Contos marcianos (5): A angústia em Marte, de Tobias Goulão

Marte fez jus a seu nome e foi palco da 1ª guerra nas estrelas. Naquele lugar deserto muita coisa foi testada. Armas impensáveis fora da ficção científica foram utilizadas

(Com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, o Jornal Opção começa a publicar uma série do que se pode chamar de “contos marcianos” ou de contos galácticos. As viagens espaciais estão, afinal, na ordem do dia.)

A angústia em Marte

Tobias Goulão

Lembro-me daquele dia há dez anos com certa claridade — por mais estranho que seja usar o verbo “lembrar” em nossos dias efêmeros. O lançamento da primeira nave que foi para o planeta Marte com uma tripulação humana. Foi todo um reboliço. O mundo voltava ao tempo das grandes navegações, mas agora não havia o silêncio que tornou o evento apenas ibérico. Colombo hoje não seria esquecido, e Camões não precisaria de mais que três tuites inteligentes para ser a sensação do dia (o máximo que conseguiria). Era algo mundial. Mesmo que seja por um instante, alguém naquele dia, parou para ver a enorme espaçonave produzir uma imensa nuvem de fumaça e fogo para deixar nosso planeta em busca do primeiro lugar da nova corrida espacial.

É estranho pensar hoje no resultado daquilo tudo. Ver o veículo espacial de cores azul, vermelho e branco ganhar espaço, deixando para traz — por coisa de três meses — as naves verde e branca e a vermelha e amarela, acirrou os ânimos por aqui. Pareciam com aquelas histórias da antiga Guerra Fria, mas agora com mais vigor e sem muita margem para dizer que era mentira, como no caso da Lua. Todos viram, sem contar que checar se alguém está no planeta é a coisa mais simples. Uma única bobeira e o nosso sistema de internet X-Plus-G reporta para os sistemas do governo e rapidamente conseguiriam dizer se foi feito em algum estúdio verde de Hollywood. Não foi o caso.

A tripulação, composta por seis pessoas, três homens e três mulheres, conseguiu ser carismática o suficiente para se tornarem mártires da ciência ainda em vida. A considerar que eram os primeiros, muitos especulavam que não voltariam para a Terra. Mesmo assim, um pai de família, o sr. astronauta Peter Mendez aceitou a missão. Aqui podemos já desvendar um dos grandes mistérios daquela viagem: Mendez era o único astronauta da equipe, tendo passado por serviços em estações espaciais e tudo. Os outros foram “voluntários” treinados, sendo três deles pagantes de uma expressiva fortuna para conhecer o planeta vermelho. O caso de Mendez, mais famoso, foi que ele cobrou para ir. Depois de ter contraído grandes dívidas (hoje se sabe que foi com jogos online, sites de conteúdo adulto e investimentos cegos que afundaram) era a chance de poder deixar para a esposa e seus três filhos uma segurança financeira para que nenhum deles se preocupasse com mais nada. Mas, ao fim, o experiente ficou só. Uma complicação na aterrissagem levou a óbito um dos tripulantes. Duas falhas de segurança causaram a morte de mais três. Ainda havia um jovem senhor, com um nome russo que não me lembro, que, ao se desesperar por não ter certeza que retornaria para a Terra, acabou por se suicidar. Dizia que não iria morrer no desespero da incerteza daquele deserto e seria o senhor de sua vida. Saiu dos alojamentos, sentou-se em uma elevação próxima, retirou seu capacete e foi estrangulado pelo deus da guerra.

Restou Mendez naquele vazio vermelho. Isolado como nunca ouvimos dizer que outro ser humano ficou. Estava com alguns problemas. Todos os contratempos surgidos deixaram as coisas muito mais difíceis. Suprimentos e até mesmo oxigênio estavam com dias contados, parte do material para construção do laboratório foi perdido, as sementes para iniciar uma pequena plantação não foi encontrada no material que havia sido enviado com antecedência para o planeta.

Tentou organizar o máximo de coisas possíveis no acampamento durante um tempo, alimentado pelo sonho de ser resgatado por alguma missão desconhecida (ele também havia perdido o contato com a Terra, mas não sabia o motivo). Ao ocupar a cabeça ficou até menos apavorado, mas sonhos frequentes com homens vermelhos conversando ao seu redor em linguagem estranha fez surgir alguns questionamentos sobre seu fim.

Depois de calcular que teria pouco mais de um mês de suprimentos para viver naquele campo de batalha, começou a se desesperar como um condenado à morte em sua cela. Pensava em tudo, desde a captura pelas criaturas de seus sonhos ao simples fato terrível da morte solitária. Tamanha era a angústia dessa solidão que levou a uma série de grandes reflexões pessoais. Com o tempo ele resolveu gravar uma espécie de “Diário de Bordo” — que foi comercializado em audiobook e até mesmo transcrito com enorme sucesso. Nesse diário de um condenado algumas das mais interessantes ideias de nossos dias foram narradas.

