Contos da pandemia (23): O desamor em tempos de peste, de Brasigóis Felício

Para muitos, encontrar o sentido da existência é produzir sofrimento e descaminhos

(Com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, o Jornal Opção organizou uma seleção de contos escritos por autores goianos explorando o tema da pandemia da Covid-19 — que já vitimou mais de 549 mil brasileiros. A prosa curta mostrou-se não apenas possível, mas necessária, durante a pandemia. O jornal vai publicar um conto por dia e espera que, em seguida, alguma editora publique um livro.)

O desamor em tempos de peste    

Brasigóis Felício

“A peste só poderá ser combatida quando as pessoas forem honestas”. — “A Peste”, de Albert Camus

Pintura de Mike Davis | Foto: Reprodução

A peste chinesa está em todos os lugares. Mas a tragédia maior acontece quando se enraíza na alma.

Luciano não tinha a pretensão de ser portador da luz, como o nome com que foi registrado em cartório de registro civil poderia sugerir, mas jamais acreditou que seria picado pelo morcego chinês; mesmo tendo informações de que no mundo inteiro, pessoas de todas as idades, vivendo no campo, isolados, ou em grandes e turbulentas cidades, foram sendo picadas, contagiadas, infeccionadas, aos milhares, com grande parte delas, até jovens e atletas, indo para o saco, sendo colhidas por uma morte brutal, indigna e infamante, que secava suas veias, e as deixava sem ar, como peixes recém-pescados, a debater-se dentro dos barcos, nos estertores de morrer.

Em sua angústia, lembrou de quando, ao completar 40 anos, sentiu-se deprimido, por estar já saindo da maturidade, deixando a juventude lá atrás, sua mulher perguntou, com ironia:  – você queria é não ter completado?

Sabia, pela imprensa funerária, que não cansava de espalhar o terror, diuturnamente, só falando em Covid e nas suas vítimas, que o morcego chinês é imprevisível e letal, agindo em atos de demolição da vida de modo inesperado e perverso, deixando médicos em pânico, sem saber o que fazer.

Como o ocorrido no norte da Itália, onde o morticínio foi altamente letal e feroz, com populações de grandes cidades – em especial as que tinham milhares de chineses como residentes, trabalhadores de fábricas têxteis, recém-chegadas das festas do dragão, em Vhuhan, o epicentro gerador da peste. No auge do morticínio, pessoas internadas em hospitais, em desespero pânico, atiravam-se das janelas, buscando uma morte rápida, mas não covarde.

Pintura de Picasso

Cenas de caminhões do deserto levando centenas de cadáveres, em sacos pretos, aos campos de enterro coletivo, chocaram o mundo. Não demorou para o Prefeito da maior cidade do Brasil e da América Latina mandar abrir milhares de covas, às pressas, mandando fotos à imprensa de todo o mundo, enquanto soldava portas de comércios fechados, empurrando a enorme população para dentro de seus apartamentos, casas, barracos, favelas e mocambos, onde, amontoados e aglomerados, poderiam contaminar uns aos outros, com muito maior velocidade.

A sinistrose política, qual besta viram do apocalipse, galopava pelo mundo inteiro, em sua marcha sinistra. Alimentando o jornalismo de cemitério, que aterrorizava corações e mentes de telespectadores presos à corrente do medo, vieram as previsões catastróficas do poderoso e espaventoso Imperial College, garantindo que ao menos cinco milhões de pessoas morreriam, em poucos meses, vítimas da peste chinesa.

No Brasil o biólogo Átila Ultramarino seguiu na mesma toada funesta, tornado celebridade sanitária, da noite para o dia, tendo mais exposição midiática do que qualquer grande cientista de renome mundial, em todos os tempos, deu um bom desconto na sinistrose, deixou por menos: garantiu que dois milhões de brasileiros morreriam por Covid, em pouco tempo.

O jornalismo do terror tocou fanfarras, repercutiu, dia após dia, levando muitos a se matarem, em suicídios trágicos e dramáticos, que não podiam ser noticiados.

Seu rompante continuado foi desamor à verdade em tempo de peste viral, e de doença moral do caráter. Um aplaudido tributo à desumanidade, mas felizmente logo a verdade seria restabelecida, não obstante o empenho dos que lucravam (e ainda lucram) com a desonestidade. O jornalismo funerário tocou fanfarras, repercutiu com estrondo, fez a festa, ignorando que, por efeito da pandemia chinesa, 120 milhões de pessoas, no mundo, passaram a ter que enfrentar o drama diário da fome.

Pintura de Van Gogh

No Brasil, mesmo com o auxílio emergencial, que começou com seiscentos reais mensais, e hoje está em duzentos reais, milhares de novos miseráveis perambulam de cidade em cidade, de grotão em grotão, para, em filas quilométricas, esperar o auxílio que não paga o aluguel de um barraco em periferia, favela ou mocambo.

Ao sentir os primeiros momentos em que sentiu os sintomas, agiu rápido – sabendo, por vivência de familiares e amigos acometidos, que se salvaram por não terem seguido o conselho do palavroso e midiático Ministro Bandeta, que mandou os infeccionados ficarem em casa, até não estarem conseguindo respirar, e só depois disto procurarem socorro médico nos hospitais, foi à farmácia e comprou todos os medicamentos do tratamento precoce, alguns dos quais já vinha tomando, preventivamente, antes de ser contaminado, que uma disputa política se sobrepusera à razão e à lógica, mesmo ao instinto de sobrevivência, próprio ao indivíduo, e a comunidades ameaçadas por grandes e letais perigos.

