Estevão F. Santos

Especial para o Jornal Opção

A vertigem disparada pela implantação das metrópoles no interior do Brasil – até hoje verberante, como rascante eco em nossas cabeças aturdidas – derrogou por completo um modo de vida e de organização social especialíssimo das plagas mediterrâneas – as vizinhanças ou agregados. Tendo sido esparsamente referidas na literatura regionalista produzida em Goiás ao longo do último século, e tão marcadas na historiografia, consistiam as vizinhanças em associações de uma meia dúzia de núcleos familiares em torno de um local comum, quer por suas particularidades físicas, quer pelos limites das glebas.

Nessas comunidades – segundo esmiuçara em suas passagens memorialistas, com grande talento explicativo entre seus pares, o escritor Carmo Bernardes –, cada família impunha as normas próprias de suas origens, estando os núcleos subordinados, todavia, à ventura e ao bem-estar coletivo. Carmo revelou, entanto, que o impulsivo processo de ocupação dessas terras por opulenta leva de imigrantes, a partir da metade do século XX, somada à chegada de Goiânia e Brasília, levaria à completa extinção desse sistema de organização de famílias e núcleos em domicílios, sendo substituído por uma ocupação disparatada e irracional das terras, mirando explorá-las até a exaustão.

Ruínas da Vila de Alfredo Arena | Foto: Estevão F. Santos

Decorridas muitas gerações, órfãs de si mesmas, começaram algumas almas a lançar olhares para muito do que naqueles idos se perdera, incluindo-se os sistemas de moradia em comunidade – e, antes de tudo, em conformidade com o meio: Gaia, que tanto nos provê e provoca. Daí que passam a despontar, timidamente, em alguns pontos do país, variadas categorias de assentamentos humanos, recolhidos ao ventre dos vegetais, com propostas de interações mais harmônicas e rudimentares com o ambiente que as pariu e confinou. Paulo Bertran, quando do ontológico batismo de nossa identidade de Cerratenses, já conhecia-nos a índole meio inclinada a Édipo e Sísifo: amamos e matamos àquela que nos gestou, e a ela estamos perpetuamente fadados a tentar voltar.

De posse da inacessível dimensão dessas palavras, que por acaso se querem grafar nestes escritos, gosto de voltar meus olhos ao distante clarão das páginas dos livros e jornais em pilhas que, através do estrondado tempo, vêm nos contar sobre as coisas do ontem. E cá, do desabrido parapeito deste vermelho chalé, infalível meu exílio e domicílio nas Lavrinhas, gosto de rever os tantos assentamentos humanos que por essas terras já não se pensaram, implantaram e passaram. E, como se não existissem, desapareceram: mas não inocentados.

Rio das Almas | Foto: Estevão F. Santos

Há quase um século e meio desfazia-se em ruínas e chamas aqui, diante de minha estirada ossatura meditativa, o que já foi uma das mais sofisticadas ocupações humanas em território goiano: a Vila de Alfredo Arena, nas Minas do Abade, o mais recente desastre aurífero da região que, depois de anos lavrando desatinadamente os beirais do Rio das Almas e seus afluentes, foi destruída por intrépida insurreição da população de Pirenópolis, cujas águas, à jusante, achavam-se inteiramente turvadas pelos rejeitos das minas.

O tempo que se delonga de lá para cá, tão simultaneamente curto e vasto, me impele a visitar, periodicamente, o que sobrou das ambiciosas habitações do nefando francês, agora vedados e muros de pedras sobre pedras cobertas por folhas, vincos e trançados de lianas, sob cujas arestas os tortuosos troncos do cerrado agora já tornam a se impor. Coisas humanas recolhidas ao ventre dos vegetais, como é de nossa espontânea vocação. Ou da caótica vocação da entropia que, perenemente agindo em seu estado material, se apetece de esmaecer o que a ordem dos humanos dedos quisera instituir. E assujeitar-nos de volta ao lugar de meros passageiros do tempo, escrivães do epitáfio da terra.

