Contos da pandemia (30): Reação, de João Paulo Lopes Tito

Começou a delirar que o Bonner abriria o noticiário com sua foto, contando a estranha história do rapaz de Caturaí que vacinou Coronavac

(Com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, o Jornal Opção organizou uma seleção de contos escritos por autores goianos explorando o tema da pandemia da Covid-19 — que já vitimou mais de 564 mil brasileiros. A prosa curta mostrou-se não apenas possível, mas necessária, durante a pandemia. O jornal vai publicar um conto por dia e espera que, em seguida, alguma editora publique um livro.) 

Arte de Eduardo Kobra

Reação

João Paulo Lopes Tito

Dizem que o Facebook deu voz ao idiota da aldeia — aquele sujeito que vituperava só entre os seus, no churrasco de família, ou no intervalo do almoço na firma (não tenho certeza se Umberto Eco chegou a esses meandros). Por essa lógica, o Instagram é o New York Fashion Week dos idiotas da aldeia. Nem precisa ter voz. É só desfilar as bizarrices que antes estavam circunscritas ao batizado da sobrinha ou à mesa de boteco da esquina. Like like like.

O Marco Aurélio era desses da vila instagram. Saída para uma corrida breve? Insta. Tapioca de leve fim de tarde? Insta. Quarenta e seis primaveras completas, festa surpresa no escritório? Insta.

Arte de Eduardo Kobra

Veio a Covid e deu uma esfriada nas coisas. Já não aguentava mais postar taça de vinho debaixo das cobertas, filme francês na tela da Netflix, Clarice Lispector aberta no colo, Engenheiros do Hawaii girando em analógico na vitrola.

E deu até tremedeira quando viu uma prima do Mato Grosso com o braço de fora do carro, a moça do SUS injetando a legenda: “Pfizer! Obrigado Deus!”

Prioridades restabelecidas no sonho de consumo. Mês passado, até estava com medo da picada. Mas agora percebeu que bombava demais nas redes. Precisava de uma Pfizer no braço. Urgente!

Em 15 dias, a campanha entraria na sua faixa etária. Tempo demais! Ligou pro Roberval, seu nutrólogo, e pediu um laudo. Comorbidade ia na frente. “Qual?” “Qualquer uma, queridão! Você que vai assinar, você que decide.” Levou debaixo do braço um “Sopro grave no coração”. Ninguém vai me abrir para tirar a prova, riu por dentro.

Na fila de espera, 17 pessoas na frente, achou que pudessem enxergar na sua cara que não tinha sopro no coração. Nem grave, nem leve. Não agonizava nem uma mera paixonite. Na cabeça, por outro lado, já planejava a foto do post. Corpo inteiro. Chupa Tábata só o braço de fora do carro. Viva o SUS é coisa de esquerdopata. A legenda tem que ser épica!

Entregou os documentos para a moça da triagem. Tudo certo!

— Moça, é a qual vacina que vocês estão dando?

— Coronavac.

Caiu o mundo.

— Nossa moça… não tem nem uma Astrazenecazinha, não?

— O senhor quer desistir? É só assinar o termo.

Arte de Eduardo Kobra

Assinasse, era fim da fila e o carimbo de último dos bobos no passaporte. Até o Raul do Recursos Humanos ia ter foto de vacinação, e ele nada! O que diria quando perguntassem se já vacinou? Haveria solução? Melhor tentar outra marca outro dia, quem sabe?

— Tá bom, moça, eu assino.

Quando pegou a caneta, viu que dois ou três curiosos sacaram seus celulares na sala e começaram a filmar. Lembrou do deputado-delegado, que saiu até no hebdomadário do supermercado. Aí já é demais!

— Moça, pensando bem, vou assinar não. Tó o braço.

Tomou a vacina. No insta, saiu Pfizer.

Mas a cada vez que perguntavam se havia sido vacinado, maior dificuldade em pronunciar o nome do laboratório. F depois do P não funcionava no bom português. Ou seria só a sua cabeça?

Nunca tivera crise de consciência antes, a moral sempre foi baixa, então os sintomas não estavam batendo.

Já mentia, mas começou a mentir mais. E mais. Mas mentir contra o próprio patrimônio era novidade para ele. Já se vacinou? Ainda não, acredita?

Deletou a foto da agulha.

Suava quando divulgavam os números da vacinação no país. Começou a delirar que o Bonner abriria o noticiário com sua foto, contando a estranha história do rapaz de Caturaí que vacinou Coronavac. Para seus círculos, sempre fora goianiense do Oeste, Lago das Rosas, Feira da Lua e pit dog da Tamandaré.

A máscara ia cair. Perderia trilhões de seguidores nas redes.

Caiu de cama, mas não quis postar. Estava magro, pele macilenta escondida no pijama. Respiração ansiosa. A evolução foi rápida para apenas uma semana.

Arte de Eduardo Kobra

Morreu sem like.

No atestado de óbito, deram como desconhecida a causa da morte. Mas no grupo de WhatsApp da família, como numa letra esquecida e remexida do Humberto Gessinger, a verdade travestida fez seu trottoir: foi reação à vacina.

João Paulo Lopes Tito é advogado, crítico de cinema e escritor.

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