Conec-atados – pela defesa de um projeto civilizatório

Educadores, uni-vos pela defesa de um projeto civilizatório!!! Ou bye bye Brasil

Abraham Weintraub, Ministro da Educação | Foto: Reprodução/YouTube

Gabriel Rocha Freitas
Especial para o Jornal Opção

O século XXI já vinha sendo marcado por grandes desastres naturais, atentados terroristas, crises econômicas, conflitos políticos e religiosos, guerras que por vezes provocaram fugas em massa em busca de paz e pelo direito à vida, como é o caso dos refugiados Sírios e Venezuelanos. Porém, a questão que quero propor para reflexão é acerca dos posicionamentos em que a humanidade tem tomado como enfrentamento de tais problemas, e qual seria o papel da Universidade diante disso tudo, principalmente diante das questões que são potencializadas no contexto da pandemia da Covid-19. 

Problemas políticos, crises, vírus e desastres naturais sempre existiram e, de certa forma, ditaram rumos para a civilização. No contemporâneo, o Brasil e o resto do mundo vêm enfrentando inúmeros problemas, mas quais poderiam ser evitados? Por meio de diálogos e acordos, soluções científicas, ações políticas, novos hábitos, ou por qualquer forma de solução ao menos parcial para alguns destes problemas? 

Estamos providos de potencial tecnológico e alto grau de conhecimento científico que possibilitaria soluções para estes problemas, mas a tecnologia vem sendo também uma arma. A comunicação é um forte instrumento para estabelecer e sustentar relações de poder, pois, podemos perceber que a quantidade de dados que nos atropelam cotidianamente está contaminada por fake news, que possivelmente auxiliaram a decidir processos eleitorais. Assim, alianças políticas entre países, e mudanças na forma de governar saem dos “gabinetes do ódio” e seguem para as redes sociais. Temos assistido apáticos a episódios que poderiam ser entretenimento no cinema, caso estivéssemos em um país com acesso a cultura. 

A tecnologia não pode ser vista como problema, pois é fruto da produção humana e suspeito aqui que tenha surgido para facilitar a vida, no entanto não são estes os rumos que  estamos tomando. Isto é, a tecnologia está, sim, tornando-se um problema. Problematizar é a frase mais ouvida dentro de qualquer faculdade cotidianamente, portanto, lançar um olhar critico para os rumos da Universidade (leia-se: toda a área da educação, bem como da política) é urgente e necessário. 

Não é necessário um especialista nos dizer que precisamos de mudanças efetivas na forma de lidar com a tecnologia, sobretudo, quanto à tecnologia de informação. Há uma emergência na aprendizagem do uso correto da internet, necessitamos de novos hábitos, como aprender a conferir as fontes e antes de repassar aprender a duvidar, ao invés de acreditar na noticia encaminhada por um conhecido. Porém, precisamos dos especialistas para analisar as questões sociais, e ofertar por meio da ciência saídas e rupturas.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) já apontava que a doença mais incapacitante no presente século seria a Depressão, então, temos deprimidos na Web sendo bombardeados por uma guerra de informações que visam sustentar as relações de consumo e de poder, elevados a outros patamares pela pandemia. 

Existe um importante estudo de Michael Apple (2003) a obra Educando à direita: mercados, padrões, Deus e desigualdade, na qual o autor abre a introdução com a frase “A temporada de caça á educação continua aberta”(p.1). Ele faz afirmações que grupos conservadores têm tomado posse da educação, tais grupos colocam pressões para que consigam apoio e fundos para a escola privadas, sendo uma parte delas religiosas, e destaca com o atual financiamento estudantis atendem os interesses neoliberais.
Para o autor, estes grupos defendem suas ideias usando a justificativa quanto a melhoria do padrão de qualidade, por meio de avaliações e para desta forma aumentar o nível de exigências tanto em relação ao desempenho de professores, quanto dos estudantes que devem, portanto, se alinhar com as lógicas de mercado neoliberais. 

Os grupos conservadores, por sua vez vão aos poucos implementando suas ideologias, fazendo ataques quanto ao ensino da teoria da evolução, e como justificam “a perda da palavra inspiradora de Deus nas escolas” (APPLE, 2003, p. 3).

