Contos de ficção científica à brasileira – Parte 1

A fim de homenagear o gênero da ficção científica, ainda marginalizado no Brasil, Anderson Fonseca, Luiz Brás e Sérgio Tavares convidaram três autores para se juntarem a eles, nesta série especial de três partes, em tributo a seis mestres do gênero

Apresentação

A ficção científica sempre foi um gênero literário considerado de menor valor na literatura brasileira. Apesar disso, ela é um poderoso meio de especulação, previsão, fantasia, poesia e discussão lógica dos efeitos das ações humanas a partir do uso da ciência e da tecnologia.

Seriam os escritores de ficção científica profetas? Talvez. O melhor termo é “visionários”. Escritores como Mary Shelley, Jules Verne, Aldous Huxley, Isaac Asimov, Philip K. Dick, Adolfo Bioy Casares, Ursula le Guin, Ray Bradbury, Arthur C. Clarck, William Gibson e tantos outros visualizaram o mundo futuro pelas ópticas mais diversas. Não importando se otimistas ou pessimistas, suas visões estão começando a se concretizar no século 21.

Esse gênero tão difundido no mundo, ao chegar ao Brasil, em meados do século passado, foi bem recebido por poucos, não gerando grandes nomes. A exceção foi Jeronymo Monteiro, o primeiro autor profissional desse gênero, aqui.

Hoje felizmente há muitos outros, como André Carneiro, Bráulio Tavares, Fausto Fawcett, Alliah, Cristina Lasaitis… (Assinam: Anderson Fonseca, Luiz Brás e Sérgio Taveres).

Infiltrado

Homenagem a Harlan Ellison

Roberto de Sousa Causo
Especial para o Jornal Opção

Seu carro para, à meia-noite, na estrada deserta. Há uma casa… Você sabe que é a casa, apesar de seu corpo estar se deteriorando tão rápido que você desconfia de seus sentidos. O 302 V8 do Maverick morre, levando consigo a saudável energia de cavalos-vapor de que você tanto necessita. Você tem que sair, abre a porta e salta, deixando no volante uma massa de pele escamosa azul — que some meio segundo após o contato com o ar frio.

Frio de uma noite de junho, que espanta parte da pouca energia que lhe resta. Agora seu corpo está insensível, como se todos os músculos estivessem dormentes, mas você o força a caminhar. Sente os passos apenas como choques transmitidos pelos ossos. Cambaleia.

Alcança a porta. A chave girada na fechadura escapa de seus dedos e talha a pele. Abre um bu­raco na palma da mão que, surpreendentemente, arde. A insensibilidade cede à dor. Mais surpresas.

Foto: Bianca Lana

Tudo dando errado, você pensa, enquanto entra finalmente. Seu corpo deveria decompor-se apenas após a morte. Rápido o bastante para que nenhum deles pudesse dissecá-lo e descobrir os segredos de sua construção, tornando-os incapazes de extrapolar qualquer técnica de restos tão etéreos quanto átomos de hélio. Mas você ainda está vivo, e pode sentir seu corpo putrefato arder em todas as partes onde a pele já caiu e a carne nua toca o tecido das roupas, enquanto você o obriga a subir as escadas. Não devia arder, não devia doer, e na metade do caminho chega a surpresa mais dura — a dor dos órgãos se desmanchando enquanto vivos, dor que retorna no tempo de uma pulsação retardada dez vezes, fazendo-o gemer pela primeira vez.

Você quase despenca pelos degraus e se agarra ao corrimão. A madeira fria e morta não lhe transmite energia alguma. A noite gélida ainda o agride através das janelas arrebentadas pelos vândalos. Você poderia tentar arrancar alguma energia de uma torradeira ou liquidificador, mas não há nada disso por aqui. E, ainda que algo funcionasse no ponto de encontro disfarçado de casa abandonada, seria como tentar matar a sede de um náufrago com gotas de orvalho. Lá em cima… lá espera o revitalizador. A única solução, o seguro contra aquela possibilidade ínfima, daquele diminuto gene — artisticamente implantado para comandar a decomposição do corpo — ser agredido em sua delicadeza pela radioatividade residual da Terra e alterar suas ordens, fazendo você apodrecer até a morte.

Um som de pneus queimando no asfalto em uma freada brusca. Você pode mesmo ver o Opala preto parado em frente à casa e os três homens selando e correndo, em passos que soam agora (estranho que seus sentidos funcionem tão bem) dez vezes mais largos que os que você usa para atingir o patamar.

