Contos da pandemia (33): Confraternização, de Itaney Campos

A história de João Crisóstomo e Stela Maris. O primeiro não figura como vítima do coronavírus. Mas sua vida tem a ver com a Covid-19

(Com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, o Jornal Opção organizou uma seleção de contos escritos por autores goianos explorando o tema da pandemia da Covid-19 — que já vitimou mais de 569 mil brasileiros. A prosa curta mostrou-se não apenas possível, mas necessária, durante a pandemia. O jornal vai publicar um conto por dia e espera que, em seguida, alguma editora publique um livro.)            

Arte de Almada Negreiros

  Confraternização  

Itaney Campos

O anúncio da pandemia, seguido da contabilização dos mortos, despertou nele justificável cautela. Não se deslocava de casa sem o indispensável aparato da máscara higiênica e do álcool gel, com o qual obsessivamente higienizava as mãos. Apesar das ações aparentemente contraditórias do governo, ora minimizando os malefícios da peste, ora advertindo para os seus graves riscos, João Crisóstomo observava com rigor as cautelas e protocolos preventivos. O distanciamento social era para ele a principal medida sanitária. Não conseguia compreender o porquê dos aglomeramentos, quando os índices de morte continuavam em alta. E se indignava, tomado de cólera santa, quando testemunhava, pela televisão, o presidente da República se aproximando, sem máscara, da legião de admiradores, além de criticar as medidas sanitárias protetivas da população. O político falara em “gripezinha” e agora o país somava, estarrecido, mais de 200 mil mortes por Covid-19.

Pintura de Lazar Segall

A mulher de Crisóstomo, Stela Maris, era uma santa, dona de uma paciência infinita. Aposentara-se, recentemente, no cargo de professora estadual. O mau humor do marido começava a preocupá-la. Não era uma mera insatisfação, de caráter passageiro, mas algo mais preocupante, quem sabe um processo depressivo que se iniciava. Percebia que o noticiário deprimia o marido, provocava-lhe um irascível mau humor. Passaram a evitar os canais noticiosos da televisão. Percebeu que João já receava abrir as janelas do apartamento e evitava tocar nas correspondências e mesmo a buscá-las na portaria do prédio. Quando não tinha como não descer, para receber alguma encomenda, lavava imediatamente as mãos, ao retornar, quando não trocava de roupas ou não se banhava.

Os temores do marido já assumiam proporções irracionais. E insinuava, cada vez com maior frequência, que ela deveria também comportar-se assim. Saber que alguns vizinhos ainda se reuniam, com membros da família, ainda que poucos, era motivo de críticas ácidas e até raivosas, exagerando que isso iria acabar contaminando o prédio inteiro. Stela desistiu de ponderar com o marido, de tentar amenizar os seus temores ou sua irritação. Passou a ouvi-lo calada, para não piorar as coisas, ou estimular seu crescente azedume.

Pintura de Andrew Wyeth

A recente aposentadoria do marido, com a ociosidade consequente, e as restrições impostas pela pandemia, não lhe fizeram bem, pelo contrário, faziam-lhes muito mal. Providenciou chás calmantes à noite, para que o sono do marido fosse mais tranquilo e profundo. No início, até ajudou mas logo voltaram a agitação e os pesadelos. As noites mal dormidas refletiam-se no homem iracundo do dia seguinte.

Ao meio-dia da sexta feira, tocou o interfone. Era o porteiro avisando que chegara um convite, dirigido a Crisóstomo. Colocaria no elevador. O casal ficou intrigado: convite, em época de pandemia? Era mesmo um convite. A turma de bancários da qual Crisóstomo fizera parte programava um encontro de confraternização, um churrasco, na manhã do dia seguinte, e, por coincidência, na área de lazer do prédio Alphaville, onde residia o casal e também um dos veteranos do Banco, Mario Lopes, ex-caixa executivo, do 6º andar, um sujeito pedante, seu velho conhecido.

Stela Maris estranhou a reação do marido. Ele que clamava aos céus ou condenava ao fogo do inferno os insensatos que se reuniam ou se aglomeravam, manteve-se silente, embora transparecendo no rosto o sentimento de desaprovação e desgosto. Manteve-se mais calado do que de costume, ao longo do dia. A mulher desistira de decifrar o enigma, ou abrir com ele canais de comunicação.

Pintura de Magritte

Na manhã de sábado, para o estranhamento dela, o marido vestiu um grosso casaco, embora o frescor da manhã sugerisse apenas um agasalho mais leve, a ser retirado ao sol a pino. Nada disse, porém, para não irritar o companheiro. Ele resmungou que iria descer, para ver a turma de churrasqueiros.

Cerca de vinte minutos depois, uma gritaria cortou o restinho da manhã. Ouviu-se um tropel de pessoas a correr. Vozes desesperadas incitavam a fugir. Stela ouvira espoucos, vários, similares a bombinhas das noites de São João. Mas estava-se numa manhã de maio.

Um terrível pressentimento perpassou-a, com a força e a rapidez de um relâmpago. A notícia veio a galope, pelo interfone. Crisóstomo tivera um surto de desespero. Mal chegara à área de lazer, desferira vários tiros de revólver contra os cinco ex-colegas. Ferira três e matara dois. Na mesa, rente a churrasqueira, sangue humano escorria para o chão, misturando-se aos bifes da carne bovina. Além dos corpos dos dois bancários alvejados fatalmente, via-se o atirador, caído ao chão, agonizante. Após disparar contra os colegas, aproximou a mira do revólver da própria cabeça e acionou o gatilho. Era a última bala do tambor da arma. Tornou-se mais uma vítima da Covid-19 mas não constou das estatísticas da tragédia da pestilência. A causa mortis assinalada foi traumatismo crânio encefálico, por disparo de arma de fogo.

Itaney Campos é escritor.

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