Contos da pandemia (27): Sem título 1, de Sérgio Tavares

Os dias se passaram e a terra era aberta em covas coletivas. Tornou-se um genocídio

(Com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, o Jornal Opção organizou uma seleção de contos escritos por autores goianos explorando o tema da pandemia da Covid-19 — que já vitimou mais de 553 mil brasileiros. A prosa curta mostrou-se não apenas possível, mas necessária, durante a pandemia. O jornal vai publicar um conto por dia e espera que, em seguida, alguma editora publique um livro.)

Pintura de Mike Davis

Sem título 1

Sérgio Tavares

Ao perceberem a silhueta da professora despontando na entrada da sala de aula, os alunos retornam a seus assentos. Laura abre a caixa e checa, pela última vez, a ordem dos slides. Será a próxima na continuidade das apresentações orais dos trabalhos de história. Após a chamada, levanta-se e caminha até o projetor. Posiciona os cromos no carrossel e liga o dispositivo, lançando um foco de luz sobre a lousa. À medida que fala, uma série de imagens corrediças ilustra sua explanação.

No começo, o mal era rumores vindo de terras estrangeiras. Foi no outono que chegou, aprisionando as pessoas em isolamento. Logo vieram as mortes, milhares de mortes, e a preocupação do líder era com experimentos científicos, desdenhar do sofrimento humano em livres incursões por mais territórios. Os que não morriam tiveram de proteger o rosto por conta do ar contaminado. Os dias se passaram e a terra era aberta em covas coletivas. Tornou-se um genocídio. E o líder assistia ao horror, descontraído, bebendo copos de leite, rindo dos que sufocavam. Seus aliados o viam como um mito.

Sepultamentos em covas coletivas em cemitério de Manaus | Foto: Michael Dantas/AFP

A imagem que encerra a apresentação é de um homem de meia-idade, semblante severo e cabelo penteado para o lado. A professora sobrevém e pergunta aos alunos qual o nome daquele líder. Hitler!, responde toda a turma em uníssono. O primeiro ditador, o que precedeu a todos os outros.

O sinal do recreio toca, encerrando a aula. Laura espera a turba escorrer pelo corredor e se encaminha para a cantina. Pega um suco e um salgadinho de queijo. Na embalagem, tem o desenho de um gado sorrindo. Laura pensa que nunca viu um gado. Olha para cima e encara a redoma de vidro que a separa do mundo doente.

Em 2022, ainda com o negacionismo do então ocupante da Presidência do Brasil e suas manobras para retardar a vacinação, o coronavírus sofreu uma mutação incontrolável e muito mais mortífera. Foi o tempo de semanas para a metade da população mundial ser exterminada, então a ONU tomou uma medida emergencial de selecionar grupos de pessoas de diferentes etnias e os proteger em abrigos nucleares, enquanto construía redomas sobre imensidões geográficas inabitáveis, a exemplo de desertos e vales.

Pintura de Mike Davis

Iniciou-se a civilização do futuro num ambiente de atmosfera controlada e com o uso de um sistema de circulação subterrânea para o acesso entre continentes. Os humanos foram submetidos a um programa de procriação supervisionada, na qual os recém-nascidos passaram a ser mantidos em tubos de substância amniótica, em razão de um tratamento químico para que nunca desenvolvessem doenças que desencadeassem contágio. Assim, o ciclo da vida se tornou mais longevo e o cérebro evoluiu de modo que o campo intelectual não conseguia mais assimilar conceitos rudimentares como machismo, homofobia, racismo, xenofobia e religião.

Laura terminou seu lanche e imaginou como se comportavam os gados. Será que eram barulhentos e tontos feito os garotos da sua turma? Procurou um cesto de lixo e, neste intervalo, uma menina que pulava corda se afastou do grupo e veio lhe convidar para brincar de pega-pega. Laura recusou, achava que estava velha demais para atividades tão infantis. Na próxima semana, seria 11 de julho, seu aniversário, e ela faria 144 anos.

Sérgio Tavares é escritor.

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