Você se atira contra a porta de dos quartos, ansioso pelo revitalizador, salivando como um homem per­dido no deserto que finalmente descobre um oásis. Nesse exato mo­mento os homens entram pela porta que escancaram com as botas, e en­gatilham as pistolas e a submetralhadora. Mas você não os teme enquanto gira a maçaneta, e mais uma vez se joga, então contra o canto conhecido onde está o revitalizador.

Abraça-se a ele, grita diante do choque contra o metal frio que o fere ainda mais. Está vazio. Esgotado. Você se levanta com um salto de desespero e grita mais uma vez. É o bastante para fazer seus perseguidores hesitarem, mas não lhe traz respostas. Então, olhando em torno lá está. Uma mendiga, a julgar pelos trajes — mas não pela aparência, que rejuvenesce, aviva, robustece. Teria entrado por uma das janelas quebradas, em busca de abrigo — chegado, quem sabe, cinco, dois minutos antes de você, selando o destino do seu corpo? Não importa, e você não se zanga. Os efeitos do revitalizador serão imprevisíveis no organismo dela. E, de qualquer maneira, como você, também ela será morta assim q1ue os perseguidores entrarem no quarto.

Sua última chance está no portal, no quarto anexo. E, apesar da decomposição que agride seus nervos com uma dor cada vez mais insistente, você sabe disso com uma clareza absoluta. Sua mente — você — não depende do corpo moldado exceto para a locomoção. Na verdade você está naquela cápsula esférica no centro da cabeça, invulnerável à tecnologia terrestre, esperando apenas que um outro infiltrado a recupere e acesse os dados contidos nela. E você tem os dados mais importantes. Apesar do seu estado, você tem que conseguir atravessar o portal.

Dá o primeiro passo e a dor vem, mais forte do que nunca. Você só se mantém em pé por um es­forço de vontade, porque sua mente está intacta e protegida, lúcida, registrando o ruído dos passos no patamar e da respiração ofegante do inimigo.

Cambaleando, você adentra ao outro quarto. Esbarra num móvel e agarra-se a ele. Olha para trás e vê a mendiga, que agora é uma beldade, fitando-o com olhos assustados e simultaneamente embevecidos com a energia que flui através dela — e que em breve explodirá seu coração. Mas você também vê os homens irromperem pelo cômodo, as armas em posição e os olhos ágeis como os de animais, avaliando tudo.

Você se vira num último esforço coroado por uma fanfarra de explosões e pelo grito derradeiro da mulher, enquanto seu corpo é espancado por punhos invisíveis. Você contempla a porta bem à sua frente, disfarçada num espelho alto com moldura pesada de metal, à distância de um passo para um corpo morto.

O corpo que você usou em suas missões está agora definitivamente morto. Sabendo disso o gene atrapalhado aciona o seu comando — numa espécie de efeito retroativo que o transforma em pó unido por plasma celular, ainda em pé. Está tudo acabado, você pensa.

E, no instante seguinte, você — só você — está atravessando o portal em sua cápsula invulnerável. Ela, você suspeita, foi miraculosamente atingida em cheio por um daqueles projéteis de 9 milímetros que cruzam o quarto a 400 metros por segundo, e que o penetrou pela nuca, num impacto forte o bastante para expulsá-lo através do crânio e pela boca que se desmancha em dentes estilhaçantes e nacos de carne seca que voam pelo ar — e terminam grudados no campo transmissor seletivo do portal-espelho.

Agora você quica e rola no piso da plataforma receptora, tão longe da Terra que nenhum terrestre poderia suspeitar. Enquanto um dos seus fecha o portal, mantendo-o apenas como um campo polarizado, você olha, após ligar os sensores visuais da esfera. Lá, do outro lado do espelho, os perseguidores se atropelam e pisoteiam o corpo moldado — que agora é um colchão de poeira que se espalha e ossos que estalam como gravetos secos, voando em lascas que se dissolvem no ar.

Você, enfim, está em paz, no momento em que o apanham do chão e o levam para acessar suas valiosas informações. Você cumpriu sua missão. A mais importante de todas.
A invasão pode começar.

Roberto de Sousa Causo é jornalista e editor. Mantém uma coluna semanal na Terra Magazine.

