Considerações sobre um estudo de Albertina Bertha e sobre o legado de Friedrich Nietzsche*

Não gosto de Nietzsche; tenho por ele ojeriza pessoal. Acuso-o, a ele e ao Esporte, como causadores do flagelo que vem sendo a guerra de 1914

Friedrich W. Nietzsche (1844-1900), autor de livros como “O Anticristo” e “Aurora”, exerceu grande influência sobre escritores e filósofos do século XX | Foto: Reprodução

Lima Barreto

A Sr. D. Albertina Bertha é um dos mais perturbados temperamentos literários que, de uns tempos a esta parte, tem aparecido entre nós.

Muito inteligente, muito ilustrada mesmo, pelo seu nascimento e educação, desconhecendo do edifício da vida muitos dos seus vários andares de misérias, sonhos e angústias, a autora do “Exaltação”, com auxílio de leituras de poetas e filósofos, construiu um castelo de encantos, para seu uso e gozo, movendo-se nele soberanamente, sem ver os criados, as aias, os pajens e os guardas.

Do alto do seu castelo, ela percebe as casas dos peões e homens de armas lá embaixo, rapazes com o solo e só a flecha da igreja do burgo se ergue um pouco acima dele. Ela não lhe adivinha os obscuros alicerces robustos.

Quando li o seu romance, lembrei-me do drama que a milhardária americana Clarence Marckay leu a Jules Huret quando ele andou em alta reportagem pelos Estados Unidos. Mme Clarence era casada com o rei dos telégrafos americanos, que lá não são ou não eram monopólio do Estado. O drama da rainha dos cabos fazia apologia do amor livre, “do amor integral”, sobre o amor platônico.

Depois de Balzac, de Daudet, Maupassant, etc., o romance “Exalta­ção”, da D. Albertina Bertha, na feitura, nos surge cheio de um delicioso anacronismo. Aparece-nos como uma novela de grande dama, linda e inteligente, para quem a existência só tem o merecimento e mesmo é o seu principal fim o de determinar o amor de um casal, senão de condição real, mas suficientemente principal.

O último livro da Sr. D. Albertina Bertha – “Estudos” – é talvez mais do que o seu romance de estreia de­mons­trativo da originalidade do seu temperamento e do seu curioso talento, tanto mais curioso quanto se trata de uma mulher e de uma mulher brasileira.

Albertina Bertha, feminista brasileira do início do século XX, foi estudiosa da obra do filósofo alemão Nietzsche. Seu estudo referente ao filósofo foi criticado pelo escritor carioca Lima Barreto

O que caracteriza o pensamento de D. Albertina é se não certa difusão de ideias, uma falta de nitidez, de clareza e coerência de ideias.

Eu me permitira dizer-lhe, se não temesse desagradar-lhe, que, apesar de todo o seu apelo à Grécia, a tal Helade, a eloquência torrencial e tumultuosa do seu escrever, o vago e o impreciso de suas concepções, o constante borbotar de ideias, sub sua pena, que se emaranham e se tecem inextricavelmente, lhe dão mais parentesco com os luxuriantes poetas hindus do que com os helenos cediços.

Neste seu último livro, a Sr. D. Albertina, no seu excelente estudo sobre Nietzsche, compara o “Super-Homem” deste ao Nirvana búdico e ao paraíso cristão.
Os termos não se prestam a que se estabeleça qualquer comparação: admitindo, entretanto, que se pudesse fazer, bastam estas palavras da autora, explicando a moral do “Super-Homem”, para mostrar o absurdo de tal coisa. Ei-las:

“Aos primeiros, às naturezas plenas (os “Super-Homens”), a esses seres privilegiados, artistas do pensamento e da ação, que sabem governar-se, manejar as paixões em proveito próprio (tomem nota), desviar as reações, ela (a tal moral dos Super-Homens) tudo permite para a sua existência, o seu equilíbrio na vida universal: aventuras, incredulidades, repouso, o próprio excesso, a impiedade, a rudeza”…

É possível admitir sujeito de tal moral digno do Paraíso ou do Nirvana? Não há quem hesite em dizer – “não” – por menos que conheça a concepção do Paraíso, que é muito plástica e a do Nirvana, embora extremamente abstrata.

A autora há de me desculpar essa rudeza, essa franqueza; mas seria hipocrisia não lhe falar assim. Dos meus vícios, que não são muitos, creio não ter o da hipocrisia.
Não gosto de Nietzsche; tenho por ele ojeriza pessoal. Acuso-o, a ele e ao Esporte, como causadores do flagelo que vem sendo a guerra de 1914.
Ele deu à burguesia rapace que nos governa uma filosofia que é a expressão de sua ação. Exaltou a brutalidade, o cinismo, a amoralidade, a inumanidade e, talvez, a duplicidade.

Nenhum outro homem, mesmo em tom de ironia, falou tão mal da caridade e da piedade; entretanto, D. Albertina, a págs. 35 do seu livro, pede piedade para ele. Eu lhe dou, de bom grado; mas continuo.

