Contos da pandemia (26): “Se puder, fique em casa”, de Julius Vieira

Com a aglomeração, quase conseguia ver o vírus dançando balé pelo ambiente

(Com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, o Jornal Opção organizou uma seleção de contos escritos por autores goianos explorando o tema da pandemia da Covid-19 — que já vitimou mais de 552 mil brasileiros. A prosa curta mostrou-se não apenas possível, mas necessária, durante a pandemia. O jornal vai publicar um conto por dia e espera que, em seguida, alguma editora publique um livro.)

“Se puder, fique em casa”

Julius Vieira

O tecido da máscara foi ao rosto e, com a mesma naturalidade, as meias foram para os pés. Por vezes até esquecia que o uso era um ato de preservação à própria vida. Havia mais de um ano que o objeto era parte de sua rotina. Da rotina de todo mundo. Literalmente, todo o mundo. Naquela manhã de sexta, se arrumando para o trabalho, ouvia o noticiário comunicando o registro de mais de meio milhão de mortes, quase cinco vezes o número de moradores de sua cidade. O recado final da jornalista era a frase que já havia se tornado um mantra: “Se puder, fique em casa”.

Mas não podia.

As pessoas relatando os efeitos psicológicos de ficar em casa por tantos meses era uma realidade quase utópica. No abre e fecha dos estabelecimentos, mal ficara quinze dias consecutivos em sua residência. Saiu de casa, percorreu o caminho de algumas quadras encolhendo-se de frio até o ponto de ônibus. Lá, meia dúzia de pessoas também esperavam a condução. A primeira do dia.

Enquanto a catraca girava, observou quantos já tinham dentro do veículo, eram poucos. Menos mal. Porém, as janelas todas fechadas. Qual a parte de não aglomerar em locais fechados o pessoal não entendeu? Quase conseguia ver o vírus dançando balé pelo ambiente. Abriu as janelas próximas do banco em que sentara. O ímpeto foi de respirar fundo, com alivio, mas se conteve: melhor deixar o ar circular um pouco, primeiro. Ainda assim, a atitude não lhe pareceu suficiente. Ajustou a máscara no rosto.

“Operários”, de Tarsila do Amaral

Minutos depois, desceu. Terminal lotado. — Por que diabos todo mundo tinha que trabalhar na capital? —, escoou um pensamento. Segundo ônibus, superlotação. Um metro e meio? Ficaria contente se tivesse quinze centímetros até o passageiro mais próximo. A proximidade lembrou-lhe do quadro “Operários”, daquela artista Tarsila do Amaral, que viu no livro didático do irmão. Era só colocar máscaras naqueles rostos via photoshop que seria uma representação fidedigna da situação. Entretanto, para ter mais acurácia, deveriam incluir alguns narizes descobertos e máscaras nos queixos.

Em tempos de pandemia, uma tosse alheia desperta os instintos de sobrevivência mais primitivos e todos olham. Era impossível não olhar. Como um efeito-dominó, em poucos segundos sua própria garganta coçou, marejou os olhos ao contê-la. Não queria receber os olhares julgadores. Para se distrair, concentrou-se em suas mãos em volta das barras amarelas do ônibus, cobertas de poeira e fuligem. Imaginou a troca que acontecia ali, como uma ponte: germes, bactérias… vírus. O coração acelerou ansioso, porém estava sem possibilidade de esterilizá-las devido a lotação claustrofóbica. Mais quinze minutos para descer. A máscara contra rosto fazia o nariz coçar, não pôde evitar o sonoro— Atchim! As pessoas olharam feio, ajustaram as máscaras. Ninguém disse saúde.

Segunda classe, de Tarsila do Amaral

Segundo terminal. Procurou o álcool em gel dentro da bolsa como se a vida dependesse disso. E dependia. Enquanto fazia isso, empurrava para o fundo do subconsciente a ideia de estar contaminando seus outros pertences. Despejou o líquido transparente na mão, esfregou as palmas como uma mosca. O cheiro típico da substância subiu pelas narinas. O aroma provocou a mesma sensação de quem volta para um vício antigo. Acalmou o coração. Mais um ônibus, dessa vez não tão cheio, janelas abertas. Menos mal. Desceu do ônibus, a brisa fresca trazia alívio. Na rua há mais espaço e menos pessoas.

No fim do expediente, pouco antes de ir embora, conversas alheias preenchiam o ambiente.

— Sabe como está a situação do Elias?

— Entubado.

— Espero que se recupere logo, aqui fica muito sem graça sem ele.

— Pois é. — Segundos de silêncio. — A irmã da minha vizinha faleceu.

— Covid?

— Aham.

— Espero que tudo volte ao normal logo.

— Eu também.

Saindo, já sentia o alívio de não ter que enfrentar o percurso aterrorizante no dia seguinte, despediu-se dos colegas de trabalho e ouviu:

— No fim de semana, se puder, fique em casa, hein? Esse vírus tá perigoso demais.

— Pode deixar — respondeu.

— A gente se vê na segunda.

O caminho de volta era um espelho do percurso anterior, porém o cérebro estava cansado demais para se preocupar da mesma forma. Na volta, ainda no transporte lotado, recebeu por mensagem o convite para visitar no dia seguinte uma amiga que não via há meses. Já sentia a culpa de furar o isolamento mesmo antes de ir, era melhor não.

Em casa, tomando banho com a televisão ligada, finalizava o dia que mais parecia uma roleta russa. E a pior parte: nem sabia se o tiro que roubaria o ar de seus pulmões havia lhe atingido. No jornal da noite, após a atualização do número de mortes que não parava de crescer, o jornalista faz o típico apelo:

— O afastamento social ainda é o melhor jeito de conter a propagação do vírus, segundo os especialistas. Por isso, se puder, fique em casa.

Agora, seria possível seguir o conselho. Entretanto, isso tinha prazo de validade: dois dias. Só esperava não ser o próprio produto perecível.

Julius Vieira é formado em Licenciatura Letras-Português na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Goiás (UFG).

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