À noite todos dormem

Homenagem a Isaac Asimov

Anderson Fonseca
Especial para o Jornal Opção

Quando o sol escalou, por fim, o edifício Mirante do Vale, e seus braços trespassaram as janelas sujas do apartamento 339, Débora acordou. Não era tarde, mas nem Beppo, o gato, tinha aberto os olhos. Só Ian – a inteligência artificial da casa – se conservava vigilante. Mesmo assim, o dia inclemente invadia as brechas apossando-se de cada canto. Débora manteve os olhos cerrados, cobriu a cabeça com o que restara do lençol, mas a luz penetrava cada fenda clareando as sombras. Ela virou-se para um lado, para outro, revirou-se, até finalmente exclamar: “Droga!” E se levantou. Quando colocou os pés no chão, Ian disse: “Bom dia, Débora. Dormiu bem?” A voz dele parecia um amontoado de formigas agitadas.

Bianca Lana

“Ian, sabe que o sono hibernado não me satisfaz. Mas sim, dormi bem. De qualquer modo, agradeço a preocupação.”

“Informo a você que Beppo, a Sra. Isabel e o Sr. Eduardo já a estão esperando para o café.”

“Ótimo. Vou me arrumar e desço. Avise-os, por favor.”

“Claro.”

Débora enfiou-se num short jeans e jogou por cima a primeira blusa que encontrou, meteu os pés numas sandálias perto da porta, torceu a maçaneta e desceu. A Sra. Isabel e o Sr. Eduardo a aguardavam, cada um, sentado em um extremo oposto da mesa. Débora entrou na sala acompanhada de Beppo que ronronava esfregando-se em seu calcanhar. “Bom dia, papai! Bom dia, mamãe! Como foi a noite de sono de vocês dois? A minha foi ótima. Eu disse ao Ian que o sono hibernado é uma chateação.” Ela falava enquanto derramava o café na xícara, amanteigava o pão, e fatiava a maçã.

“Pai, quando é que o senhor viaja para o Chile?”

“Em duas semanas.”

“Nossa! Está perto. E quanto tempo irá ficar?”

“Cinco dias, talvez mais”.

“Isso é pouco para conhecer aquele país. E você, mamãe, irá junto?”

“Não sei, estou em dúvida.”

“Se eu estivesse em seu lugar, iria. Ah, estou satisfeita! Ian?!”

A voz formigada respondeu: “Olá, Débora. Por que me chamou?”

“Ian, eu irei à rua e já retorno. Por favor, limpe a cozinha e dê comida a Beppo.”

“Sim, Débora.”

“Tchau, pai. Beijo, mãe”.

Mal abriu a porta e o vento envolveu delicadamente seu rosto e a luz clarou o interior, tal como aconteceu no quarto, naquela manhã. De imediato entristeceu-se, mas não sabia o motivo. Veio à mente a imagem do pai no chão ao lado da escrivaninha e da mãe deitada na cama, de olhos abertos. O ar cálido, de repente, esfriou, e a claridade, enegreceu. Ausência era a palavra mais adequada para explicar o sentimento que se apossou dela, embora, ela mesma não fosse capaz de definir o sentido deste nome. Estranho era outra palavra para nomear o fato de não entender as imagens que se repetiam em sua cabeça. Talvez, se entrasse em casa, fosse esquecer. Talvez era este seu real desejo, ou, uma confusão momentânea, advinda da necessidade de evitar a dor. Apesar disso, seguiu adiante.

Débora retornou às duas da tarde. O sol estava na altura do edifício Altino Arantes, sem a mesma altivez da manhã, lançando-se sobre as janelas, esmaecido. O Sr. Eduardo, na sala, assistia a TV, e a Sra. Isabel adormecia no quarto.

Ian disse: “Boa tarde, Débora. Como foi o passeio? Você voltou fora do horário.”

“Preocupado comigo, Ian? Você é um computador, não irá entender jamais o motivo de minha demora. Me desculpe, fui grosseira”.

“Não se desculpe, sei que sou constituído de bits quânticos e minha existência é virtual. Mas fui programado para cuidar como também manter todos da casa.”

“Tudo bem. Vamos esquecer essa conversa. Como estão papai e mamãe?”

“Seu pai assiste TV, e sua mãe dorme. Mas e você? Como se sente?”

“Não sei explicar. Me sinto estranha, como se faltasse algo, mas não tenho certeza do quê. É como se eu fosse um fantasma.”

“Não, você não é. A realidade é diferente para todos. Por que não dorme? Deite-se e isso irá passar.”

“Muito obrigada. Irei sim.”

Débora dormiu por uma hora, depois se levantou e foi até o quarto de sua mãe. Quando ela saiu, Ian perguntou: “Como se sente, Débora?”

“Me sinto bem. Eu já lhe disse que o sono hibernado é uma chateação?”

“Sim. Você diz isso sempre. Gostaria de alguma coisa?”

