Contos da pandemia (16): Amor Passageiro, de Luiz Aquino

“A solidão do recolhimento era como a tábua do náufrago: a única esperança de salvação”

(Com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, o Jornal Opção organizou uma seleção de contos escritos por autores goianos explorando o tema da pandemia da Covid-19 — que já vitimou mais de 539 mil brasileiros. A prosa curta mostrou-se não apenas possível, mas necessária, durante a pandemia. O jornal vai publicar um conto por dia e espera que, em seguida, alguma editora publique um livro.)

Amor passageiro

Luiz de Aquino

Tocava meu queixo

com a ponta dos dedos,

puxava o meu olhar e,

apaixonada, cantava

para o meu encantamento.

(L.deA.)

Acabo de me vacinar contra Covid-19. Cumpro essa rotina, agora com dose única, desde que, após três anos, a vida retomou a rotina, ainda que as pessoas adotassem novos procedimentos para a proteção individual ante a nova doença, surgida nas primeiras semanas de 2020. Ao deixar o posto de vacinação, vejo-a chegar com o pai numa cadeira de rodas. Lembrei-me de quando os vi, naqueles dias iniciais da vacinação, em fevereiro de 2021.

Era o tempo da prolongada quarentena, imposta pelo rigor da pandemia que assolou o mundo e a humanidade em plenitude. Uma ordem comum espalhou-se por todo o planeta, pelos lugares aonde chegavam notícias e temores. Nos primeiros dias corria-se às notícias, ora no rádio, ora na tevê, e todo o tempo possível voltava-se à busca de novidades.

Pintura de Rubens Gerchman

Vieram as mortes. Uma em São Paulo, outra mais no Rio, outras alhures e tentava-se alcançar proteção, evitar que o mal atingisse o que se tinha por próximo – mas pouco tempo se deu até que a moléstia se aproximasse. E vieram os casos graves, as primeiras mortes, a incerteza quanto ao tratamento e, súbito, a morte também chegou perto. A solidão do recolhimento era como a tábua do náufrago: a única esperança de salvação.

Álcool em gel; álcool líquido a 70 graus. Máscaras que, rapidamente, sumiram do mercado e dando lugar à criatividade de costureiras profissionais, além da mobilização em famílias para a feitura da nova peça indumentária, que rapidamente se fez tão usual quanto qualquer peça de roupa no uso quotidiano.

Então, fez-se preciso preencher os dias. Trabalhos domésticos, velhos discos e filmes e os indispensáveis livros. A releitura. Alguns livros ainda não lidos. Livros adquiridos entre amigos e parentes, muito por ler, pois! Mas os dias ganharam cores mortas e odores à beira do insensível. O refúgio escolhido: livros de poemas e romances – uns com o peso bem medido dos temperos inusitados, outros insossos como as frases comuns das pessoas inexpressivas.

Pintura de Marc Chagal

Foram muitos os meses até que surgisse a grande esperança – a vacina. Houve o empenho da imprensa e dos médicos, pressão da Organização Mundial da Saúde, e muita gritaria antes que démarches fossem iniciadas. Por fim, as primeiras doses e um programa de prioridades quanto a quem seria vacinado primeiro. Aos meados dos meus anos quarenta, sabia que teria de esperar meses e meses até sentir a agulhada no braço para a primeira dose do imunizante. Mas, como repórter, estava sempre em pontos da linha de frente das ações – e, daquele dia em diante, os postos e as filas para a vacina eram a minha pauta.

Corria a terceira semana, ou a quarta, quando a vi. Descia do carro e dava alguns passos até a porta direita, que abriu e acolheu aquele homem, de poucos cabelos grisalhos e alguma dificuldade na locomoção. Deu-lhe, com graça, o braço esquerdo e lentamente caminharam à recepção; em poucos minutos, sorrindo feliz a moça filmava, com o celular, as ações que culminaram com a picada e a injeção segura do líquido salvador no braço do pai – sei porque ela o chamou, como que festejando.

Saquei o telefone e liguei-o para a entrevista, com som e imagem. Nome, idade, profissão… A filha antecipou ao homem idoso e aquela voz deixou em mim uma esperança legítima. Legítima, sim: ela falava comigo como se pretendesse falar mais e, por isso, surpreendi-me ao lhe pedir o número do celular, ao que ela atendeu de pronto, sem receios nem barreiras. Por três ou quatro vezes eu liguei; e pelo menos em duas ocasiões ela chamou. E por sentir que era bem recebido, propus um café.

Pintura de Almada Negreiros

O primeiro encontro foi rápido, inusitado… No próprio carro à porta de sua casa. Sem medos nem zelos, ela aceitou a porta aberta; entrou e passou-me a mão esquerda, que colhi e beijei, atraído por um perfume delicado, estonteante. Não percebi o instante em que, tirando a máscara e removendo também a minha, ela me beijou. Acho que me mostrei um tanto surpreso, talvez assustado, ao que ela me tranquilizou:

– Você sugere confiança – ao que retruquei:

– Não se cuida?

Sim, ela se cuidava. Costumava ler meus artigos no jornal e acompanhava meu trabalho na televisão. Por isso dizia confiar, mas insisti em propor cuidados.

Não adiantou muito. Já nos beijávamos com sede e lascívia. Ouvi frases de despertar-me delírios, justo após, com decidido atrevimento, acariciar-lhe os seios.

– Eu me excito com muita facilidade – disse ela.

Com delicadeza e segurança, toquei-lhe o peito direito e fiz descer a blusa; divertida, ela explicava com indisfarçável felicidade:

– Vê que meus mamilos são pretinhos? Tenho raízes, orgulho-me delas!

As circunstâncias eram arriscadas, um namoro avançadinho no carro, à luz do meio-dia em rua movimentada… Interrompemos os toques e combinamos para mais tarde. Corri para casa, cuidei de arrumar o apartamento para recebê-la.

À noite daquele mesmo dia, trouxe-a ao meu miúdo e aconchegante apartamento no Marista. Apartamento de solteiro namorador, sempre cuidei de manter à mão boa bebida e comidinhas várias para antes e depois do amor. O ambiente era favorável – afinal, era indispensável preparar o clima de romance – e de amor, quem sabe?

Soube. Eu ansiava pelo beijo morno e molhado, o passeio mútuo das línguas cúmplices, a textura e a temperatura da pele morena. Entre um beijo e outro, ela dizia coisas e eu também murmurava ternuras.

– Vai conhecer melhor meus morenos.

Ela falava dos detalhes afros de sua pele: além dos mamilos e aréolas, os pelinhos bem tratados, aparados, bem como as axilas depiladas e escuras, atestando a origem.

Tanto mais se amorena

quanto menos roupa tem,

e eu lhe beijo esses morenos

porque sei que me faz bem.

Por outros momentos, noites ou dias, e outros locais, em viagens escolhidas, amamo-nos com uma intensidade incomum, feliz e árdua. Mas em poucas semanas as rotinas retomaram nossos dias e nosso tempo. Não sei em que momento nos demos conta das ausências, dos silêncios, das mensagens interrompidas. E não mais nos vimos.

Agora, ei-la de novo num posto de vacinas. Trazendo o pai. Cuidando dele.

Afasto-me discretamente… À simples visão de uma cena repetida senti tremerem-me as pernas. Acho que, mais tarde, devo lhe telefonar.

Ou não?

Luiz de Aquino é poeta e prosador.

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