Contos marcianos (2): Olha o que apareceu aqui!, de Hélverton Baiano

A nave deixou um pacote na cidade e desapareceu. Sabe o que continha o embrulho? Uma coisa totalmente inusitada

(Com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, o Jornal Opção começa a publicar uma série do que se pode chamar de “contos marcianos” ou de contos galácticos. As viagens espaciais estão, afinal, na ordem do dia.)

Olha o que apareceu aqui!

Hélverton Baiano

Linda, estrambótica, assobrejética e exuberante aquela nave no meio da rua, entre seis e sete horas da noite, o dia escurecendo, e aquele trem mais espalhafatoso de luzes multicoloridas, ziguezagueando nos olhos da gente e deixando um troço todo empacotado para a estupefação do povo da cidade. A gente era tudo meio cafuçu, sem tino pra essas livuzias do céu. O trambolho ficou ali mais de meia hora, sem barulho, apenas com o estardalhaço das luzes e a nossa estupefação fazendo parte do cenário. Zizuíno fotógrafo tratou de clicar sua Minolta 6×6, para garantir a veracidade da história. Após deixar o pacote, a nave suavemente decolou e a uns 20 metros de altura soverteu-se num arremedo de velocidade que ninguém a olho nu conseguiu acompanhar por mais de um segundo.

De carabina empunhada, o delegado Osires e os soldados Tuinha e Fogoió se entrincheiraram vendo aquela marmota toda e, de prontidão, para o caso de acontecer algum movimento suspeito. Agachados estavam, e estupefatos também, e agachados ficaram averiguando o presente deixado pela nave. Depois de algum tempo, o povo foi espiar. A cidade toda rodou em volta do tal presente, indagando, mas sem coragem de aproximar. Muita gente não foi nem dormir naquela noite, ficando ali de butuca, vigiando. Houve quem chegasse até a se ajoelhar e a rezar, achando que aquilo veio a mando de Deus e, quem sabe, de lá pudesse sair um santo ou outra coisa sagrada. Quem sabe, Nossa Senhora da Glória, a padroeira? No dia seguinte, cedinho, lá estavam as autoridades mandando isolar a área com corda de imbé, emendada com sedém, pra ninguém chegar perto até elas resolverem que fim dariam ao embrulho.

O papel que o envolvia era fino como seda e lustroso feito panela areada na decoada, mas ninguém conseguia abrir ou rasgar. Em seguida, tentaram machado, facão, foice, alavanca e nada. Também ninguém conseguia aluir o tal objeto. Era pesado demais e cheirava a baunilha.

Mais de vinte dias se passaram, quando começou uma romaria, primeiro dos povoados, depois das cidades vizinhas. A notícia espalhou e numa distância de seis léguas veio gente curiar e dar palpite, que gente pra isso não falta por lá. Os conterrâneos começaram a ganhar dinheiro com o turismo do objeto do outro mundo e a planejar investimentos para implementação do turismo extraterrestre na cidade. Casas estavam virando pensão, as ruas cheirando a mijo, os becos cheirando a bosta e os córregos entupidos de gente tomando banho.

No décimo segundo dia, após o início da romaria, no entanto, para desespero de uns e encantamento de outros, Piolho de Bosta, um peralta da favela e que andava aprontando na cidade, encostou no pacote, soltou um baita dum peido, estrondoso e malcheiroso, o maior que já se ouviu por ali, e o embrulho se desfez com a leveza de uma pluma, nem parecendo o troço impenetrável e misterioso que estivera ali por tantos dias. De dentro saiu uma moça bela, belíssima, bonita a mais não poder, mas bota bonita nisso, esculturalmente pelada, daquelas de fazer inveja à mais linda miss universo. Carlim Providência correu no sufragrante, esbaforido mesmo, ao comércio de Seo Tim Pano, catou de lá um pedaço de tecido e, para empunhar contrariedade aos homens que assistiam à cena, embrulhou a moça. A polícia tratou de encaminhá-la rapidinho para a casa do prefeito, onde se dirimiam as dúvidas e se criavam outras maiores ainda.

Acho que não era o melhor lugar para onde despachá-la, mas minha opinião e merda eram uma coisa só. Ninguém me ouvia e nem me escutaria, ainda mais numa situação daquela. Mas o que eu imaginei, bichão, aconteceu!

Lulindo, filho do prefeito, raparigueiro inveterado, que não se apartava do cabaré de Ana Preta, da boate Schana Cool e das festinhas que a mocidade fazia para introduzir lá uma música chamada de rock and roll, achou a fruta doce. Dito e feito, mais feito do que dito, Lulindo, todo serelepe, passou a cuidar da moça do outro mundo. E olha que cuidou muito bem! Boa coisa eu sabia que não daria. Na primeira noite o rapaz foi sorrateiro ao quarto da extraterrestre e usou com ela os dotes de macho terráqueo bem-sucedido nos enfrentamentos da carne.

Dois dias depois, a moça já estava toda buchudona, com uma barriga, para nós humanos terráqueos, assim de uns sete meses, um espanto pelo pouco tempo passado após a furupa. No dia seguinte, quando menos se esperou, ela se enrolava e se atrapalhava na cama com quatro bebezinhos, dois meninos e duas meninas, logo, logo socorrida pela primeira-dama em fraldas e mamadeiras.

Dois dias depois, sem mais nem menos, Lulindo, os filhos e a extraterrestre desaparecem como que por encantamento, e sem deixar vestígio. Desse acontecimento o que se sabe é que, passados cinco meses, até hoje ninguém dá notícia dos desaparecidos, e nossa cidade, não demora muito, vai ficar mais famosa que Varginha, em Minas Gerais. Após o acontecido, a notícia circulou por umas tais redes sociais da internet, coisa que a gente nem sabia que existia. Pelo visto surtiu um efeito danado, pois nossa cidade ficou famosa. Os repórteres vieram. Ouvíamos e víamos falar dela pelo rádio e pela televisão. Eu mesmo, que não sou de conversar muito, ouvi gente dizendo que tinha chegado a notícia, de pessoas falando na redondeza, que outra nave daquela estava a caminho da nossa cidade. E, pelo que foi escutado, não vai demorar muito, não, viu?

Hélverton Baiano é poeta, prosador e jornalista.

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