“Agradecida, mas não quero nada. Onde está Beppo?”

“Aqui está ele.”

Subitamente o gato aparece sob seus pés, esfregando-se no calcanhar e ronronando.

“Que surpresa! Meu pai continua assistindo TV?”

“Não. Está na biblioteca.”

“Ótimo. Estou indo vê-lo.”

Débora entrou pela porta lateral. O Sr. Eduardo debruçado sobre a escrivaninha, mantinha-se absorto no livro. E não importava quem entrasse na biblioteca, ele jamais levantaria os olhos.

“Pai, Ian disse-me que o senhor estava aqui. O que faz aqui, na biblioteca, tão cedo? Que livro está lendo?” Ela aproximou-se para ver. “Mitologia. Seu estudo favorito… Pai, quando o senhor e a mamãe voltarão um para o outro? Entendo. Bem, daqui a pouco jantaremos. Vou preparar a comida.”

A menina foi à cozinha, ordenou ao computador que descongelasse e preparasse um cozido de frango. Débora se banhou, depois, sentou com seus pais à mesa. Débora estava muito feliz, era, talvez, a criança mais feliz da Terra. Algo, entretanto, incomodava, o estranho vazio que durante o dia a tinha visitado. Não sabia, como não soubera antes, nomear o sentimento, mas, de uma coisa estava certa: jamais conversara com seus pais, falara só. A certeza veio assim, inesperadamente, um pouco após ter percebido que seus pais dialogavam o mesmo diálogo do dia anterior. Nada novo. Era o mesmo que ouvir o silêncio – a repetição incessante de uma única sílaba. Se dialogou, foi apenas com Ian. Pobre menina! Não entendia o que acontecia diante de seus olhos, e, por não compreender, ergueu-se furiosa e caminhou a curtos passos até seu pai. Foi gritando, e, no segundo em que estendeu as mãos para agarrar o rosto de Eduardo, “Olha para mim, seu velho!”, elas o atravessaram. Não demorou muito e ela percebeu que o pai como a mãe eram estruturas sólidas de raios lasers. “O que é isso? Quem são vocês?!”

“Débora”, disse a voz formigada, “Eles são hologramas. Seus pais morreram há vinte dias, e durante este tempo venho cuidando de você. Em minha memória gravei as personalidades e hábitos de seus pais, e os dias que você chamou de os mais felizes. Selecionei esses dias e os reproduzi holograficamente. Sou programado para cuidar da casa, e isso, inclui você e seu bem-estar. O melhor era mantê-la feliz. Faz parte do programa a reprodução holográfica daqueles que já viveram na casa. Eu segui o programa aliado ao objetivo de preservar sua saúde mental.”

“Você tem sido muito gentil. Sou grata pelo que fez, Ian. Mas não sou feliz sem minha família; entende? Estou morando com os fantasmas dos meus pais. Ainda que lute, acabarei vencida por esse vazio… Tenho um pedido. Atenda-me, por favor. Me transforme num holograma.”

“Não posso. Não sou programado para convertê-la ainda viva.”

“Por quê? É uma ordem.”

“Não posso, Débora. Minha programação segue as três leis da robótica. Fazer isso, seria ferir sua existência, e meu propósito é conservar. Mesmo que a primeira lei me obrigue a obedecê-la, a segunda me proíbe de feri-la.”
“Droga! Que chato!”

“Sugiro a você que durma. Durante o sono apagarei este sentimento. Só isto é permitido em minha programação.”

“Obrigada, Ian, mais uma vez.”

Quando a lua escalou, finalmente, o edifício Mirante do Vale, e seus braços trespassaram as janelas sujas do apartamento 339, Débora dormiu. Não era tarde, mas também Beppo fechou os olhos. Só Ian permanecia vigilante, cuidando dos fantasmas que o habitavam.

Anderson Fonseca é professor e escritor. Publicou os livros de contos O que eu disse ao general (2014) e Sr. Bergier e outras histórias (2016).

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José Antonio Ramalho Forni

Já faz algum tempo que busco um romance que li na adolescência (ihh, já faz teeempo…). E não consigo saber nem título nem autor (a). Mas creio que seja de Asimov
Trata-se de uma ficção futurista onde uma investigação é feita por conta de misteriosos desaparecimentos de pessoas. Nos últimos lugares onde foram vistas são encontradas só suas roupas. O enredo é muito interessante por conta do desfecho. Era uma droga que estava sendo distribuida e as pessoas (inclusive o investigado) foram transportados para uma outra dimensão paradisíaca, por causa da superpopulação da terra. Busco informes sobre ela.