Contos da pandemia (29): O velho e o rio, de Ítalo Campos    

Cuidadoso, não tivera razões para supor que algo mais grave como a tal de pandemia o alcançaria e tamanha foi a surpresa quando o exame do dia seguinte deu positivo

(Com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, o Jornal Opção organizou uma seleção de contos escritos por autores goianos explorando o tema da pandemia da Covid-19 — que já vitimou mais de 563 mil brasileiros. A prosa curta mostrou-se não apenas possível, mas necessária, durante a pandemia. O jornal vai publicar um conto por dia e espera que, em seguida, alguma editora publique um livro.)     

                            

O velho e o rio

                                   Ítalo Campos        

(Em homenagem e tributo ao escritor João Guimarães Rosa)

Usava a barba no estilo Van Dyke. Gastava boa parte da sua sexta-feira nas modernas barbearias encerando o bigode e aprimorando o acabamento da barba. Também para os homens esta é a idade do lobo. Bem relacionado no mundo social e empresarial graças a uma inteligência prática fulgurante e capacidade de comunicação, ele brilhava.

Como todo ser humano, era acossado diariamente por uma angústia inexplicável e inexprimível, que o fazia recorrer a alguns rituais muito discretos em busca de ajuda do além. Frequentava templos cristãos e outros menos ortodoxos. Vez em quando buscava as tais terapias alternativas, como impostação de mãos, coach, terapia comportamental, “batismo” nas águas do Rio Doce, massagem terapêutica e outras massagens “terapêuticas” que prometiam uma “liberação”. Este último modelo utilizava raramente. No caso, tal aventura acontecia cercada de muita segurança. O horário escolhido, no princípio da semana, quando o movimento, em geral, era bem escasso. O carro ficava sempre à distância do atelier, o acesso ao elevador era seguido de prévia observação dos frequentadores do edifício e, para sua segurança, descia sempre no andar superior para retornar por escada. À saída obedecia a uma segurança ainda maior, agora acompanhado com alta dose de culpa e medo. Poderia ter sido visto por alguma amiga da esposa? Seria aquele um dos pais que, como ele, leva os filhos para a escola? Um tormento que durava dias. Em outras ocasiões se surpreendia fazendo jogo de sedução com a moça da padaria, confetes para lá, confetes para cá e ela, toda coquete, correspondia à fineza e educação daquele “senhor”. Ele não tinha ideia dos comentários e risos que eram feitos, entre as colegas de trabalho, quando ele saía.

Pintura de Andrew Wyeth

Certinho e aplicado em tudo que fazia, era o genro preferido e o mais convidado para as suas companhias, despertando uma ciumeira nos dois outros preteridos. Para pessoas assim a vida tem um roteiro sem grandes abalos. A vida é mantida literalmente sob controle, a menos que uma inesperada ventania, provocada pela atual instabilidade climática surpreenda o barco pela proa e o revire como se fosse uma folha de pau-brasil.  O Rio Doce e da vida nos reservam muitas surpresas.

Logo depois do carnaval do ano passado, inesperadamente, de manhã, sentiu seu corpo moído. Era acostumado às insônias e noites mal dormidas e a uma manhã pesada. Mas essa foi diferente; permaneceu por horas a sensação incômoda. Super cuidadoso, não tivera razões para supor que algo mais grave como a tal de pandemia o alcançaria e tamanha foi a surpresa quando o exame do dia seguinte deu positivo. Procurou um médico rapidamente. Achou o primeiro profissional meio inseguro, porque não lhe indicou todos os exames previstos na informação que ele colheu do Google. A medicação prescrita aliviou um pouco seu desânimo enquanto foi perdendo o olfato e o paladar. Feita a necessária quarentena de 14 dias, não se animou a sair de casa nem do quarto, onde se enclausurou para preservar a família. O corpo, jovem ainda, não pedia atividade e sua vontade era permanecer no quarto, na penumbra. A custo, com apelos dos sogros que o visitavam, ele se dirigia para a sala. Conversava pouco, bem diferente do seu habitual. Preferia fazer pesquisas no celular sobre os tratamentos para Covid-19, incluir-se nos grupos de pessoas afetadas e observar as orientações de instituições sobre a pandemia. Com o avanço dos dias seu desinteresse pelo mundo externo, pelo trabalho, pela empresa, era cada vez maior. A esposa cada vez mais preocupada se dirigia a ele com o olhar; ora de pena, ora de raiva. O sogro e o filho mais velho, com seus 21 anos, foram incumbidos de cuidar da empresa, única fonte de renda da família. A empresa corria risco de insolvência em consequência mesmo da pandemia. Os produtos que comercializava não eram essenciais e as compras foram adiadas. Ele, vaidoso, não mais esboçava nenhuma preocupação com os negócios e nem com a aparência. Seu assunto único eram seus sintomas: falta de olfato e a perda de paladar, que ele sempre nomeava de “gosto”. Atenta e carinhosa, a esposa organizou uma rede de apoio com os amigos. Cada dia um deles o visitava e o convidava, inutilmente, para um passeio.