Não se compreende que a humanidade, só podendo subsistir pela associação, possa prescindir de sentimentos que reforçam essa associação e a embelezam.
Nietzsche é bem o filósofo do nosso tempo de burguesia rapinante, sem escrúpulos; do nosso tempo de brutalidade, de dureza de coração, do “make-money” seja como for, dos banqueiros e industriais que não trepidam em reduzir à miséria milhares de pessoas, e engendrar guerras, para ganhar alguns milhões mais.

São eles sem educação e sem gosto algum; com a crueza dos “condottiere”, não tem como estes o senso da beleza e da arte.

Nietzsche, devido à convivência em Basileia com Burckhardt, tinha uma grande admiração por essa espécie de gente; mas como sempre, a sua admiração se encaminhava para o pior, para Cesar Bórgia, o ignóbil Cesar Bórgia, certamente fratricida e, talvez, incestuoso.

Os seus comentadores, especialmente o Sr. Jules Gaultier, o engenhoso descobridor do Bovarysmo, tem procurado extrair das elucubrações de Nietzsche um sistema de filosofia; tornam-se, porém, mais confusos do que ele.

Entretanto, apesar de não se poder tirar dos seus livros um pensamento nítido, claro e harmônico, o que, em geral, se depreende deles é um apelo à violência, à força, um desprezo pelo refreamento moral, pela bondade, pela caridade, pela piedade, até pelo amor que, para ele, não é mais um grande sentimento de resgate e um anelo à perfeição, mas uma espécie de vinho de bacantes em festas dionisíacas.

Ele inspirou essa guerra monstruosa de 1914 e o esporte a executou.

Spencer, em 1902, no seu último livro – “Fatos e comentários” – no artigo “Regresso à Barbárie”, previa esse papel retrogrado que o atletismo havia de representar no mundo.

Condenando-os, sobretudo o futebol, o grande filósofo dizia muito bem que todo o espetáculo violento há de sugerir imagens violentas que determinarão sentimentos violentos, dissecando a simpatia humana, enfraquecendo a solidariedade entre os homens. Nietzsche, catecismo da burguesia dirigente, combinando-se com uma massa habituada à luta ou a espetáculos de lutas, só podia dar em resultado essa guerra brutal, estupida, cruel, de 1914, que continua e não resolveu coisa alguma.

D. Albertina, que parece não ter per­cebido essa influência nefasta do filósofo de que é admiradora, diz em alguma parte do seu livro que é cristã.

Admiro-me muito que pessoa tão inteligente, cuja cultura eu desejaria ter, possa fazer semelhante profissão de fé, quando Nietzsche, no seu “Anti-Cristo”, com a sua habitual falta de senso histórico, chama S. Paulo, essa alma extraordinária da epístola a Filemen, anarquista, cujo único propósito consistia em derrubar o Império Romano, que já estava em adiantado estado de putrefação, quando ele pregava a caridade e o amor com a sua palavra de fogo e o seu coração cheio de fé nos destinos da humanidade.

De novo, peço desculpas à ilustre autora, cuja delicadeza da oferta de ambos os seus livros muito me tem desvanecido; mas este último é tão cheio de ideias e opiniões a ponto de sugerir outras ideias e outras opiniões da minha parte, que eu queria explicá-las com mais serenidade, mas não posso.

O seu estudo sobre a “Evolução do Romance” é magistral, embora lhe faltem referências ao romance russo, como já foi notado. Creio que a autora dos “Estudos” não desconhece a influência dele sobre a novela francesa dos anos próximos. Até em Maupassant é bem sensível à influência de Tourgueneff.

O seu espírito nitichista (vá lá) levou a autora do “Exaltação” a exaltar o coronel Rapagneta ou Rapagneto. Não vejo porque.

O Sr. D’Annuzio é um retrógado, os seus ideais não são os dos nossos tempos; ele sempre sonhou com um ducadozinho italiano da idade média, em que ele pudesse dar expressão aos infrenes pensadores para a volúpia e a crueldade. Não há nele nenhuma simpatia pelos homens: a sua arte não é uma interrogação diante do angustioso mistério da nossa existência, do destino e sentimento da nossa vida; é uma apologia do sangue, da volúpia e da crueldade. A musicalidade da língua italiana ilude muito…

Duque de Fiume, ele encheu as pri­sões e, se não faz execuções, com um machado medieval, tirado a algum museu italiano, é porque teme o inimigo mais poderoso que o vigia.

Cesar Bórgia, o terrível, fez o mesmo diante de Carlos VIII, rei de França.

Não me alargarei mais, “Estu­dos” é um livro de fragmentos e li­vros desses não podem ser analisados, parte por parte, sem que o artigo que se escreva sobre e tome proporções que um jornal não comporta.

Lima Barreto (1881-1922), autor “Clara dos Anjos”

O que eu quis fazer foi caracterizar o espírito da autora e se, aqui ou ali, houve alguma aspereza, é porque é um livro de ideias e as minhas, se as tenho, são opostas às da ilustrada autora do “Exaltação”, cujo saber admiro muito e não cesso de preconizar.

Há de me perdoar qualquer observação menos bem dita, pois penso, e a autora melhor do que eu sabe, que, quando se tem opiniões sinceras, se tem paixão.

*Publicado na “Gazeta de Notícias”. Rio de Janeiro, 26 de Outubro de 1920, p. 02, sob o título de “Estudos”.

Lima Barreto (1881-1922). Romancista e jornalista.

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