Se consciente eu fosse, poderia pensar que não sou eu a repetir informações, mas as informações que teimam em se repetir

(Com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, o Jornal Opção começa a publicar uma série do que se pode chamar de “contos marcianos” ou de contos galácticos. As viagens espaciais estão, afinal, na ordem do dia.)

Pro rumo da minha terra

José Fábio da Silva

“Apenas seres conscientes podem se dar ao luxo da inutilidade. Uma máquina só existe se exercer uma função.” — Provérbio robótico

Com exceção dos relógios, uma máquina não costuma contar o tempo. Mas posso afirmar que, se viva eu fosse, muito velha eu seria. Desde quando fui ligada, existo nesse deserto. Segundo minha programação, cheguei em uma pequena cápsula que não resistiu a aterrissagem. Eu mesma sofri avarias, que de imediato foram constatadas, por mim mesma, como de baixo risco. Pouco comprometiam a realização de minha programação. Embora, vez ou outra, possa embaralhar a ordem dos dados. O que os seres conscientes chamam de uma má concordância na construção de frases.

Simples, minha função é. Atiro dados ao espaço como informação aos que um dia aqui chegarão. Estão a caminho e precisam saber o que os aguarda nessas terras pouco conhecidas. Se viva eu fosse, pioneira eu seria. Desde quando fui ligada, existo nesse deserto. Como máquina não passo de uma ferramenta para os que me construíram. Apesar de acumular a cada dia mais e mais dados, ainda sou a mesma de minha programação inicial. Ter informação não é o mesmo que ser inteligente. Acumular dados também não significa aprender.

Em breve os meus construtores estarão por aqui. Aí, serei desligada, minha missão terei cumprido. Ao menos é isso que diz as minhas informações de origem. Recolho dados e transmito informações. Não recebo informação alguma de volta. Assim, sei que estão a caminho e que existe um tempo estimado para chegarem. Pode ser que nunca cheguem, mas isso não importa, como máquina não especulo. Desde quando fui ligada, existo nesse deserto. Não fui programada para tomar atitudes, apenas recolho dados e transmito informações.

Outro problema que foi detectado em meu sistema é uma constante repetição de informações. Incorro na repetição de dados já tabulados. Sobrecarrega a minha memória, mas não atrapalha em si o meu funcionamento. No mais, desde que cheguei nessa outra terra, tudo é como se igual sempre fosse. Noite após noite, uma grande estrela surge e tudo ilumina. Dia após dia, ela desparece e tudo escurece. A temperatura sobe e depois cai. Os ventos sopram e depois param. As pedras são as mesmas pedras de todos os dias. Desde quando fui ligada, existo nesse deserto. De modo que, se consciente eu fosse, poderia pensar que não sou eu a repetir informações, mas as informações que teimam em se repetir.

Com exceção dos relógios, uma máquina não costuma contar o tempo. Mas algo de novo ocorreu desde que aqui cheguei. Outra máquina. Também aqui estava a muito tempo. Como eu recolhe dados e os atira ao espaço. Mas certeza eu tenho que não os envia pro rumo da minha terra. De outo lugar essa máquina semelhante é. Diferente ela é, mas a função que exerce é igual a minha. Como eu recolhe dados e os atira ao espaço. Mas para outros seres conscientes. Outros seres também diferentes, mas ainda assim com os mesmos objetivos. Objetivos que não sei quais são, visto, ser simples a minha função. Objetivos que não sabe quais são, visto, ser simples a sua função.

Se consciente fosse, feliz ficava por ter agora companhia. Mas para mim ou para a outra máquina isso pouco importa. Continuamos a nossa simples missão. Agora os meus criadores têm a informação de que outros seres querem o mesmo que eles. Os outros seres a mesma informação possuem. A outra máquina também tem avarias. Se viva ela fosse, diria que coisa da idade seria. Mas máquinas não envelhecem. Apenas deixam de desempenhar a sua função e são desligadas. Assim eu serei quando os meus criadores aqui chegarem. Terei minha missão cumprido. Assim ela será quando os seus criadores aqui chegarem. Terá a sua missão cumprido. Se os criadores dela antes dos meus chegarem, o resultado é o mesmo, embora em outra perspectiva.

Ambas teremos nossos dados removidos e depois seremos desligadas. Para os nossos criadores, é algo de suma importância. Para eles, agora, tudo é uma corrida. Para nós, máquinas, tudo não passa de recolher dados e atirá-los ao espaço. Pouco importa quem a informação receba. Não conhecemos os nossos construtores. Quando finalmente chegarem, para nós diferença não irá fazer. Desde quando fomos ligadas, existimos nesse deserto. Ao menos é isso que diz as nossas informações de origem.

José Fábio da Silva é membro da Academia Anapolina de Letras.