Contos da pandemia (22): Álibi, de Sônia Elizabeth

Meu olhar em labirinto, assustado (em estado de terror). Eu, despatriado, como se fosse o único sobrevivente de uma guerra sem corpos nas alamedas

(Com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, o Jornal Opção organizou uma seleção de contos escritos por autores goianos explorando o tema da pandemia da Covid-19 — que já vitimou mais de 548 mil brasileiros. A prosa curta mostrou-se não apenas possível, mas necessária, durante a pandemia. O jornal vai publicar um conto por dia e espera que, em seguida, alguma editora publique um livro.)

Álibi

Sônia Elizabeth

Começou que veio o toque de recolher e eu tive que ficar preso em casa. Ruas desertas, tortas, feito aquelas do velho oeste, onde o único ruído era a leveza de fenos voando ou rolando ao léu. Deserto. Assim foi o começo. Apenas o essencial acontecendo. Tinha o costume de happy hour todas as sextas, no mesmo barzinho, com a mesma atração musical de sempre. Amigos, a turma da maturidade. Mas tive que cismar sozinho, absoluto em meu habitat. O pé na rua, apenas com olhos e boca cobertos pela máscara, um pote de gel ou álcool setenta nas mãos. O inimigo em volta, esperando um descuido.

Daí que o final de semana veio correndo.  A goela seca esperando o líquido cevada, o paladar suspirando pelo tradicional tira-gosto. Ainda em terno escuro (assim meu ofício exige), carreguei de casa uma mesinha para a frente do bar fechado, vigiado pelos fiscais à solta, e sentei-me sozinho à porta, no mesmíssimo lugar de sempre, eu e meus fantasmas escolhidos, posição de espera, imaginando que a prisão duraria apenas uns quinze próximos dias.

Arte de William Blake

Meu olhar em labirinto, assustado (em estado de terror). Eu, despatriado, como se fosse o único sobrevivente de uma guerra sem corpos nas alamedas. Eu, com a cerveja que trouxe, o copo nadir figueiredo, cumprindo meu ritual, decidido a permanecer firme em meus hábitos e costumes.  Nada ao redor, nenhum mosquito para incomodar, nenhum cão de rua à espreita de algum naco de carne. Todos respeitosos, menos eu.

Um facho de luz parecia vir de alguma direção, iluminando-me. Parcial. Metade facho, metade escuridão. Ofereço o primeiro gole ao diabo que o parta, pois Deus deve estar distante de todo esse enigma, de todo esse tédio. Não acredito que o Pai esteja metido nisso de confinar a humanidade. Não creio nisso não. Semana passada eu me esbaldei em risos e bebedeiras. Parecia até que o fim do mundo estava próximo e eu adivinhava isso. Como se uma voz do outro plano me dissesse: “Aproveita que logo estarás de castigo”. Essa luz impressiona-me. Na solidão torturante parece que escuto uma sinfonia de Bach, mas é só impressão minha. Talvez já um ensaio de loucura. E confesso: nunca apreciei tanto uma cerveja como essa. Parece a melhor de todas, mas não é. Faltam pessoas nessa mesa, diálogos, risadas, conversas jogadas fora. Falta o violão em ritmo de bossa nova, uma voz que se confunde com a noite, um pileque daqueles de chamar um táxi…ops…hoje é uber. Falta o bolinho de arroz, aquele último que fica no prato e ninguém quer pegar sob pena da alcunha de deselegante. Falta o guardanapo onde a gente escreve um verso de pé quebrado e a turma toma para ler, ao som de largas e debochadas gargalhadas. Eu pagando micos em abundância.

Pintura de Tarsila do Amaral

Vou, até para espantar o medo, fazendo um batuque na mesa. Tem algo de Baden na minha ilusão, no centro de minha autoestima. Se tem lua no céu nem sei. Fico pálido, sentado na mesma posição. Sinto os olhos turvos do inimigo na espreita. Luto com ele, nocauteio, venço a luta, mas saio com sequelas. Sérias sequelas. Tenho medo de perder o paladar para a loira gelada, o limão cortado em duas metades. Medo de não respirar, esquecer o nome do garçom, a utilidade do menu. Uma cerveja que tomei aos pequenos goles, agora já quente. Melancolia. Meia noite. Transformo-me em lobisomem e estou imune. Pelo menos até o nascer do dia.

Sônia Elizabeth é escritora.

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