Contos da pandemia (36): Isolamento, de Marcelo Lotufo

Criaturas mínimas que se alojam confortavelmente em cada reentrância de nossas casas, rindo da nossa ignorância e despreparo. Não se enganem. São predadores cruéis

(Com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, o Jornal Opção organizou uma seleção de contos escritos por autores goianos explorando o tema da pandemia da Covid-19 — que já vitimou mais de 570 mil brasileiros. A prosa curta mostrou-se não apenas possível, mas necessária, durante a pandemia. O jornal vai publicar um conto por dia e espera que, em seguida, alguma editora publique um livro.)                 

Isolamento

Marcelo Lotufo

“Vivo em paz no mais recôndito de minha casa, e enquanto isso o adversário, vindo de algum lugar, perfura lento e silencioso seu caminho até mim.”  — Franz Kafka

Pintura de Edward Hopper

O melhor que podemos fazer é estar preparados. Será que vocês não percebem? Idiotas… Basta apurarem os ouvidos que certamente escutarão o avançar destas criaturas minúsculas. Criaturas mínimas que se alojam confortavelmente em cada reentrância de nossas casas, rindo da nossa ignorância e despreparo. Não se enganem. São predadores cruéis. O melhor é começar pelas janelas, talvez a nossa maior fraqueza, um duto para este mundo hostil. Não há segredo, mas é preciso agir rápido. Com uma mão você deve desenrolar a fita adesiva, enquanto pressiona com a outra. Deve preencher meticulosamente todos os espaços entre as janelas e as paredes. Garanta que nada nem ninguém conseguirá passar por ali. As janelas mais difíceis, claro, são as do banheiro, onde a umidade pode dificultar a colagem. Qualquer fresta pode ser fatal. Só os tolos não percebem. Para estas janelas, a melhor alternativa é substituí-las por tijolos. Mas não se enganem quando terminarem. Vocês ainda estão longe de estarem seguros. Eles são muito mais traiçoeiros do que isso. As portas são a parte verdadeiramente desafiadora de uma fortificação, a mais vulnerável e a última a ser lacrada. O risco maior está nos dias que precedem o fechamento completo da fortaleza. Procure separar um cômodo para ser uma zona de transição, assim você poderá duplicar a segurança, lacrando parcialmente duas portas enquanto ainda organiza a sua casa e traz os suprimentos necessários para não deixá-la mais. Tudo deve ser feito o mais rápido possível. Quando as coisas ruírem, a escassez será imensa. E vocês ficarão de mãos abanando. Use todos os espaços possíveis para estocar alimentos. Não precisaremos mais de cozinha, ou de pias e chuveiros. Os encanamentos são uma fragilidade desnecessária que precisará ser resolvida. Você deve lacrá-los assim que estiver pronto para se fechar. Os alimentos e como estocá-los são uma questão a parte, outra aporia de difícil resolução. Em um primeiro momento, optei por espalhar comida por todos os cômodos da casa. Caso o perímetro de segurança fosse violado, eu poderia me refugiar no cômodo mais próximo, evitando um ataque iminente e ganhando tempo para pensar nos meus próximos passos. A questão parecia resolvida. Mas com tudo pronto para me trancar, com os suprimentos espalhados pela casa, trazidos sempre em pequenas quantidades para os meus vizinhos não perceberem minhas movimentações, entendi que o meu plano era falho. Com a comida espalhada pela casa, meus instintos me diziam que algo estava errado. Eu queria vê-la junta; ter certeza de que tudo o que eu precisaria estava ali ao meu alcance. Foi então que entendi o problema. Com os suprimentos espalhados em vários cômodos, caso eu precisasse me refugiar, quanto tempo conseguiria ficar trancado em um deles? Quanto tempo poderia me esconder sem definhar? O inimigo também é persistente. Certamente mais do que vocês. Concluí que o melhor seria reorganizar todos os suprimentos em um único cômodo; naquele eleito como o último refúgio em caso de emergência. Seria para ali que eu correria se algo falhasse durante o processo de vedação da minha casa, ou se alguém conseguisse invadir minha fortaleza depois de fechada, o que eu duvido. Passei horas carregando as latas e os pacotes de comida para os fundos da casa, levando os meus suprimentos dos armários e gabinetes para o quarto de empregada, o único cômodo sem janelas ou encanamento, o mais seguro de todos. À noite, depois de horas trabalhando, caí exausto no sono, esquecendo da minha segurança por um momento. Mas isto não importa. Nada me aconteceu e agora as portas estão prontas para serem lacradas definitivamente. Vocês deveriam fazer o mesmo e esquecer suas vidas pregressas. Vidas idiotas que não servem para mais nada. Eu passo em revista todos os cantos da casa. Apuro os meus ouvidos e finalmente não escuto nada além da minha respiração ofegante. Sinto que estou sozinho. É a hora de fechar a porta de uma vez por todas, de abandonar vocês à própria sorte. Mas um pensamento emerge das profundezas. Será que realmente fiz tudo com o zelo necessário? Será que realmente estou pronto e a fortaleza está preparada para este momento? O silêncio pode ser só mais um estratagema dos meus inimigos. E, se ao fechar a última porta para o mundo, eu descobrir que o inimigo esteve o tempo todo aqui dentro, esperando imóvel eu me fechar para, só então, se revelar em sua força e esplendor? Esperando eu trancar a porta e não poder mais fugir para só então me atacar? Ciente de que a minha vida não passou de um longo preparar-me para ser entregue indefeso a quem soube superar os meus próprios estratagemas?

Marcelo Lotufo é professor, tradutor e escritor. Dá aulas na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Traduziu as poetas Adrienne Rich e Rosmarie Waldrop, o poeta John Yau e a prosadora Carolina Tobar. Publicou, pelas Edições Jabuticaba, o livro de contos “Cada um a Seu Modo”.

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