Contos da pandemia (31): Pandêmico, de Giovani Ribeiro Alves

O instante brigou com o agora: enquanto não buscamos os culpados a sepultura continuará a buscar os que não tinham nenhuma culpa

(Com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, o Jornal Opção organizou uma seleção de contos escritos por autores goianos explorando o tema da pandemia da Covid-19 — que já vitimou mais de 565 mil brasileiros. A prosa curta mostrou-se não apenas possível, mas necessária, durante a pandemia. O jornal vai publicar um conto por dia e espera que, em seguida, alguma editora publique um livro.)

Pandêmico

Giovani Ribeiro Alves

O instante brigou com o agora, a manhã trará mais um amanhã de lágrima ou de dor?

A República vestiu-se de luto:

— Era tão jovem!

Estamos fartos de ouvir:

— Descansa em paz!

O instante brigou com o agora, quem enxugará a lágrima que ninguém viu?

O carrasco sorri sobre prantos inaudíveis:

— Era meu filho!

— Era minha mãe!

— Era seu pai!

— Era meu esposo!

— Era minha esposa!

— Era meu amigo!

— Era minha amiga

O carrasco diz:

— E daí? A vida continua.

O instante brigou com o agora: enquanto não buscamos os culpados a sepultura continuará a buscar os que não tinham nenhuma culpa:

— Meu Deus!

— Tão Jovem!

— Foi o vírus?

— Não

— Era o dia dele

— Será?

O instante brigou com o agora: a manhã nos trará mais um amanhã de lágrima?

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