Contos marcianos (6): Terra à vista, de José M. Umbelino Filho

Ninguém coloniza a solidão. ninguém habita o vazio. quando a nave finalmente pousa em solo marciano, os três pioneiros estão mais perdidos do que quando partiram

(Com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, o Jornal Opção começa a publicar uma série do que se pode chamar de “contos marcianos” ou de contos galácticos. As viagens espaciais estão, afinal, na ordem do dia.)

Terra à vista

José M. Umbelino Filho

…quando finalmente as estruturas de propulsão primária se desprendem e o módulo tripulado avança sozinho contra o escuro, ela se permite ligar o áudio e inundar o cockpit com a voz alienígena de David Bowie. it’s a god awful small affair, to the girl with the moisty hair. deveria ser um momento triunfal, ela pensa, deveria ser um momento histórico. mas está enjoada, sua cabeça se ressente dos barulhos, suas pernas imploram pela gravidade roubada. e os dois astronautas chineses que a acompanham são de poucas palavras. estão ocupados em manter botões apertados, luzes acesas, mecanismos em ordem. ela olha de repente a terra pelo visor e quer se emocionar. não consegue. lá embaixo fica apenas o que se despreza: a mediocridade humana. o horror, o horror!  em sua imensa beleza de luz e água, a terra brilha como a íris de um olho azul. mas em vão.  logo o planeta some no escuro e ela entende que diante da nave há apenas vazio. a distância, o desafio, a odisseia. agora, sim, ela se emociona. percebe que não merecia ter vindo. escolheram a pessoa errada. deviam ter mandado um poeta. um artista, um bailarino, uma criança. alguém que soubesse o que dizer. fecha os olhos e imagina que os duzentos e quarenta dias de viagem passam num segundo e a nave pousa em solo marciano.

a glória dos desbravadores! mas os dias não passam assim; os duzentos e quarenta dias no escuro, sinalizados debilmente num visor de luz azul. há apenas vazio a frente. por duzentos e quarenta dias, confrontar o vazio. confrontar o vazio. olhar diretamente no olho de uma divindade ausente. é verdade, talvez nenhum poeta sobrevivesse àquilo. poetas são criaturas delicadas, assim como os astronautas. talvez devessem ter mandado apenas os poetas suicidas. talvez máquinas. mas só as máquinas suicidas. agora ela já não pensa mais. aquilo não é uma viagem, é um naufrágio. sua alma é o destroço na espuma. não é um voo, é uma queda. pois uma pessoa é capaz de viajar por muito tempo e para muito longe; pode cruzar mares e desertos. pode sobreviver à fome e à exaustão. enfrentar selvas, monstros, bárbaros, calmarias, tempestades. mas ninguém vence a solidão absoluta. ninguém cruza o vazio. e diante deles é tudo o que há: anos-luz de ninguém. uma noite profunda. um infinito ninguém. e se para chegar a Marte, ou à esquina de casa, for preciso cruzar silenciosamente toda aquela solidão, todo aquele silêncio, todo aquele vazio, então que covardia lançar seres humanos a tal absurdo! ninguém coloniza a solidão. ninguém habita o vazio. duzentos e quarenta dias. quando a nave finalmente pousa em solo marciano, os três pioneiros estão mais perdidos do que quando partiram. ela desce primeiro. a primeira coisa que faz, a única coisa que faz, é a única coisa que importa fazer: olhar o céu desconhecido e procurar algum sinal da Terra, só para gritar, aliviada: Terra à vista!

José M. Umbelino Filho é escritor.

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