Contos marcianos (3): ET abduz Bolsonaro pra salvar o Brasil, de Carlos da Silva

Astrolabium aparece em Esperantina, no Piauí, e convence Otávio Arantes a ajudá-la na empreitada para capturar e levar o presidente para Marte

(Com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, o Jornal Opção começa a publicar uma série do que se pode chamar de “contos marcianos” ou de contos galácticos. As viagens espaciais estão, afinal, na ordem do dia.)

ET abduz Bolsonaro pra salvar o Brasil

Carlos da Silva

Otávio Arantes Cavalcante de Macedo não é um narrador confiável. Porque, ao misturar alhos com bugalhos, parece acreditar que a realidade é pura ficção. Mas, como a história é dele, que foi testemunha ocular e auricular dos acontecimentos, cedo-lhe o lugar, como polícia literária, para relatar os fatos.

Meu nome é Otávio Arantes e, please, não confie em mim nem no narrador que diz que a narração é minha. Ponha um pé atrás. Sou uma espécie de Bentinho da política, nascido em Esperantina, mas com parentela em Piracuruca, belas cidades do meu Piauí.

Um dia, sob um calor escaldante de 41º, estava eu a passear pelas ruas de Esperantina. Ah, não me lembro bem. Talvez tenha sido nas ruas de Nossa Senhora dos Remédios ou de Piracuruca. De repente, escuto uma voz: “Tu, bom amigo, conhece Marte?” Olhei, desolhei, tresolhei. Não vi ninguém. A voz, tão melodiosa quanto a de Chico César e a de Lucy Alves, continuou: “Você não está me vendo, pois estou usando tinta invisível para não incomodar os terráqueos”.

Pronto!: pensei: “Sou ou estou ficando louco, pois começo a ouvir vozes, e nem sou espírita”. Saí correndo e entrei, ofegante e quase infartado, no Centro Espírita São Miguel das Flores Estreladas. Mais esbaforido do que caititu em roça de milho, balbuciei para o seu Zé das Espigas, um homem forte com ar de ET — orelhas grandes e olhos saltados, como se quisessem fugir do rosto —, que estava sendo perseguido por vozes.

Incrédulo, Zé das Espigas disse: “Acalme-se. Deve ser o calor — 41º na sombra torra o cérebro de qualquer um. Venha hoje, à noite, na sessão e vamos verificar o que está acontecendo”.

À noite, meio desconfiado, compareci ao centro. Em torno de uma mesa, sentadas, 13 pessoas. O número não me agradou: pensei logo em azar. Mas lembrei que, contando comigo, eram 14. Aí fiquei tranquilo. Sereno, de roupa branca, Zé das Espigas puxou uma cadeira e pediu para que eu me sentasse. Sentei.

Zé das Espigas fechou os olhos, como todos nós, e invocou sabe-se lá o quê ou quem. Cinco minutos depois, uma voz disse: “Otávio Arantes, seu safado, pague os 500 reais que deve para meu filho”. Fiquei assustado. Porque, de fato, eu devia 500 reais para Colemar do Couto, que havia me vendido uma cartucheira e um bicicleta. Paguei 200 reais e fiquei devendo 300. Portanto, minha dívida não é de 500 reais.

Cutucado por Zé das Espigas, eu disse, de maneira quase inaudível: “Devo, não nego e vou pagar os 300 reais”. O espírito, ou seja lá o que for, respondeu: “Pague, porque senão lançarei uma maldição sobre sua família”.

Saí do centro espírita convicto de que não estava louco, as outras 13 pessoas também ouviram a voz de seu Manuelzão do Couto, que havia morrido havia sete anos.

Porém, 30 metros depois, a Voz voltou: “Amigo Otávio, a voz que falou no centro espírita não era a minha, não. Por favor, não fique assustado. Meu nome é Astrolabium, e sou soldado de Marte e vim ao Brasil com uma única missão. Mas preciso de sua ajuda”.

Peão do trecho, sou mercenário, por isso, embora assustado, decidi dizer: “Certo, ajudarei você, mas preciso de 500 reais para pagar uma dívida”. Astrolabium retrucou: “Mas, até agorinha, não eram 300 reais”.

Envergonhado e com certo medo, anuí: “Pois é, a dívida é de 300 reais. Mas, como devo 200 reais para a comadre Eva de Matão de Dentro, de Santa Cruz dos Milagres, preciso de 500 reais”. A Voz concordou: “Sim, pagarei mil reais. Combinado”.

