Contos marcianos (1): Um gato intragaláctico, de Edival Lourenço

Usando de tecnologia ultraquântica, hermética ao entendimento de nosso estágio científico, aliens instalaram um gato intragaláctico para roubar água de nosso planeta

(Com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, o Jornal Opção começa a publicar uma série do que se pode chamar de “contos marcianos” ou de contos galácticos. As viagens espaciais estão, afinal, na ordem do dia.)

Um gato intragaláctico

Edival Lourenço

Em 2030, o multibilionário, multinvestidor e visionário Elon Musk reuniu as condições julgadas necessárias e suficientes para iniciar a colonização de Marte. Não se esqueceu de nada. Consolidou, inclusive, a cozinha interplanetária.

Musk não abriu mão de, em certa medida, participar pessoalmente da expedição pioneira e ousada. Participar pessoalmente, vírgula, ou melhor, dois pontos: para ir, e ao mesmo tempo ficar, Musk mandou desenvolver, em uma de suas startups de biotech, um clone de si mesmo.

O gestor do Projeto Clone foi o mesmo do projeto do carro Tesla S Plaid que, em julho de 2021, explodiu em pleno movimento, com três dias de uso. Assessores do magnata aconselharam-no a trocar de gestor. No entanto, cabeça dura, manteve o técnico, partindo do princípio de que grandes erros catapultam enormes descobertas. Até citou o caso de seu ídolo do rock e otras cositas mas, Keith Richards, dos Stones, que garante criar seus emblemáticos riffs de guitarra, a partir de erros cometidos durante os ensaios. Seu duplo deveria ter as mesmas características do modelo-matriz. Deu-lhe o nome de Elon Clooney, em homenagem a si mesmo e ao amigo e ídolo do cinema, George Clooney, que, em 2020, havia estrelado e dirigido o legendário filme pós-apocalíptico, de viagem espacial, “Céu da Meia-Noite”. Concedeu a Elon Clooney a primeira cidadania marciana e instalou, entre ele e seu duplo, uma conexão telepática. Musk poderia participar realmente da expedição, administrar os problemas surgidos, sem ter que arriscar a própria pele. Em caso de sinistro, sairia ileso.

A marca proeminente do gestor do Projeto Clone é a genialidade com defeitos ocultos. Elon Clooney não foi diferente. Saiu cego de um olho e com alguma instabilidade emocional. Julgado por Musk não ser necessário reparar as anomalias, a cópia caolha e instável seguiu para Marte, no comando da missão.

Ao martirizar, ou seja, tocar o solo com a expedição em Marte, Elon Clooney comandou com eficiência a montagem do acampamento e estabeleceu as primeiras ações da colonização. Certo dia, com depressão, pilotando uma das naves, afastou-se da equipe e enxergou, abaixo dos trópicos, numa vibração invisível a olho comum, uma enorme colônia, habitada por seres com certa aparência humana. Deduziu que seriam imigrantes de algum exoplaneta estiolado.

A visão do lugar e de sua gente só foi possível graças aos defeitos clonais (a misantropia depressiva e a cegueira), na verdade, uma visão de lince pós-biótico. Elon Musk nunca vibrou tanto consigo mesmo como quando certificou o acerto de sua decisão, na escolha do gestor do projeto, e quando intuiu que os defeitos, na hora exata, teriam uma utilidade extraordinária. Isso lhe provocou um sopitamento de autoconfiança que, de normal, está sempre esguichando pelas tampas.

Pintura de Nicole Stott

Elon Clooney viu na colônia um problema gravíssimo para nós terráqueos. Usando de tecnologia ultraquântica, hermética ao entendimento de nosso estágio científico atual, os aliens instalaram um gato intragaláctico, para roubar água de nosso planeta, e sanar suas necessidades gerais. Com um campo hidrófilo potencializado, pelas forças magnéticas do planeta Marte, por meio de um tubo anticatódico de sucção contínua, desviavam a umidade da atmosfera e os rios voadores da Terra, provocando secas, desertificações e diversos outros fenômenos prejudiciais aos nossos biomas. Não bastasse a ação do homem contra seu próprio habitat, somou-se o desvio de água, em forma de vapor, para Marte, que tornou o problema singularmente dramático.

Segundo cálculos preliminares da equipe de Elon Musk, as duas ações combinadas, do homem e dos alienígenas, são capazes de inviabilizar a vida humana, na Terra em, no máximo, meio século.

Elon Musk: empresário com vocação para astronauta | Foto: Reprodução

O multibilionário já se reuniu secretamente com os líderes do G7 e da Comissão de Segurança Interestelar da ONU. Ainda não conseguiram definir, com precisão, como será o desarme do gato. Nem que ferramentas, armas, estratégias e habilidades serão usadas no combate a essa milícia do vapor d’água. Mas, de uma coisa, já têm certeza. Tudo será planejado e desenvolvido pela criatividade fosforescente de Elon Musk e seu clone misantropo com visão biônica. E a fortuna do magnata há de deixar seus concorrentes imediatos comendo poeira terráquea e marciana.

No entanto, alguns senões começaram a erodir as bases da missão. Primeiro: há algum tempo não se sabe o paradeiro de Elon Clooney. O comando da expedição foi entregue a um apagado ajudante de ordem. Segundo: diante do comportamento errático, egocêntrico e arbitrário de Elon Musk, o governo americano chamou o FBI para investigá-lo.

Já na primeira diligência, num exame de fundo de olho, por teleobjetiva, ficou comprovado que, aquele que se diz Elon Musk, é cego de um olho.

Edival Lourenço, escritor, é membro da Academia Goiana de Letras (AGL).

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