Contos marcianos (14): Os sucessores, de Leonardo Teixeira

Muitos homens vivem lá fora como se nada lhes fosse capaz de tirar sua perturbação e sua soberania

(Com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, o Jornal Opção começa a publicar uma série do que se pode chamar de “contos marcianos” ou de contos galácticos. As viagens espaciais estão, afinal, na ordem do dia.)

Os sucessores

Leonardo Teixeira

Quando Euclides falou aos amigos que tinha visto uma espécie de estrela cadente misturada com cometa e que aquilo teria pousado no meio da reserva florestal, falaram que ele assistia Alienígenas do Passado demais. Em breve usaria cabelo arrepiado e um talismã maia. A zoeira brasileira não perdoa! Terráqueos enviaram sondas e fizeram pesquisas sem autorização em Marte. Quem sabe a lei da ação e reação (terceira lei de Newton) tivesse sido manifestada?

Foi o que aconteceu! Não foi a nave de Clark Kent nem as teorias de ufólogos de plantão. O problema é que não havia mais vestígios do objeto não identificado, salvo algumas árvores emborcadas e um mato assentado já ressecado, como se alguma radiação parecida com as de antenas parabólicas tivesse marcado o chão.

Mesmo sendo Euclides um rapaz cético (agora alvo de comédias pela insanidade), nunca se interessou pelo sobrenatural ou pelos misticismos que assolam os desvairados exotéricos. Ele sequer sabe quem foi Padre Quevedo e nunca assistiu ou leu nada sobre pessoas especializadas em fantasmas e eventos paranormais.

Isso mudou quando percebeu algo estranho com o seu vizinho (apelidado de Nhonho), um jovem rechonchudo ultranutrido, com acúmulo de lipídios adiposos, de repente foi secando sem fazer dieta, nem cirurgia, muito menos atividades físicas. Em uma semana ficou tão raquítico como um faquir, com olheiras que denunciavam o pouco sono.

Nhonho contou ao vizinho Euclides que antigamente ele sonhava maravilhas e amenidades. Todavia, desde a visita de um bizarro ser, que parece ter vindo de Marte, só tem pesadelos violentos ou imagens em que está se despencando num abismo. E sempre acordou assustado, mais magro e mais fraco. Nesses dias ele percebeu que a moringa ao lado de sua cama sempre secava, além de cair água repentinamente dos chuveiros e das torneiras. Já reparou que algumas vezes as instalações vazam água de forma sinistra?

Euclides falou que deveria ser defeito hidráulico ou ações da própria física… Desde o dia em que o objeto pousou na mata Nhonho teve esses pesadelos. Sua moringa esvaziava, a torneira pingava e a ducha expelia uma chuvinha como se tivesse sido chupada. Chegou a pensar que fosse sonâmbulo, pois não havia ninguém em casa. Nas noites seguintes passou a trancar a porta do quarto, mas os pesadelos continuavam e a água esvaziava da moringa. A sensação era horrível, pois ele acordava com sede. Jamais teria sede se tivesse ingerido dois litros de água. Afinal, muitos sonâmbulos não se saciam do que se alimentam!

Ele passou graxa nas mãos e pó de grafite em volta dos lábios. Desta forma, se tocasse a moringa, ela seria tingida e se bebesse água, o pó de grafite teria se desmanchado. Pois bem: com portas e janelas trancadas, a moringa ficou vazia e intacta novamente. Nhonho acordou assustado e ofegante. Resultado: alguém ou uma coisa entrou e consumiu suas energias, ingerindo água posteriormente. Aquilo era muito estranho!

Euclides teve uma boa ideia. Montou um circuito interno para capturar áudio e vídeo, com muita nitidez, apesar do escuro da noite. E no dia seguinte constatou que durante a filmagem, o corpo de Nhonho ficou muito inquieto, durante o estágio do sono REM (com os olhos no conhecido movimento repetitivo ocular) e, instantes antes de acordar, a água diminuía inexplicavelmente, como se tivesse sido sugada por um canudo invisível. Em seguida, parece que a água dali não era suficiente. O chuveiro e a torneira pingaram, como se uma força de sucção extraísse do cano aquela água parada.

Por tal absurdo, Euclides procurou pesquisou e encontrou profissionais exotéricos e alternativos. Instalou aparelhos no quarto para detectar atividades sísmicas, detectores de rádio frequência, variações elétricas, sonoras e de energia. Instalou também um dispositivo ultravioleta de movimentos, raios ômega para estudar atividade quântica, além de um moderno captador de movimentação de micropartículas aéreas. Tudo isso fomentado pela poupança e com um empréstimo financeiro de Nhonho. Após uma semana de testes, o pessoal concluiu que instantes antes do pesadelo, partículas se alteravam em volta da cabeça do seu vizinho e os raios ômega detectaram pequenas interrupções de caminho. Houve variação elétrica corpórea e grande movimentação de energia, como se da respiração ofegante e lenta dele – durante o sono -, fosse extraída sua energia vital. Por isso ele emagrecia tão vulnerável quanto uma criança desprotegida.

Além dos raios gama e a luz ultravioleta, um sensor térmico aliado a um aparelho que se assemelha a um olho de cobra, captou o formato da energia corpórea e conseguiu finalmente detectar um ser do tamanho de um adolescente, com a cabeça um pouco maior do que a dos homens. Teria alguma referência com aqueles alienígenas imaginados por inúmeras pessoas? Olhos grandes, corpo magro e pequeno… A criatura simplesmente se materializava no meio do quarto e chegava próximo da cabeça do Nhonho. Pelo ar respirado ela sugava energia vital para se alimentar. Enquanto isso o rapaz definhava rapidamente. Ela sorvia água da moringa e das instalações hidráulicas. Depois sumia repentinamente e todos os dispositivos detectavam atividades normais no quarto.

Euclides leu num jornal local que havia forte desnutrição em vários países do mundo. Não era somente um problema africano como se via há muitos anos. Inúmeras pessoas sofriam de insônia e pesadelos constantes. Foi daí que ele concluiu seu pensamento. Seu vizinho sofria perseguição estranha de um ser jamais descrito pela ciência humana. Euclides imaginava que esses seres se alimentavam dos humanos, e como se fossem súditos e os aliens seriam os sucessores que habitarão o nosso planeta. Não se sabe se isso foi um gatilho da ação e reação em Marte ou se é por conta da maneira com que o homem tem tratado a natureza e esse planeta. Elucubrações!

Os vizinhos da frente ficaram com medo das torneiras que vazavam repentinamente. Objetos que caíam ou sumiam eram causas de terríveis temores. Nada mais era tão sórdido quanto essa experiência. Mas o mundo parecia não se importar com isso. As piadas continuaram e poucos levaram Euclides e Nhonho a sério. Muitos homens vivem lá fora como se nada lhes fosse capaz de tirar sua perturbação e sua soberania.

Seis meses depois da primeira visita, Nhonho teve falecimento de múltiplos órgãos. Euclides se sentiu muito triste pela perda daquele jovem. E mais triste ainda, pois sabia que o problema dos vazamentos hidráulicos no mundo estaria longe de ser resolvido.

Leonardo Teixeira é escritor.

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