogo, com entrada pela Rua 232. Era. Erguida em um casarão, que teria sido construído por um alemão ainda nos anos 1960, as portas estão baixadas desde o início da quarentena causada pelo coronavírus.

Realização de um sonho do casal Wilson Rocha e Helloá Fernandes, o local tem um jardim gramado nos fundos, onde crianças podem brincar. O casarão de dois andares foi reformado e decorado sob os cuidados de Helloá, que é arquiteta. O capricho rendeu à livraria um lugar entre as dez mais bonitas pelo Brasil, honraria concedida pela Revista Bula – um dos portais de cultura mais influentes do País.

“Começamos com poucos títulos, em outubro de 2017. Era difícil conversar com as editoras, conseguir condições comerciais favoráveis. Assim, fomos montando o acervo aos poucos”, conta Helloá. Hoje, são 10 mil títulos disponíveis. Mas, com uma característica. Trabalhando no sistema de curadoria, a livraria busca ofertar títulos que não são facilmente encontrados nas grandes livrarias. “Priorizamos [obras das] áreas de humanidades, literatura e autores regionais. Claro que os best sellers também estão à venda. Mas procuramos editoras menores”, conta. Assim, o leitor encontra edições da Boitempo, exemplares das Revistas Cult e 451 – focadas em cultura – e obras da Companhia das Letras.

Uma das mais belas do País

Ironicamente, a virtude do estabelecimento – ser um local de encontro –, com a pandemia, se torna um desafio a mais. “A cafeteria faz esse link, as pessoas se encontrarem e conversarem”, diz a proprietária. Então, foi necessário acelerar o projeto de ter um site de e-commerce. E intensificaram as vendas por meio de WhatsApp e pelo Instagram, “que tem um engajamento forte com nosso público”, como explica Helloá. “Mas a convivência não tem como”.

Para manter a proximidade com os clientes, as entregas são personalizadas. Os leitores recebem, além do livro, bilhetes com recados pessoais, escritos à mão. Nas redes sociais, o marketing destaca a necessidade de as pessoas apoiarem o comércio local. “O retorno tem sido bom, mas temos de fazer aportes”, conta Helloá.

Antes da pandemia, a Palavrear tinha oito funcionários. Duas, que trabalhavam na cafeteria ainda em período de experiência, foram dispensadas. Outras duas estão de licença maternidade. O cozinheiro tirou férias e depois teve o contrato suspenso, com base na Medida Provisória´936, editada pelo Governo Federal. “Ficamos com o coração partido, pois sabíamos que [a quarentena] não seria rápida”, afirma.

Os três funcionários que continuam no batente são a livreira Natália, a atendente responsável pelo financeiro Larissa e José, que de caixa assumiu a função de entregador. Para diminuir gastos e o risco de contaminação pelo coronavírus, ele faz entregar três vezes por semanas, nas segundas, quartas e sextas-feiras. Para cumprir a tarefa, José usa luvas, máscara e álcool em gel.

Mesmo com esse esforço, o faturamento da livraria caiu 50%. O da cafeteria, obviamente, foi a zero. Helloá admite que isso causa certa ansiedade nela e no marido. “Não sabemos como será, só sabemos que haverá uma recessão grande. O desafio não é só agora. Para um negócio, isso é muito complicado”, diz.

Ela acredita que, da forma como está, o casal consegue sustentar o negócio por mais dois ou três meses. A partir disso, será preciso repensar. “Estamos entre a cruz e a espada. Precisamos ao menos de uma pequena entrada, para ajudar nas despesas fixas. [A Palavrear] pode ser uma ideia que vai morrer”, lamenta.

Ainda assim, Helloá mantém a esperança e se permite a “devaneios”, como ela própria diz. Nesses devaneios, ela imagina uma “Marcha para o Oeste” literária, em que o conceito no qual o casal acredita chegue a outros Estados, como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Norte do País. Em meio à crise, por que não sonhar?

Arquipélago da literatura

Lúcio Dias, da Opção Cultural: máscaras
e separação dos clientes

Ali no Centro de Goiânia, nas imediações da Rua 4 e da Avenida Goiás, há uma espécie de arquipélago literário. Quem passa apressado talvez não note, mas os amantes da literatura – ou os que buscam obras escolares a preços mais convidativos – circulam com frequência nos sebos que se espalham na região.

Um deles é o Opção Cultural, que fica na Avenida Goiás, quase na esquina com a Rua 4. A loja existe desde 1996, mas o livreiro (“É uma honra e homenagem ser chamado assim”) Lúcio Dias está nesse mercado há 42 anos, desde que começou a trabalhar em outro sebo na capital. De funcionário, passou a proprietário, não apenas por um gosto especial pelos livros, mas “por necessidade”, como conta.

Hoje, ele vende livros novos, mas cerca de 75% do acervo, que só no site Estante Virtual tem 40 mil títulos e que, na loja física, deve ter algo em torno de 100 mil, ainda é de obras usadas. Lúcio já teve obras especiais em mãos, como edições seculares do Príncipe, do florentino Nicolau Maquiavel, que virou adjetivo e substantivo, e das Confissões de Santo Agostinho.

Mas essas preciosidades são exceções que somem rapidamente. O grosso, mesmo, é a troca, venda e compra de livros usados a preços mais acessíveis. “O cliente faz dinheiro com seu livro usado e usa o crédito para comprar outro”, resume. É quase um escambo. Coisa de quem quer economizar, mas também de quem não deixa os livros dormindo nas estantes de casa – assim, eles acabam circulando em muitas mãos, em uma viagem do conhecimento.