Pintura de Andrew Wyeth

Suas queixas intermináveis eram diariamente acrescidas de informações catastróficas. Imaginava uma suposta deterioração inflamatória de suas papilas gustativas e olfativas e que certamente iriam evoluir até atingir o seu sistema nervoso central. Para confirmar que suas suspeitas não eram tão infundadas assim, dizia, já estava sentindo formigamentos e dormência na cabeça, nas pernas e nos pés. Passaram-se quatro meses e a rede de apoio dos amigos e familiares foi enfraquecendo; verdade ou mentira, os amigos foram ficando cada vez mais sem tempo para as visitas, alguns evitando contato, mesmo por telefone. Exames neurológicos nada revelaram. Por conta própria e por orientação dos sites da internet, procurou tratamento com fonoaudiólogos, para estimulação eletrônica e química das papilas, cujo tratamento era sempre questionado, pois a evolução, ou melhoras, não aparecia. Mais freqüentes tornaram-se as taquicardias; por duas ou três vezes implorou à esposa que o conduzisse ao especialista, que repetia a mesma ladainha: você não tem problema cardíaco, seu problema é emocional. Dessa vez a sogra, que estava presente, perdeu a paciência e o chamou de doido, de desequilibrado, de inconveniente. Disse-lhe que suas queixas perturbavam toda a família e estavam contaminando a todos.  Ele há muito notara o afastamento dos colegas, da esposa e dos filhos. Ao quarto, na parte da manhã, onde permanecia após o café, ninguém mais o procurava. Por insistência da esposa, que marcou a consulta sem a sua permissão, foi ao psiquiatra bambambã da cidade. Medicado, passou a queixar-se do efeito dos medicamentos, que o deixavam cada vez mais prostrado, exatamente o efeito contrário ao desejado.  Decorridos dez meses, nada mudou, significativamente, nesta história. A bem da verdade, nele nada mudou, apenas acentuaram-se suas reclamações, debitando sempre às causas esotéricas o seu padecer: ora seria um castigo por erros, pecados não identificados ocorridos no passado, ora uma provação para testar sua coragem e purgação por seus possíveis sacrilégios.

Emagreceu cinco quilos. Tinha se queixado, a vida inteira, de uma certa obesidade. Entre a sua turma era um dos poucos que não praticava nenhum tipo de atividade física. Sempre tinha bons argumentos para a sua lassidão. A falta de tempo era uma daquelas conhecidas desculpas dos gordos para a preguiça. Sempre bons de boca e avessos ao suor. Chegando o verão, a cidade fervilha e quem pode sai para férias na praia e poucos, muito inquietos, procuram as montanhas, regiões mais altas e mais frescas. Ele teve apenas uma iniciativa, uma novidade que quis parecer grande: mudou seu tipo de corte de barba, que passou de Van Dike para a barba tipo lenhador. Segundo ele, combinava mais com seu rosto agora mais magro. Seus filhos não concordavam, achou que o pai ficou com cara de abandono: a barba mais longa conferia-lhe uma cara de ermitão.