O autor enaltece que sob esta ótica a educação é compreendida como uma “transmissão” de conhecimentos neutros e assim cabe a educação o preparo dos estudantes para a competitividade do mercado de trabalho, e que seja é claro da maneira mais eficiente e eficaz possível, em outras palavras, trata-se da educação com enfoque meritocrático. E por tudo isso o currículo neutro, avaliado por um sistema neutro funciona para dar “liberdade” aos alunos, pois aos mais interessados, aptos e esforçados serão recompensados com bons empregos e consequentemente bons salários.

Para Apple é uma lastima que os modelos educacionais não considerem as desigualdades constitutivas da sociedade, quanto às relações entre a educação, economia, classe, questões de gênero e de raça. O objetivo da sua obra é claramente exposto, a intenção de fazer “uma analise de crenças, proposta e programas educacionais direitistas – e a seus efeitos no mundo real,” (p.10). Afirma também que a direita intencionalmente provoca mudanças no senso comum, ou seja, tem forte impacto no pensamento social.

Para o feito que chamou de “mapa da direita”, faz a distinção de três grupos, o primeiro os neoliberais, o segundo os neoconservadores, e o terceiro os populistas autoritários. Segundo ele os neoliberais são os que apoiam a liberdade do mercado e dos indivíduos, os neoconservadores almejam, retorno aos padrões de disciplina e as tradições. O terceiro grupo são os fundamentalistas que defendem a todo custo o retorno da “palavra de Deus” para as escolas. 

O que é verificável, é que a política tem sido utilizada por grupos hegemônicos, e a educação está submetida a um forte controle para estabelecer e sustentar relações de poder, sobretudo garantir os interesses dominantes. Fazendo relação com a complexa situação, é notável que a pandemia seja utilizada como oportunidade politica para acelerar tudo isso que o autor nos aponta, dado até mesmo o grande interesse do grupo Kroton Educacional que a modalidade de ensino Ead expanda-se no país. Nada mais oportuno para a classe dominante no momento em que um discurso centrado no “inovar”, “reviventar” a educação, e direcionar a migração para as plataformas digitais, justificando os cuidados e a preocupação com a saúde. 

Chamo atenção para o Sistema Único de Saúde (SUS) tão sucateado, que se houvesse real preocupação com a saúde não estaria como está. Sim, o SUS está sendo fundamental no combate a Covid-19, mas a Universidade também, e, portanto temos que defende-la, e que seja uma educação de qualidade, pois não se faz ciência com improviso, e o Ead na situação em que está em debate é uma verdadeira “gambiarra”. 

O ante-intelectualismo, a perseguição aos saberes científicos, se alimentará do ponto-fraco da educação para fortalecer rumo as trevas. Ead significa precarização do trabalho do professor, (leia-se: exploração), significa a “uberização”, o esvaziamento dos debates, a perda na rigidez do método cientifico, o subemprego, o fim do concurso publico, o fim da profissão do professor, e o surgimento do “educador empreendedor” que se colocará no mercado competitivo com aulas show, criativas, espetacularizadas para garantir o seu lugar no mercado com seu CNPJ, sem direitos, mas com obrigações e sem aposentadoria “conec-atados”, conectados pela tecnologia e atados e silenciados pelas perseguições que já se iniciaram. 

O fortalecimento da Universidade pública atravessa estas políticas publicas educacionais, e, mais do que nunca são importantes para a formação de uma população honesta com pensamento critico e ético que possibilite um mundo melhor para as gerações futuras e nas palavras finais de lembrando do saudoso Aldir Blanc “O Brasil tá matando o Brasil, O Brasil S.O.S ao Brasil”. Então digo: educadores, uni-vos pela defesa de um projeto civilizatório!!! Ou bye bye Brasil.

APPLE, Michael W. Educando à direita: mercados, padrões, Deus e desigualdade. São Paulo. Cortez; Instituto Paulo Freire, 2003.

Gabriel Rocha Freitas* cursa Licenciatura em Pedagogia na Universidade Federal de Goiás -UFG

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