Contos da pandemia (13): Veredas e tucuns, de Nilson Jaime

Que raios de purgatório era esse com azitromicina, midazolam, noradrenalina e fentanil? Que vida era aquela com gente usando máscaras com medo de pandemia?

(Com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, o Jornal Opção organizou uma seleção de contos escritos por autores goianos explorando o tema da pandemia da Covid-19 — que já vitimou mais de 537 mil brasileiros. A prosa curta mostrou-se não apenas possível, mas necessária, durante a pandemia. O jornal vai publicar um conto por dia e espera que, em seguida, alguma editora publique um livro.)

Veredas e tucuns

Nilson Jaime

A sensação é de que respirava dentro d’água. Pior. Que se afogava no seco, como peixe ofegando fora do rio. Sufocamento, queimação nos brônquios, dor lancinante nos pulmões encharcados. Dispneia: desconforto e redução da consciência, agitação e confusão. Não sabia por que, mas lembrou-se das aulas de química analítica na universidade, havia tanto tempo. As imagens iam e vinham, bruxuleantes. Odor nauseabundo de enxofre, estanho ou manganês, não soube precisar. Tinha que adivinhar a substância pela cor das chamas do bico-de-Bunsen, ora verde, ora azul-violácea, rosa, carmim ou fumo. Não via sentido naquele blasonar de conhecimentos inúteis, sob as piadas infames de jovens imberbes e empertigados pela recente aprovação no vestibular da Federal. Ainda mais agora que sentia frio. Muito frio.

— É Sidra! Coloque em prona!

Em sua mente desconexa percebeu que a ordem partira do homem de branco com óculos anchos, aos ser virado em decúbito ventral, sobre o colchão desconfortável. Seus olhos apareceram esbugalhados como jabuticabas, entre os fundos de garrafa e a testa proeminente, enquanto vaticinava:

— Síndrome do Desconforto Respiratório Agudo, por Pneumonia viral, provavelmente. Faça uma TC! — ordenou convicto o infectologista.

Pintura de Pitágoras

A febre persistia há quatro dias. Tosse seca, cefaleia, diarreia, perda de olfato, astenia. Nunca se sentira tão fraco e severino. Procurava apreender cada palavra em busca da compreensão de seu mal. Uma doença mortal, certamente: sorologia, acianótico, sialorreia, sepse, plaquetas, coagulograma. Aquele palavreado dito assim, solenemente, não podia indicar boa coisa. Talvez tenha se contaminado com aquele césio, cujo número não se lembrava mais.

Voltou às tardes primaveris de 1987. Via homens com trajes brancos de astronautas num zum-zum incessante pela Paranaíba, no Centro de Goiânia. Ou seriam roupas amarelas? Filas intermináveis de pessoas aguardando a vez de descobrir se tinham ou não se contaminado com o gás letal. Uns diziam não ser gás, mas uma pedra que brilhava no escuro. Terá o mal escapado do depósito provisório em Abadia? Se é provisório, por que a demora, há tanto tempo? E se o gás escapou? Como terá se contaminado e o que fará para se curar? Terá cura? Não conseguia pensar. A dor nas juntas e na fronte era intensa.

Pintura de Pitágoras

O capacete VNI foi retirado. Fariam uma intubação orotraqueal. E — por Nossa Senhora da Abadia do Muquém! — não se lembrava do número do Césio, se 187 ou 257. Teria ouvido tratar-se de um vírus? Ou estaria delirando? Uma doença pandêmica? Não importava. A fadiga tornou-se insuportável. Literalmente estava chupando o ar em busca da molécula de oxigênio salvadora. Mas nos pulmões só havia um fluido macilento e viscoso de metabólitos da tempestade de citocinas no organismo moribundo. Sentia o respirar como caminhar sobre os charcos, ou pelas veredas ilhadas no sertão Cerrado. Não conseguia usufruir da beleza dos buritizais por medo das sucuris, jacarés e espinhos de tucuns. Como fora se contaminar com césio?

Sentia sede. Sentia frio. Sentia medo e ansiedade. Desejava coçar a traqueia, mas não tinha forças. Cada respiração era uma dor, um ai, um dó! A cianose tomara-lhe mãos e pés. Não sabia se dormia ou se acordara. Seria assim a morte? Ou estaria no purgatório, prestes a passar para a vida? Que raios de purgatório era esse com azitromicina, midazolam, noradrenalina e fentanil? Que vida era aquela com gente usando máscaras com medo de pandemia?

Já não sente aflição. O ar fresco das campinas, o aroma da sucupira e das melíferas colmeias do Cerrado lhe penetram, lépidos, as narinas, como um sopro de vida, ou de morte. Ouve o canto do jaó, da seriema e das araras, num alento. Já pode andar livremente pelas veredas, ao balançar das folhas palmáceas dos buritizais, da miríade de borboletas em paná-paná, sentindo o roçar das florescerratenses, sem medo de sucuris, jacarés e espinhos de tucuns. Livre de máscaras e da peste.

Nilson Jaime é doutor em Agronomia pela UFG, escritor e crítico literário.

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