Contos marcianos (4): Viajantes, Solemar Oliveira

Em Marte, o Imbecilismo talvez se espalhe. Conquiste os microrganismos marcianos, em sua fase mais primitiva, e a nova raça já comece estragada pela síndrome

(Com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, o Jornal Opção começa a publicar uma série do que se pode chamar de “contos marcianos” ou de contos galácticos. As viagens espaciais estão, afinal, na ordem do dia.)

Pintura de Rafal Olbinski

Viajantes

Solemar Oliveira

“Somente os loucos espremem até as glândulas do absurdo e estão no plano mais alto das categorias intelectuais.” — Pablo Palacio

Não conseguia terminar a leitura. Estava preso em uma palavra e parecia que todas as outras desfilavam ao seu redor. Não! Passavam por baixo, como águas sob uma ponte. Deve ser a viagem. Eu cochilava. O brilho da TV me confundia. As palavras corriam pela folha amarela. Levantei-me. Sacudi a cabeça e, depois de beber um gole de água, mudei para o noticiário.

Em seguida, um filme. Um velório. Sobre o morto, nada além de sua memória. As pessoas não falavam. O enterro demorou um pouco menos do que os enterros normalmente demoram. Choveu, um clichê. Deixou o dia filmado mais melancólico. Espalharam-se, levianamente, os entristecidos parentes e amigos. É imperdoável que não pensem na brevidade da vida e, foda, blá-blá-blá.

Pintura de Iberê Camargo

Amanhã parto para Marte. Sou um astronauta servidor, segundo a empresa que organiza a viagem. Na nave, eu, os astronautas funcionais e mais vinte incautos aventureiros. Desbravadores da nova cultura de humanos no espaço. Um título idiota. E ridículos são todos os sonhadores milionários que esperam um grande futuro dessa empreitada. Meu papel não é secundário. Sou da tripulação. Cuido do sono dos passageiros. Espero que sonhem durante a viagem. Amantes, carros conversíveis, frutas de Natal que só se vendem no Natal, mansões, com dúzias de banheiro, e chardonnay francês.

Acomodação. Cintos de segurança presos. Regras e recomendações perfeitamente ditas e seguramente ouvidas. Decolagem. Barulho ensurdecedor, para os que ficaram lá fora. Nave no espaço. Oxigênio, apenas dentro. Abaixo de nós, a Terra. Certamente azul, como dizem. À frente, o indomado. Vazio que se engole, se autopenetra e destrói o nada ao seu redor, depois cria novamente. Uma espiral perpétua. Depois dos uivos de alegria e das comemorações orquestradas, hora de dormir. Aplico, com um recurso simples, um dispositivo acoplado às roupas dos passageiros, um sonífero forte. Já sonham com o futuro, pois é o futuro que desejam. Antes do meu sono, penso em churrasco e Coca-Cola. Sou o derradeiro, como deve ser.

Pintura de Iberê Camargo

Por causa da cena que vejo, gastei uns minutos, ainda, pensando numa ideia que venho amadurecendo há algum tempo. O Imbecilismo. Nada muito complicado. Algo entre o indiferentismo crônico e o completo desconhecimento de todas as coisas relacionadas aos humanos. Uns possuem, outros também. Lembro-me do meu irmão, como um isento. Tinha anticorpos para essa doença. Uma inspiração. Preciso esperar alguns minutos para garantir que todos estejam confortáveis e imersos em um estado de sono profundo. Observo os rostos sortudos feitos por Deus, em algum momento de Sua folga, que deve acontecer raramente, ou durante o excesso de trabalho, nas horas extras eternas, abobados e com semisorrisos indiscretos nos lábios imbecis. Os cheques compensados e um canhoto da passagem, para guardar de lembrança.

O Imbecilismo não é uma novidade. Em Marte, talvez ele se espalhe novamente. Conquiste os microrganismos marcianos, em sua fase mais primitiva, e a nova raça, que eventualmente venha a surgir, já comece estragada pela síndrome. Não há como evitar. O contágio, não sei como se processa. Pensamento. Mucosa. Piolhos (nanopiolhos). Um olhar demorado. Há possibilidades. Muitas. O fato é que qualquer novo ser, marciano ou não, será um imbecil em algum momento. Reduzido à simplicidade e ao egoísmo. À superficialidade das ações inerciais. Tudo que executa é por impulso. No sentido da correnteza. A moda. Então, os passageiros, guardadas as condições especiais, são como os atores na cena do velório, de ontem na TV, de luto, com a indumentária correta. Não pensam no que importa e, ridículo, blá-blá-blá.

Agora, o meu sono. Acomodado numa poltrona confortável e limpa, aperto no painel o botãozinho que leva o soro, como um interruptor que desliga, desde a ampola invisível até a corrente sanguínea. Em instantes, durmo o sono que não desejo, mas nele poderei articular a estrutura do Imbecilismo, sem o óbvio cansaço do cérebro. Criar a tese para os marcianos estudarem e que, talvez, seja a razão de sua sobrevivência decente.

É isso. Nos vemos em Marte.

Solemar Oliveira é escritor.

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