“Companhias de balé do mundo inteiro têm bailarinos brasileiros. O Brasil precisa valorizá-los”

Paulista, Ricardo Amarante veio a Goiânia após anos dedicados ao balé na Europa. Despediu-se, aqui, como bailarino e segue, agora, com a carreira de coreógrafo

RAW_4028 copy

 

“Meu Deus
Deixe-o comigo
Mais um pouco
Meu namorado

Um dia, dois dias, oito dias
Deixe-o comigo
Mais um pouco
Para mim”

Édith Piaf

Como começou sua história com a dança?
Comecei meus estudos em Pirassununga. Foi um trabalho intenso, de cinco anos. E, de repente, ganhei uma bolsa de estudos para me formar como bailarino, em Cuba. Isso aconteceu dos 16 para os 17 anos. Logo depois, voltei e fiquei um tempo estudando o método inglês de balé. Ganhei, depois, outra bolsa para terminar meus estudos na English National Ballet School de Londres.

Na Europa, fui contratado pela Ópera de Paris — minha primeira companhia profissional. Também participei do Jovem Ballet da França, que é uma companhia de jovens de vários cantos do mundo, por onde também fizemos turnê. Logo depois, fui para a Bélgica, onde entrei para o The Royal Ballet of Flanders, já há 16 anos. Em 2006, eu comecei a coreografar para a companhia — além de dançar como bailarino solista. De 2005 a 2010, nós viajamos para vários locais do mundo; e a apresentação no Brasil, em Goiânia, foi a minha última dança, afinal a coreografia tomou conta da minha vida.

Eu tenho pedido muito licença da companhia, para ir coreografar na Alemanha ou na Austrália; ficou inviável conciliar as duas carreiras. Estou me despedindo, então, como bailarino muito feliz, ainda assim; pois, já estou com 36 anos e fiz muitos trabalhos lindos. Poderia sim dançar ainda por mais um tempo, mas já quero investir no meu futuro só como coreógrafo.

No ano passado, eu coreografei no Cazaquistão, com uma companhia muito boa. É um lugar que não imaginamos, mas que tem bailarinos excelentes. Eles têm muitos meios para fazer espetáculos maravilhosos, pois recebem o apoio a cultura do governo. Tenho esse balé, que está em cartaz ainda por lá, e que foi convidado para ser dançado no Teatro Mariinsky, na Rússia — um dos teatros de balé mais importantes do mundo; lá foi a sede do balé Kirov. Para mim é uma honra enorme.

O Brasil tem vivido um difícil momento econômico; a arte e a cultura sofrem mais, infelizmente. Como vê essa situação?
É uma pena o que acontece no Brasil, pois residem aqui muitos bailarinos bons, muitas pessoas talentosas. Conheço várias companhias de balé pelo mundo e em todas elas têm um ou dois brasileiros dançando, fora do Brasil. Existe uma escassez de companhias muita grande, o que é uma pena. Recentemente, soube que o Teatro do Rio de Janeiro está paralisado por falta de atraso de salário; e isso, na verdade, é geral no Brasil e, até mesmo, no mundo — ainda que, logica e infelizmente, devido a atual situação, aqui está pior. Eu estava entrando em contato com a equipe do Teatro, a fim de começar um projeto de balé, mas infelizmente eles declinaram a proposta, pois não podem assumir nada “do jeito que está o Brasil”. Uma pena.
Estou há 16 anos na Royal Ballet e sempre surgiam boatos de virmos para cá, o que não acontecia — eles cancelavam. Nunca deu certo, até que aconteceu o meu último espetáculo no Festival Internacional de Goiás; pareceu até um sonho, afinal sempre tive vontade de voltar para o meu país e não dava certo — calhou, enfim. Foi inacreditável (risos). Mas é uma pena como vai a política, a cultura… Sem dúvidas.