A essas tantas lucubrações entregue, em horas de absorção e nudez, termino por me dar conta de que a esfinge ocultava-se imediatamente abaixo de meu rosto, embriagado de desvãos e corrosões. Ou melhor: no chão rebatido que alarga-se de quintal em quintal, daqui próximo; na rutilante tinta que capeia os muros de quatro casas; no ladrar dos cães, nas soturnas nuvens de chuva; no rumor abafado de um quase mar que é o Rio das Almas em janeiro, já tão cheio das chuvas, a contemplar-nos no silêncio de suas paragens líquidas e derivantes. Este Sítio, das Lavrinhas posseiro, em que me crio e reinvento, um século e meio se aparta dos desacertos do Arena, que, sendo mais uma alma da beira-rio, deve assistir-nos hoje a repetir sua febre aurífera, seu desejo de ocupação, seu humano assentamento. Mas não temos bateias: apenas papéis, girassóis, poemas.

Sem dar-me conta, faço parte eu mesmo do inconsciente desejo de vizinhança, de um agregado que se quer coletivo, nuclear, recolhido ao ventre das matas beiradeiras do das Almas. De um novo assentamento humano que, como a muitos outros perdidos nalguma memória remota, assiste ao passar das eras, e pelas eras será assistido. Mas, dessa vez, como interrompêssemos à desditosa sina dos que nos antecederam, nada queremos apunhalar das entranhas da Terra, não. Somos apenas diletos seguidores da vocação telúrica, de um tempo que não segue ponteiros e foge às capitais. Há muito que entregamos ao chão, em decidido furor, qualquer cronômetro que marcasse o inexistente.

Por acaso ou contrição, a Vila do Arena, que sobre nós ainda quer recair seus velhos desígnios, se tentava emancipar a todo custo das amarras administrativas da antiga Meia Ponte – Pirenópolis de ontem –, cunhando uma moeda de circulação própria e isolando-se, escudando-se completamente da presença de forasteiros. Em nada nosso organismo plural e coletivo se quer parecer com o arcaico pilar que o sustenta às gerações idas. Espaço, resta para todos, para os que quiserem entrar, criar, transfazer a matéria em borra. Eu mesmo, das claraboias em que me debruço, voltadas para desabotoados campos que confundem-se aos céus, me quero ser Escrivão do Tempo, Mestre D’Armas, Emendador de Águas, Conta-gotas de Chuva. Qualquer ouro mais importante restou para nós naquele dourado agreste que se desdobra e ao infinito tende, além do Abade e dos Pireneus, e bem abaixo de nossos pés, afagados por fractais e gramíneas.

Nada se limita ao ser. E ao não ser, eternamente responsável pelo encantamento que se exsuda das flores que ali se cultivam. Sítio, vila, vizinhança, agregado, nada disso se quer aqui, tão somente entrada. As saídas estão aí, para quem as souber encontrar. Estamos mais para Comuna. Comuna das Almas que o Rio lambe em segredos madrigais, quando evapora seu hálito glacial e invade-nos as dependências com seus eflúvios e assombros. Ou quando as bananeiras curvam-se à vontade dos ventos, e graciosamente bailam para os nadas. E os sempre instantes que espicham estradas; estradas que espicham linhas que vão sinuando chapadas e serras na barra do horizonte. Mares de tempos, mares de chapadas…

Hoje, posto que diante de um mundo absolutamente diverso, em suas pretensões e meneios, ainda insisto em deitar meus mareados olhos à fosca janela que se reclina sobre aquele passado tão dúbio e ocluso. Partículas aquosas me querem manchar os lábios com seu gosto amargo e provocante; provocante de destampar velhas tumbas e ceder ao oneroso interrogatório dos mortos, das amarelentas páginas da história. Mas nada que se me queira aturdir os pensamentos tem vez nestes lugares que me resguardam: ainda serei mais uma das Almas que vagueiam, de gota a gota, nas águas deste Rio que acaricia os nossos fundilhos. 

Estevão F. Santos é escritor e naturalista.