Melancolia, de Edvard Munch | Foto: Reprodução

Dele surgiu o termo “loucura de Marte”, muito utilizado posteriormente para se aplicar aos eventos que sucederam a  sua expedição. O fator solidão pesou muito e, já entendendo que isso provocava os seus maiores tormentos no lugar, acabou por dizer em um de seus áudios: “Enlouquecer aqui é fácil. Marte é cruel. Só, sem mais uma alma viva por perto, tudo fica sob os olhos do Medo e do Terror. É a pior sensação dos mundos. Peço de todo coração que ao menos um alienígena apareça para aliviar essa solidão. Não consigo mais estar apenas comigo”.

Aquele terrível desespero acabou por se transformar em confissões. Descobrimos medos e tormentos de Mendez desconhecidos até mesmo pela família. Deixou claro toda sua miséria e pediu perdão a todos por não conseguir realizar a missão e acabar se condenando — e condenando a missão — sem nenhum sucesso. E já em contagem regressiva de dias de vida, acabou por compor alguns monólogos consideráveis em sinceridade.

Aquele quando fala do “eu”:

“Depois de muito relutar acabei por encontrar comigo mesmo. Aceitei que era o melhor a ser feito. Desse encontro surgiu um terrível conhecimento antes mascarado e que obrigou a deixar registrado um pedido de perdão a todos. Só já não havia espaço para ilusões, mentiras, disfarces. Era eu olhando para mim nu. Vi um terrível retrato e não fiz mais que chorar por muito tempo. Essa visão do meu próprio interior foi mais terrível que qualquer outra aparição nesse campo de morte”.

Não podemos deixar de lado o trecho mais comentado pelos críticos, uns por admiração, outros por desdém, mas todos falam dele:

“Aqui estou, náufrago, lançado no infinito e afogando. Procurando agarrar alguma coisa para suportar o fim da expedição que será também o fim da vida. À deriva, perdido em um oceano sem navios que possam me resgatar, só posso ver a morte se aproximando como o sangue ganhando espaço no horizonte com o pôr do sol. Morte essa que me afogará em um espaço vazio de vida, em um nada. E assim encontramos a derrota da primeira luta humana contra o deus da guerra.

Um Odisseu que nunca chegará em sua Ítaca. Sem ninfas pelo caminho, sem ciclopes para dar alguma emoção. Essa é a pura solidão de uma pessoa. Se houver uma angústia suprema assemelha-se ao que vivo nesses últimos dias. Só tenho por companhia Fobos e por sentimento Deimos, e nisso fico a olhar para o melancólico fim do dia imaginando como será o sentimento de saber que será o último. […] ‘Na noite afortunada/ em segredo, pois que ninguém me via,/ eu mesmo vendo nada,/ sem outra luz e guia…’.”

Esse foi seu último relato gravado, provavelmente com algumas horas antes de sua morte. Nada mais sabemos dos seus últimos momentos.

Esse trecho, logo que divulgado, fez muitos jovens redescobrirem a literatura existencialista na tentativa de se aproximar desse sentimento de angústia demonstrado pelo primeiro herói de Marte. Foi o motivo de vários cursos em plataformas online, discussões em lives, temas de trabalhos acadêmicos. Mas, como tudo aqui na terra é líquido, logo escorreu e foi esquecido. Hoje, o que ainda é considerado clássico em trabalhos intelectuais sobre Marte são aquelas duas teses europeias que ditaram o rumo de tudo mais que foi feito. Um é aquele estudo do importante intelectual alemão sobre “A hermenêutica das rochas de Marte: perspectivas e novos significados de um mundo em criação”, e também o tratado francês “Gênero e Marte: abordagens de neutralidade na desconstrução do mito marciano”. Todos são referências indispensáveis para os trabalhos que refletem o que aconteceu com o planeta vermelho.

Ao fim, a história de Mendez e sua evanescente tripulação foi o primeiro passo de uma trágica exploração. Depois de muito tempo soubemos que a China havia enviado uma tripulação antes, e o que seria sua entrada na corrida já seria uma segunda leva de colonos para o solo marciano. É claro que a presença desses dois antípodas temperada com a chegada da nave saudita criou um clima de tensão muito elevado. Em poucos anos os conflitos começaram. Marte, por fim, fez jus a seu nome e foi palco da primeira guerra nas estrelas. Naquele lugar deserto muita coisa foi testada. Armas impensáveis fora da ficção científica foram utilizadas na última batalha. Aquele mês de julho colocou um ponto final no primeiro grande evento interplanetário do nosso século.

Hoje, ao olharmos fotos do que foi o planeta vermelho, encontramos um brilho azulado em seu contorno. Dizem que é a radiação criada na atmosfera e que impede a sobrevivência de pessoas por ali devido ao teor radioativo que pediria um traje muito pesado, estruturas de habitação densas, o que somado ao equipamento de sobrevivência faria ser necessário uma mudança da própria estrutura humana. Se um dia a raça humana voltar lá será algo diferente do que é hoje. E não deve demorar tanto.

Tobias Goulão, mestre em História, é professor da Universidade Católica de Anápolis.

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