No verão todos saem de casa, o sol brilha mais forte, os dias mais longos   convidam para roupa curta, chopes gelados e para as festas. Ele encontrava-se mais recluso, embora fosse ficando menos queixoso. Suas pesquisas na internet desapareceram, aceitava ir para a sala, para a mesa de refeição, mas cada vez mais calado. Agora havia chegado a vez dos familiares pesquisarem nos sites da internet sobre efeitos imediatos ou deletérios da infecção pelo vírus Corona, sem grande compreensão do que se passava com o marido e com o pai. Nada encontraram, nem os tratamentos mais variados com o fisioterapeuta, o fonoaudiólogo, o neurologista, o psicólogo e o psiquiatra. Deixara de usar a medicação e nada tinha se modificado. A família teve dúvidas se comemorariam o Natal. A sogra definiu em nome do otimismo, da esperança e da suposta influência que teria sobre ele, para fazê-lo, em data tão significativa, sair de seu esconderijo. Católica fervorosa que era, fizera algumas promessas: aumentou a frequência à igreja, trouxe para a casa da filha uma imagem de Nossa Senhora da Penha. Acreditava que um milagre pudesse acontecer na noite mais linda do ano, quando se comemora o nascimento de Cristo. Encomendou, como antigamente, quitutes em profusão, doces e salgados; convidaria os vizinhos próximos para esta noite especial. Tradicionalmente os habitantes da cidade, depois da Ceia de Natal, se dirigiam para a beira do rio nas pequenas áreas que a prefeitura previamente limpava. Este ritual se iniciou com os negros, que praticavam ali um ritual alegre, dançante, expressão do sincretismo religioso no Brasil.

É Natal! A casa agitada com adultos e crianças cada um com suas expectativas de ganhar presentes, de boa comida e bebida e do milagre. Ele não saiu do quarto até que a sogra fosse buscá-lo. Não precisou forçá-lo, ele trocou a roupa, penteou o cabelo e a barba. Participou da noite educadamente, não circulou pela casa, agradeceu os votos de melhora.  Permaneceu intocável sua taça de vinho. À mesa sentou-se na cabeceira, como o fazia antes. Gritaram por discursos. Alguns, como o vizinho de porta, fizeram uso da palavra, elogiando o cidadão progressista, respeitador da família, o empresário de sucesso, como vizinho solidário e até inventou que seria um bom cantor. A esposa, em seguida, falou de suas qualidades, como tendo sido ele seu único namorado e marido. Ele a todos aplaudiu sem demonstrar entusiasmo, cumprindo o protocolo. Apresentou a testa para o beijo da esposa, que se curvara sobre ele após o discurso.

Terminada a ceia, todos se apressaram para continuar a festa na beira-rio. Restava apenas a família em casa.  Os sogros e a esposa imploraram para que ele os acompanhasse; recusou com voz firme. Saíram. Ficou seu filho mais velho, seu substituto obrigatório na empresa. Mal tinha entrado no quarto para o seu resguardo e refúgio, o filho, sem bater, invade o quarto e de maneira raivosa cobra do pai o seu retorno ao trabalho. E, aproveitando a ocasião, faz um turbilhão de recriminações às atitudes do pai e o intima a retornar a seu lugar na empresa. Saiu batendo a porta.

O café da manhã do dia 25 ocorria sempre mais tarde. A tarde já corria pasmacenta, quando a mulher se lembrou de levar o prato de comida para o marido, que não aparecera até então. Ouve-se o grito da esposa. Não havia ninguém no quarto, a cama estava arrumada, todas as coisas nos lugares, as roupas e os dois calçados nos armários. Estavam pasmos, interrogavam-se entre si sobre o que poderia ter havido, procuraram o pai pela casa e quintal; e nada.

José, o pescador, bate à porta. Um a um os familiares se aproximam para ouvir o relato. Mal começa e todos saem em debandada para a beira do rio. Lá, avistam o pai numa canoa no meio do rio. Gritam, pedem que ele volte, porque o almoço já esfriou e o rio está cheio e perigoso. Ele permanece na mesma posição dentro da canoa, não se vira, não se apressa, não faz nenhum gesto. Até a noite ficam ali esperando que o pai retorne, que a correnteza desvie a canoa para o barranco. Nada acontece. Cansados voltam para casa. De manhã, o filho herdeiro volta para o rio e de novo insiste sem êxito. A tarde voltou e deixou na beira do rio algum alimento e água. Ficou um tempão à espreita e o pai não se aproximou. Novo dia:  o filho volta e os alimentos não estavam ali. Novos dias transcorrem, o filho saía do escritório e passava para deixar um fardo de alimentos na beira do rio. Ninguém via a aproximação, nem como os alimentos deixados eram recolhidos. O pai ali, subindo e descendo, no meio do rio, não ancorava em nenhum barranco ou ponto ou porto. Os gritos do filho, como de toda a família, haviam cessado porque não eram respondidos. Quem, da comunidade, que ainda se dá a curiosidade de procurar o pai vislumbra de longe uma silhueta na canoa subindo e descendo o rio.

O filho mais velho, depois de muitos anos, passada a pandemia, agora de cabelos brancos, voltará para sua cidadezinha e adquirirá uma canoa.

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