Contos da pandemia (32): Silêncio e distância, de Zanilda Freitas    

Ouvi o som dorido de um sino em minha mente; seria um chamado de Deus? Não quero ir. Recuso-me a ouvir esse chamado

(Com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, o Jornal Opção organizou uma seleção de contos escritos por autores goianos explorando o tema da pandemia da Covid-19 — que já vitimou mais de 566 mil brasileiros. A prosa curta mostrou-se não apenas possível, mas necessária, durante a pandemia. O jornal vai publicar um conto por dia e espera que, em seguida, alguma editora publique um livro.)   

Silêncio e distância

Zanilda Freitas

Ouvi o som dorido de um sino em minha mente; seria um chamado de Deus? Não quero ir. Recuso-me a ouvir esse chamado.

Chorar diante da dor é lavar as emoções como a chuva lava as árvores empoeiradas.

O inimigo é invisível, sutil e tem a gula dos devoradores.

Esconder se faz necessário.

Esconder onde? Como? Minha casa não é esconderijo nem prisão, mas aqui estou enclausurada por meses, remoendo a solidão ou tentando driblar os momentos de angústia e medo.

Existe uma palavra estranha no ar, loquidau — que quer dizer “fique em casa, fique em casa e não receba seus filhos, seus netos, nenhum familiar nem os amigos”. Como assim? Ninguém? Tenho que suportar não falar com ninguém? O silêncio é gritante e, ao mesmo tempo, estranhamente silencioso.

Pintura de Andrew Wyeth

Há poucos dias, meu irmão e meu filho conseguiram, por duas vezes, driblar o tal loquidau e vieram ficar comigo, mascarados e sem abraços. Mesmo assim, curtimos altos papos, filmes com direito a pipocas e risos; o inimigo ficou temporariamente recrudescido. Quebrei um pouco da rotina de limpar tudo o dia todo: banheiros, cozinha, piso, portas, paredes e até janelas. Eu nunca havia percebido que uma casa desse tanto trabalho. Antes, tudo me parecia normal, mas agora vejo poeira fina e qualquer manchinha de sujeira que passavam despercebidas. Já pensei até em raspar a cabeça no zero, pois minha competente e elegante secretária para assuntos de faxina, que não pode mais vir em meu socorro, nunca me falou da quantidade de cabelos que se espalham no piso por todos os cantos. Sem contar que eu sequer tenho problemas com queda de cabelos. Todos os dias limpo os telefones, o PC e as telas das tevês — mesmo morrendo de medo das más notícias. Até as vasilhas da cozinha parecem exigir de mim um trato diário, porque olho pra elas e elas me olham parecendo dizer:

— Oi, estou aqui; pode me lavar novamente?

Pintura de Andrew Wyeth

O pior de tudo é quando chega alguma compra ou alimento que solicito pelo tal delivery, ou mesmo quando, burlando o inimigo — de calça jeans, blusa de mangas longas, máscara, óculos, chapéu, tênis e meias —, vou ao supermercado, ao verdurão ou à farmácia. Ao chegar tenho que fazer todo aquele processo de deixar os sapatos do lado de fora, calçar um chinelinho, que já estava à minha espera do lado de dentro, e, sem tirar a tal máscara, começo a batalha contra o inimigo invisível. As sacolas de plástico são borrifadas com o tal álcool 70°, depois lavo-as com detergente antes de serem descartadas, pois, sem vergonha de dizer, sempre as reutilizo. É uma maratona de mais de uma hora até que possa me despir, colocar a roupa na lavadora, retirar a máscara — que também será alcoolizada para descarte. Daí, direto para o banho e lavar os cabelos.

Não posso ficar ociosa, preciso fazer exercícios, pois a academia também foi vítima do tal loquidau. Está difícil. Leio, tento escrever e não consigo concatenar boas ideias.

Pintura de Menase Vaidergorn

Uma tarde, alguém tocou a campainha; fui atender, uma moça que eu nunca havia visto estava à minha frente com um enorme buquê de flores, uma bela cesta de finas iguarias e uma garrafa de vinho. Isso foi mágico e emocionante. Minha nora, que reside fora do país, em uma manobra especial, enviou-me esse mimo. Foi um momento lindo, de pura gratidão, do qual jamais vou me esquecer. Emocionada, chorei e a moça da entrega também chorou e riu comigo.

— Oi, sogra, tudo bem com você? Quase véspera do Dia das Mães, seu filho e eu ficamos pensando em você aí sozinha, trancada em casa… Imaginamos o que poderíamos fazer pra te alegrar um pouquinho. Junto com as flores e iguarias, lá vai um vinho pra você saborear com gosto… (Que estranho! O que era um bilhete escrito cria vida, eu leio e meus olhos se turvam, meus ouvidos, porém, colhem algo… é a voz dela nítida e emocionada…) com gosto, dar um drible na sozinhez. Lembre-se de nós aqui nos isteites, dos seus netos, do bisnetinho, das nossas viagens, fique alegre, cante e dance com a taça!

As lágrimas brotaram, naturais; na garganta, algo criou volume e quase doeu. Não consegui dizer “muito obrigado” à moça da floricultura, que chorou comigo.

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