Contos marcianos (9): Son(h)ar de Marte!, de Gazy Andraus

Há um mistério insolúvel, ao que reluz em vermelho, como as cores das bandeiras e flâmulas que são carregadas em batalhas na Terra

(Com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, o Jornal Opção começa a publicar uma série do que se pode chamar de “contos marcianos” ou de contos galácticos. As viagens espaciais estão, afinal, na ordem do dia.)

Son(h)ar de Marte!

         Gazy Andraus         

Há um mistério insolúvel, ao que reluz em vermelho, como as cores das bandeiras e flâmulas que são carregadas em batalhas na Terra.

O óxido de ferro que nutre seu solo e fecunda as imaginativas mentes, buscando paralelos intricados (e intrigantes), tem feito parte deste aparato insondável, até então.

E mesmo o quarto planeta do sistema solar, assemelhado à Gaia em tamanho, rotação cíclica e superfície rochosa, atenua, vez ou outra, o que seriam suas possibilidades paisagísticas criativas, ao se verificarem similitudes em suas áreas exploradas pelo fator humano (indiretamente via máquinas por ele engendradas).

Autores outros da Terra já exploraram virtualmente suas possibilidades.

Ray Bradbury desvelou suas crônicas, em maneiras poéticas.

Alan Moore conjecturou um ultra-humano quântico que podia deliberar em quaisquer áreas planetárias… mas que resolvera refletir filosoficamente sobre o solo marciano (propício às reflexões além-Terra).

E eis que Cydonia teimou em perscrutar o cosmo, desterrada do solo avermelhado, tal qual pirâmide terrestre engendrada por seres bípedes que se dizem inteligentes.

Poderia uma pareidolia ser, em primeira instância, uma contraparte de uma realidade absorta (e absoluta)?

Descrevo este relato, pousado neste ermo solo avermelhado, em que não posso me ausentar, pois meus circuitos de compressão e terminais termais extrapolaram em problemas. Ou seja, em caso de necessidade a vagar pelo solo para reconhecimento da área, a ação estaria impedida momentaneamente, pois se se forçasse, ela se excluiria. Mas foram tantos dias em navegação sideral… e agora, meus fios capilares se desprendem — a radiação fora além do esperado.

Ainda assim, há a pretensão de finalizar-se a exploração, quando o tanque de imersão reaprumar as vestimentas.

Não antes disso!

Tentar-se-á pisar o solo a se averiguar a área circundante (e circunscrita).

Não se tem como sustentar mais este paradigma: solto num planeta (mas ainda dentro do bólido), como único a habitá-lo, há um dia (não estou certo disso), enquanto dois de nós três, integrantes da nave espacial, por não terem resistido às intempéries do vácuo sideral, desfaleceram no trajeto (ao que se necessitou ejetá-los, dada a falha do sistema criogênico, coincidentemente quando faltaram poucos dias a se adentrar na área circunscrita do planeta).

A situação só se complicou, pois embora todas as vicissitudes naturais pudessem ter sido previstas, algumas de ordem inimagináveis se sobrepuseram.

Não se pôde lidar com a radiação, a qual superou a contagem potencial prevista.

Não se pôde também resistir aos raios fustigantes, apesar do revestimento da nave. Não sei como minha integridade física não fora tão afetada, como a dos outros cosmonautas (talvez algum fator de minha conformação molecular-atômica pudesse ter algum diferencial como justificativa).

Porém, o mais inusitado não foi por mim comunicado à Terra.

Uma anomalia, perto de entrar no espaço aéreo do planeta, perturbou todos os controles e comandos eletrônicos da nave. E também perturbou o meu processamento neuronal. Repentinamente, foram vislumbradas luzes, brilhos, colorações variadas, como duma aurora boreal…porém, mais intensas e prenhes de “metais” variados reluzentes enviando “sons” a meus ouvidos… e, de repente, deu-se espaço à audição sonora ao que passei a vislumbrar imagens. Sinestesia, como nunca me havia permeado a tal nível.

Adensou-se a ponto de se auscultar os sons — desde inaudíveis, vociferantes, aos mais altos e reagrupados que, embora soassem caóticos, faziam sentido, ao penetrarem as bigornas e martelos de meus tímpanos.

Situava-me entre algo febril e alucinado, enquanto a fronte transbordava em gotículas transpirantes… ao que, em contato ao ar mantido na nave, instantaneamente se cristalizava.

Esta tecnologia atual, em que o sistema recupera o oxigênio neste bólido interespacial, a partir do dióxido de carbono eliminado a partir da respiração de nós, tripulantes, começou a trazer preocupação a mim…único sobrevivente, dado que, com a morte dos dois outros, a situação também enveredou a outros caminhos não aventados! Pois parece ter-se iniciado também outra falha neste sistema de manutenção do “ar”, ainda que, aparentemente, a entrada na superfície marciana tenha durado segundos.

Até depois de adentrar o céu marciano e pousar, quando revisei os registros eletrônicos que voltaram a funcionar, percebi-os acusarem adensamento do espaço-tempo, como longas horas de estiramento (Einstein se regozijaria com tamanha relatividade vivenciada).

Aturdido, ainda assim, vislumbro da nave, o horizonte: solos arenoso-pedregosos e sua colorização avermelhada…

Após instantes a me recuperar, soluciono o até então impensável: pisar no solo marciano, como pioneiro! E eis que, ao sair, mesmo protegido (os terminais da vestimenta foram novamente preenchidos e, embora na nave o ar parecesse ficar rarefeito lentamente, consegui manter o uniforme revigorado), passo a ter sensações estranhas em minha mente ao pisar a terra marcial… eu sigo o olhar e a visualização do solo, das areias, das pedras, das cores…mas não consigo me focar, pois repentinamente os rasgos visuais se dão a mim como sons que se extravasam e penetram pelos meus olhos, em que tudo se coaduna aos ouvidos e se torna mais sonoro que visual… uma sinfonia que vai se alter(n)ando, se complexando, a cada momento em que direciono minha cabeça com mais rapidez.

Estou mergulhando num “mar” sonoro, cadenciado, com timbres e tons cujos instrumentos poderiam ser, talvez, os mesmos que se utilizam na Terra… mas creio que isto se assemelhe apenas a uma “coordenação” da mente a que eu consiga apreender tais conceitos (como quando um sonho acontece para reestruturar a mente no sono)! Ao olhar, daqui de fora, à nave, ela também, que tem brilhos devido aos metais, vai se sonorizando… e quando redireciono meus olhares às luvas, elas se sonorizam igualmente.

Estou mergulhando, enfim, num acesso atemporal sonoro…não consigo…mais…refletir ♫♩palavras…minha…mente ♬…tem dificuldade de formar… elucubrações♬♫♩♬…sons…sss… ♪sens…♫, ato♫♩i♬.

Ac♪ ♪♫, ♫ ♩♬♪♪ ♫, ♩♬♫ ♩♬ ♪ ♪ ♫, ♫ ♩ (♬ ♪), ♫ ♪ ♫, – ♪ ♪ ♩♬ – ♬♬♪…

♪♫ ♪ ♩♬ – ♬♬♪!

♪♩♬!

Gazy Andraus é pós-doutorando pelo PPGACV da UFG (bolsista PNPD-CAPES), doutor pela ECA-USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, pesquisador e membro do Observatório de HQ da USP, Criação e Ciberarte (UFG) e Poéticas Artísticas e Processos de Criação. Publica artigos e textos no meio acadêmico e em livros acerca de Histórias em Quadrinhos (HQs) e Fanzines. É autor de HQs e Fanzines na temática fantástico-filosófica.

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