Outro atrativo é que, nos sebos como o Opção Cultural, o leitor encontra obras esgotadas dos catálogos de editoras e de livrarias de rede. São esses que, normalmente, dão um lucro maior para o livreiro, já que são mais difíceis de encontrar.

Esse negócio quase artesanal já sofria com a concorrência das grandes redes, mas a chegada da gigante Amazon, cujo modelo de negócio é até difícil de compreender, complicou ainda mais a situação. “Eles vendem com mais desconto que as próprias editoras”, diz Lúcio.

Com a chegada da pandemia, então, nem se fala. Hoje, a Opção Cultural funciona com uma grade nas portas de entrada, como se fosse uma prisão para impedir a entrada do coronavírus. Assim, a venda gerada pela circulação de pessoas, daquelas que entram e saem de cada estabelecimento, praticamente passou a inexistir.

O que mantém o negócio são os pedidos pelo Estante Virtual, pelo WhatsApp ou o atendimento de clientes que buscam por uma obra específica. Assim, as vendas, que giram em torno de 200 livros por dia, caíram aproximadamente 70% desde o início da quarentena.

Mesmo com o faturamento em baixa, Lúcio tem segurado as pontas e não dispensou nenhum dos nove funcionários. Mas os colocou em escala, cada turma em um período, e recorreu à MP 936, que permite a redução de jornada e a respectiva redução salarial, com a União complementando os vencimentos.

No último acerto salarial, o livreiro notou a tristeza dos funcionários. A diminuição nas comissões de venda e de horas extras afetou os ganhos em até 30%. “Alguns ficaram de cabeça baixa”, lamenta.  Ainda assim, Lúcio diz que vai tentar segurar ao máximo a equipe inteira. “O ser humano precisa desse carinho. Vou tentar passar por esse período”, afirma.

O que tem ajudado é que a pandemia chegou após o período de melhor faturamento do setor, que são os meses entre janeiro e março – período em que há muita procura por obras escolares. É como o Natal das livrarias. No segundo semestre, vem o período de vacas magras, que prossegue de setembro a novembro. Por isso, o início do ano é o de fazer provisões. “A quarentena começou quando fechamos o período bom. Ficaram as dívidas, mas também os créditos a receber, pois muitos clientes parcelam as compras no cartão”, explica.

Lúcio Dias admite que sente certa insegurança sobre o que há por vir. “Era o momento de começar a planejar a volta às aulas de agosto, a virada para 2021. Agora, não sabemos sem se haverá aula”, diz. Mesmo assim, o livreiro procura cultivar o otimismo possível diante desse cenário de incertezas. “Tenho de manter a calma e a esperança”, afirma.

Desde 1984

Livraria Páginas Antigas, antes da pandemia

Saindo da Avenida Goiás e prosseguindo pela Rua 4, no Centro de Goiânia, entre vários sebos encontra-se a Páginas Antigas. Fundada em 1984, é um dos mais antigos da cidade. Ali, além de livros, um dos prazeres dos clientes é fuçar entre os discos de vinil disponíveis em prateleiras que formam um espaço em forma quadrangular.

A oferta de discos de duplas sertanejas é grande, além de trilhas sonoras de novelas que fizeram sucesso nos anos 1980 e 1990. Vez ou outra esbarra-se em um grande clássico da Música Popular Brasileira. Os colecionadores e garimpeiros se esbaldam.

Esse garimpo, porém, não tem sido mais possível. Com a quarentena, o acesso interno foi interrompido. Com o modelo de atendimento possível, as vendas por impulso deixaram de existir e concentram-se, praticamente, apenas na busca por títulos definidos, como explica o gerente do local, Max Weiber – um quase xará do alemão Max Weber, o pai da sociologia.

Dos 11 funcionários, apenas três seguem trabalhando normalmente. Os demais tiveram contratos suspensos, com base na MP 396. Com isso, as vendas caíram cerca de 50%. “Se tiver outro decreto, mandando fechar de novo [como nos primeiros 15 dias da quarentena], não sei como vamos fazer”, diz Max.

Grandes redes

Livraria Saraiva: rede em crise

A situação das livrarias de rua é a demonstração micro de um problema macro. Mesmo grandes redes estão enfrentando dificuldade na travessia da pandemia. A Saraiva, por exemplo, que já vinha passando por sérias dificuldades financeiras há alguns anos, devido à concorrência da internet e problemas de gestão, anunciou o fechamento de mais sete lojas no Brasil. Outras 12 estão na iminência de fechamento. No mês de março, a rede teve um prejuízo de R$ 14,4 milhões, de acordo com o relatório mensal de atividades publicado ao mercado.

O cenário suscita a seguinte pergunta: algum dia o antigo prazer de circular pelas estantes físicas voltará ou o futuro será reservado apenas às estantes virtuais (sem trocadilho)?

Uma resposta para “Coronavírus acaba com o prazer de circular pelas estantes das livrarias”

  1. Jose Eduardo disse:

    Triste a situacao desses e tantos outros empresarios, corta o coracao mesmo! Se pudesse eu compraria de todos um pouco para ajudar, bibliofilo que eu sou. Que nossos governadores e prefeitos vejam que os estragos de se fecharem o comercio e os servicos sao 100x maiores do que a epidemia propriamente e deixem de pensar nas eleicoes e de derrubar o Presidente.

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