Pintura de Siegried Zademack

Mais confiante, eu disse para a Voz: “Mas, se não vejo você, como posso confiar no que está dizendo?” De repente, escutei o barulho de uma coisa raspando. A Voz estava raspando parte de seu corpo. Pude perceber, meio assustado, que estava diante de um homem alto, cabeçudo, com orelhas gigantes e um nariz que parecia uma tromba de elefante, só que menor. Bonito? Feio. Mais ou menos. Não tão assustador, mas, por ser diferente dos homens, poderia pôr para correr qualquer pessoa.

Do mesmo modo que “apareceu”, Astrolabium sumiu. Porque, enquanto a gente conversava, Mário do Arroz havia chegado e já começou a perguntar: “Deu para falar sozinho, Otávio Arantes?” Dei uma desculpa: “Estava pensando em voz alta”. “Ah, bom. Cuidado para não ficar doido, como ocorreu com seu João das Embiras. Ele começou a conversar sozinho, alegando que ouvia vozes e que precisava respondê-las. Ficou louquinho da silva e agora mora num asilo de Pavussu.”

Louco eu? Nada disso. Astrolabium reapareceu e, para meu desconcerto, disse: “Sabe, não sou macho. Sou fêmea”. Teria a ET uma queda por mim? Não sei. Mas qual é sua proposta mesmo?

“É o seguinte. Vim ao Brasil com uma missão. O governo de Marte chegou à conclusão de que é preciso abduzir o presidente Messias Bolsonaro Jair. Nós precisamos levá-lo para o nosso planeta, para reeducá-lo”, disse a Voz, ou melhor, Astrolabium.

Reeducá-lo? Como assim? Astrolabium não se fez de rogado e esclareceu: “Bolsonaro está planejando um golpe de Estado, o que levará o país ao caos, em outubro de 2022. Portanto, se levarmos o presidente para Marte, vamos reeducá-lo e o devolveremos ao país em 2023”.

Com a pulga atrás da orelha, perguntei: “Mas como eu, um homem simples do Piauí, posso ajudá-la na empreita?”

A Voz, quer dizer, Astrolabium, esclareceu: “Você precisa me guiar até o Cercadinho de Bolsonaro, em Brasília, segurando firme na minha mão, pois meu equilíbrio, dada a questão do oxigênio, é precário. Ninguém irá desconfiar de você, um homem do povo”. De um embornal invisível, a ET retirou uma camisa amarela, com os dizeres “Brasil, ame-o ou deixe-o” e me entregou. “Vista-a quando chegar na capital.” Quis saber: “Como faço para ir até Brasília”. Astrolabium me disse: “Você pega um ônibus da Real Sul ou da Rápido Marajó. A passagem custa 230 reais”.

Mas não tenho dinheiro para ir e voltar, além de que há o problema da hospedagem e da alimentação. A ET cortou-me: “Pensei em tudo isso. Pegue mais 2.500 reais. Terminado o serviço, lhe darei mais 2.500 reais”. Contentei-me. Mas, antes, indaguei: “E como você irá para Brasília?”. Astrolabium explicou-se: “No mesmo ônibus no qual você viajará”.

No dia 8 de setembro, um dia depois das comemorações da Independência, estou todo pimpão na porta do Palácio do Alvorada, segurando uma mão invisível, com firmeza. Bolsonaro aparece, com sua carantonha branco-avermelhada, mandando beijos para o público, que o aplaude e pede intervenção militar.

De repente, como por encanto, Bolsonaro desaparece e todos ficam bestificados — como aqueles que assistiram a Proclamação da República em 1889. Astrolabium não deu nem sinal de vida.

Dois dias depois, estou na Rodoviária de Brasília, comparando os preços de passagem para Teresina, quando, de repente, a Voz diz: “Otávio Arantes, obrigado. Bolsonaro já está em Marte, em processo de reeducação. Por enquanto, delirando, está resistindo e falando em tomar o poder. Mas já está mais calmo. Já está até usando máscara”.

Pergunto: “Por que você voltou?” A ET disse: “Para pagá-lo e agradecê-lo”. Peguei o dinheiro, coloquei no embornal e senti, de leve, o que parecia um beijo na face esquerda. “Adeus”, disse Astrolabium.

De volta ao Piauí, contei a história para parentes e amigos. Ninguém acreditou. Até seu Zé das Espigas acha que estou louco ou possuído por um espírito maligno. O resultado é que agora faço companhia para João das Embiras no asilo de Pavussu.

Aposto que você também não acredita na minha história. Ah, tenho saudade de Astrolabium. Tenho certeza de que ela me compreenderia…

Carlos da Silva é escritor. Mora em Teresina (PI). Email: [email protected]

Uma resposta para “Contos marcianos (3): ET abduz Bolsonaro pra salvar o Brasil, de Carlos da Silva”

  1. Muito bom o texto. Perfeito! Parabéns ao contista pela criatividade, originalidade e mente abundantemente fértil.

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