Contos da pandemia (33): #Cancelada, de Amanda Godoi

Karol Barreiros fez sucesso na internet, com vários seguidores. Mas, ao fazer exercícios ao ar livre, lixando-se para a pandemia, acabou “cancelada”

(Com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, o Jornal Opção organizou uma seleção de contos escritos por autores goianos explorando o tema da pandemia da Covid-19 — que já vitimou mais de 570 mil brasileiros. A prosa curta mostrou-se não apenas possível, mas necessária, durante a pandemia. O jornal vai publicar um conto por dia e espera que, em seguida, alguma editora publique um livro.)     

#Cancelada

Amanda Godoi

Há vinte anos, quando Lúcio Cézar, filho da finada Raimunda (Deus a tenha), irmã de dona Cidinha, que o havia criado desde pequeno junto com seus outros meninos, decidiu meter o pé de Cajuzinho e tentar a sorte nos states, a senhora quase teve um passamento.

Não comia, nem bebia, mas lamentava e dizia: onde já se viu, menino criado na barra da minha saia, me abandonar assim, com promessa de vida boa, será que ele acha que existe preço na saudade? Quem é que sabe, quantos anos vai demorar para eu poder dar um abraço nele de novo, esse negócio de telefone é bom, mas que mãe aguenta esse tal de quinze/quinze, quinze dias para ouvir a voz do filho quinze minutos.

Mas já pensou, quem de mamando a caducando entre aquelas três mil almas que habitavam Cajuzinho no início de anos 2000, ia imaginar a dona Cidinha todo dia a papear com um tijolão na mão, que não pode se chamar de telefone, porque, além de telefone, também é televisão, câmera, computador, e não é de se duvidar que se bobear até ovo o telefone sabe fritar.

Toda essa tecnologia deixou Cajuzinho de ponta-cabeça, primeiro mudou a forma de comunicação da cidade que ao invés de ser feita através do boca a boca, como na  brincadeira do telefone sem fio, em que a notícia ao ser passada de pessoa para pessoa, se perde no caminho e no final não parece em nada com o que foi dito no começo, passou a ser feita majoritariamente nos tais grupos de Facebook e WhatsApp. Foi aí que pude compreender que, independentemente de tempo e espaço, como diz aquele ditado popular, “quem conta um conto, aumenta um ponto”.

Além disso, esses tais smartphones nessa quarentena de Covid-19 estão sendo de fundamental importância para o entretenimento da comunidade solteira e beata de Cajuzinho, pois são tantas páginas para procurar namorado e fazer dancinhas que quase ninguém sente falta dos Forrós antes sediados no bar de Rosemeire. O Faro que se cuide, pois, se aqui já está desse jeito, imagina o que pode ocorrer com o programa “vai dar namoro”.

Mas nem tudo são rosas, se se souber usar bem a tal da tecnologia até a mentira ela dá um jeito de desmascarar, pois, veja só, que Dolores do mercadinho ali da esquina, após ter se separado de Zé, conheceu um sujeito muito do bem apessoado, dizia ele se chamar Joaquim, ser solteiro e empresário do ramo automobilístico. Não sei como, só sei que Paulinha desconfiou do namoro da mãe e pesquisou, descobriu que Joaquim, além de casado, tem quatro filhos, e trabalha com gambira, mas, nesse ponto, ele até que não mentiu, só usou de sagacidade para enfeitar a denominação que empregaríamos aqui para nos referir a sua ocupação.

Outro dia, passou na televisão uma matéria sobre gente que ganha dinheiro na internet, assim como em uma permuta, as pessoas que querem vender algum produto ou ideia pagam para pessoas que conquistaram muitos seguidores para fazerem propaganda nas suas páginas.

Algumas mães cajulopolenses viram a reportagem e ficaram encantadas, pois era uma ótima oportunidades de as filhas trabalharem de casa, fazerem fama e o melhor de tudo ficar na barra da saia das mamães. As meninas são carismáticas e sabem manejar as tecnologias, mas precisam aprender mais sobre a profissão, então se inscreveram na plataforma de cursos online do coach (se pronuncia coute) Rafael Smarnkoof para receber a instrução necessária sobre os assuntos relacionados ao público.

A ideia daquelas mães foi boa, admito. No entanto, o cálculo feito por elas ignorou algumas variáveis, primeiro a cidade atualmente não conta com mais de cinco mil habitantes, e, segundo, a economia daqui é pobre, outrora foi quase que exclusivamente baseada nas plantações de amendoim e na fabricação do doce homônimo ao nome da nossa cidade, agora conta com alguns comércios, mas nada que justifique pagar por propaganda, o que se faz aqui é trocar uma amostra do produto por divulgação.

Ou seja, é muito difícil que as meninas façam carreira nesse ramo, sem ter contatos fora daqui. Mas não é de tudo impossível, a filha do Lúcio Cézar, que de batismo recebeu o nome Maria Carolina Da Silva Souza, Maria em homenagem à virgem santíssima, fez o tal curso com o coach e foi aconselhada a adotar um nome artístico, desde então passou a ser Karol Barreiros, de onde a menina tirou esse Barreiros, ninguém sabe, mas, se quer assinar assim, deixa né.

A Karol ganhou muitos seguidores nas suas páginas de internet, postando vídeo de exercícios, e de receitas saudáveis. Durante meses ela foi o assunto mais comentado na cidade, as meninas se espelhavam nela, e todos queriam fazer em casa as receitas que ela postava, um sucesso só.

Até que estourou a pandemia do novo coronavírus, e o isolamento social foi decretado. Mas nem todos respeitaram, e alguns, além de furar a quarentena, postaram nas suas redes sociais, foi o caso da Karol. Durante semanas, ela postou no Instagram vídeos se exercitando ao ar livre, sem usar nenhum tipo de máscara. Ao ser indagada sobre sua conduta por uma seguidora, a menina fez um vídeo falando que em Cajuzinho não havia ninguém com Covid-19, e por isso estava se dando esse luxo.

Não deu outra, os internautas foram para cima, organizaram mutirões para denunciar o perfil da menina, até famoso comentou o caso, foi um auê só.

Ao ver a repercussão do caso, Rafael ligou para menina, afinal era uma de suas alunas mais badaladas até então. Porém ela não atendeu. Ele ligou pros pais da menina também e nada. Por último ligou para Dona Cidinha e disse: “Fala para Karol, correr e desativar as redes sociais, pois ela acabou de ser cancelada na internet”. A senhora, sem compreender muito, respondeu: “Mas, gente, se a internet foi cancelada, não tenho que falar com Karol não. Vou reclamar é com a operadora. Como eles cancelam algo que tá pago, os boletos tão aqui”. E desligou para procurar o número da empresa provedora de internet.

Amanda Godoi é historiadora e mestranda em sociologia pela UFG.

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