Qual a diferença entre as carreiras de bailarino e de coreógrafo?
As duas profissões requerem muitas horas de trabalho. Você precisa estar sempre no estúdio — o bailarino praticando, em busca da perfeição, e o coreógrafo a mesma coisa, criando e tentando tirar o melhor do bailarino. O coreógrafo tenta tirar de si uma forma nova de emocionar, de entreter e também busca propiciar algum crescimento técnico para os bailarinos. É uma troca de energia, de experiência entre ambos e o que mais vale para mim é essa troca; troca esta que eu tive com vários coreógrafos. E eu vejo muitos bailarinos mais novos que têm descoberto um novo jeito de se movimentar, de se expressar.

O que é a arte da dança para você?
Para mim, é tudo. Estou sempre criando algo na minha cabeça — talvez, por ser do signo de peixes (risos). Eu adoeço quando paro de dançar ou de produzir. Eu tento passar com a minha dança muita emoção, muita experiência de vida. Gosto de fazer coisas com que as pessoas se emocionem, divirtam-se. A vida já é dura, cheia de inúmeros problemas. O teatro, o balé é capaz de emocionar, de fazê-lo chorar e rir, ele lhe mostra atletismos, musicalidades. Para mim, é uma das modalidades mais completas da arte — sem contar que você pode trabalhar com pintores, cenógrafos, figurinistas, iluminadores, músicos e muitos outros profissionais da arte. E mais: você pode contar histórias, você pode ser abstrato. É livre.

Para Goiânia, trouxe ainda três balés meus. Eles são mais neoclássicos e voltados para emoção, para o sensualismo, para o ritmo, em relação às peças do Royal Ballet. Sempre me dizem que gostariam de dançar o meu balé por toda sua expressividade e carga emotiva. Um deles, “A Fuego Lento”, é o primeiro balé que criei para a companhia. Eles deram aos bailarinos a oportunidade de cada um criar uma coreografia e eu tentei — foi quando começou a vontade de coreografar. Foi muito bem acolhida pela crítica, pelo público.

Outro é o “Love Fear Loss”; composto de três “Pas de Deux”, a peça tem como inspiração o filme “La Môme” (“Piaf — Um Hino ao Amor”, em português), que é de 2007 e que conta a vida de Édith Piaf. O filme fala, na verdade, da vida de todos nós. Pois, ela sempre cantou o amor; quando jovem, enaltecendo-o, ou já adulta, cantando as brigas com o marido (“Ne me quitte pas”, por exemplo), e ainda da perda desse amor, por isso “Love Fear Loss”. Piaf cantou “Mon Dieu”, quando perdeu seu amor, devido uma queda de avião. Quem me dera um minuto a mais com você, canta ela. É sobre isso que acontece com todos — comigo, ao menos (risos). Cantamos e dançamos o amor, o medo da separação, da perda de alguém. Esse balé fez muito sucesso pelo mundo.

O último, também um “Pas de Deux”, foi um dos últimos que criei — e, em especial, para Jonathan David e Maria Seletskaja, que são dois bailarinos da companhia. A coreografia faz uma homenagem a música do Vladimir Chertkov, “Experiencing The Divine” –— olha isso, “experimentando o divino”. Ele é considerado um dos maiores compositores para balé; criou vários. Os bailarinos, então, experimentam o divino de Chertkov.

E, daqui para frente, tenho a oportunidade de criar muito mais. No Cazaquistão, inclusive, criei uma peça com música brasileira; uma composição clássica de Hekel Tavares, um músico da época de Villa-Lobos. Uma música impressionante de tão linda e que será dançada no Teatro de Mariinsky; chama-se “Concerto para Piano e Orquestra em Formas Brasileiras”. Já o balé se chama “Gaia” e é tem como base a teoria da mãe-terra. Ele traz os cinco elementos da natureza (éter, ar, fogo, água e terra), que mantêm o equilíbrio do mundo. No próximo ano, na próxima edição do Festival, quero muito trazê-lo para cá, para Goiânia.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.