Porém, mesmo sentia dores horríveis, em especial nos músculos do aparelho locomotor. E respirava mal. Enquanto atravessava a rua, sozinho, em direção ao hospital (fora só por não querer contaminar sua esposa, seu pai, ou amigo) sentiu dificuldade em respirar. Teve a sensação de que iria desmaiar em plena via pública, sendo atropelado pelo trânsito e vertiginoso.

Pensava na esposa e nos filhos, que deixaria jovens, ao desamparo econômico e afetivo. Sem seu cuidado e seu amor de pai e marido, sem meios de subsistência, a não ser os que vinham de seu trabalho duro e diário, o que seria deles? Pensou na dolorosa e trágica experiência de uma prima sua. Com medo de pegar o vírus, não saíam de casa, e não recebiam ninguém, nem suas filhas e netos

Pintura de Igor Morski

Um médico oncologista, que com a pandemia também passou a assistir acometidos pela Covid, disse-lhe que sua experiência mostrava que existem famílias “mais morredoras” do que outras. Quando um vai embora, forma-se uma fila a seguir mesmo descaminho; enquanto outras resistem mais às doenças virais, não sucumbem às epidemias, sobrevivem ao morticínio das pandemias parecendo serem dotadas de imunidade natural. Ele reconstituía seu histórico familiar, torcendo para não pertencer ao primeiro grupo de viventes.

Víveres de subsistência, como alimentos, eram chegavam por entregadores, porém mesmo assim, não demorou para começaram a sentir sintomas da peste chinesa.

De onde viera aquilo – como, e por meio de quem, tinham pego o vírus? Em pânico, procuraram o ambulatório médico de seu bairro. O teste rápido que fizeram ali mesmo confirmou a contaminação.

A médica, com indiferença profissional, com frieza mesmo, disse à sua prima que ela, por ser portadora de comorbidade renal, tinha poucas chances de sobreviver. Quanto ao marido, tinha chances, já que não tinha doença crônica alguma. Indicou internação imediata dos dois, mas a mulher recusou.

Sabia, à boca pequena (não pela imprensa) que grande parte dos internados, em especial dos que eram entubados, não sobreviviam. Ela preferiu ficar em casa, fazendo o tratamento precoce, convivendo com sua doença crônica – numa escolha de Sofia, ou talvez fazendo roleta russa, escolheu fazer o tratamento demonizado e politizado por gestores sócios do vírus chinês (muitos se tornaram milionários da noite para o dia, ou bilionários, já tendo amealhado milhões, tirados à bolsa pública).

Porém o marido, em pânico, empinou a carroça. Não voltaria á sua casa, que fora o seu refúgio, sem campo de desespero, ou de esperança, durante aqueles meses de tragédia coletiva. Resistiu aos apelos da esposa, que lhe prometeu cuidados e alimentação especial.

Nunca mais o viu, depois da despedida, no hospital público. Quinze dias depois foi chamada, para ver não o corpo, mas o saco preto onde estaria seu marido, prestes a ser jogado em uma cova rasa e anônima, sem velório, sem orações, sem pranto de luto e dores da passagem.

Sua prima disse que não aceitaria aquela forma brutal de tratar um corpo, mesmo defunto – sem ao menos ter certeza, que era ele mesmo, que estava ali.

Depois de feroz discussão acérrima entre a viúva e as autoridades sanitárias, permitiram-lhe que abrisse o saco, e visse, com seus próprios olhos, que era seu marido, levado por morte rápida e infame, que estava a ser enterrado, sem dignidade alguma.

Foi-lhe difícil conseguir o funesto intento, uma vez que o corpo estava em três sacos, cada zíper em lado diferente. Depois de um sofrido e tenaz esforço, conseguiu ver seu rosto. Pelo de sua vida não esqueceria o absurdo mórbido, a estupidez daquela cena, improvável e não acontecida nem em meio ao morticínio coletivo das guerras mais violentas. Nelas os mortos tinham direito a sepultamento cristão e digno.                                                      *

Agora ele estava só, enfim internado, em leito a muito custo (e com muita sorte) conseguido. Sorte dele, e azar de quem foi tirado dali, dentro do infamante saco preto, mais uma vítima do vírus mortal e mortífero. O que Luciano mais temia (ser lavado à UTI – e ser entubado). Sabia da estatísticas funestas? 83% dos entubados não sobreviviam.

Sem falar que UTIs particular (que uma multinacional aluga aos hospitais, devendo, portanto, ter ocupação intensiva e continuada, dando prejuízo quando estão vazias, custam os olhos da cara. Muitos, não confiando no sistema público de saúde, quebraram a tíbia e o Petrônio – venderam casas, carros, fazendas, para dar conta do desbronco – e mesmo assim inutilmente, pois que seus entes queridos se foram, levados dentro dos temidos sacos pretos sanitários.

Para muitos, encontrar o sentido da existência é produzir sofrimento e descaminhos.

Agora ele estava sozinho, chorando e com medo de morrer, não mais fazer parte deste mundo turbulento, perigoso, mas lindo – sentindo a angústia mortal, de estar bem perto passar a pertencer ao mundo escuro e imóvel dos mortos, não mais sendo habitante da Graça e da maravilha de estar vivo, respirando o ar da vida e da liberdade.

 Brasigóis Felício é escritor e jornalista.

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