Claudio Magris e o resgate dos derrotados

Em “Às Cegas”, o incomparável ensaísta recorre à ficção e narra, assim, a utopia desastrada do coveiro de um mundo morto

Autor de diversas obras, Claudio Magris foi ainda senador, professor catedrático, filólogo e tradutor para o italiano de Ibsen, Kleist e Schnitzler | Foto: Matej Druznik/DELO

Autor de diversas obras, Claudio Magris foi ainda senador, professor catedrático, filólogo e tradutor para o italiano de Ibsen, Kleist e Schnitzler | Foto: Matej Druznik/DELO

Adelto Gonçalves*
Especial para o Jornal Opção

Desde a Antiguidade até os nossos dias, a História só preserva, comumente, os nomes dos “grandes”. Embora esta postura tenha passado por certo revisionismo, desde que Lucien Febvre (1878-1956), cofundador com Marc Bloch (1886-1944) da École des Annales, ao final dos anos 1920, defendeu a leitura microscópica e a particularização dos assuntos históricos. Resgatar a história dos derrotados sempre foi difícil, pois, raramente, eles deixaram relatos de suas vivências.

Esse é o grande problema com que se depara o pesquisador quando, por exemplo, procura escrever sobre o regime da escravidão no Brasil. Nos arquivos oficiais, só encontramos relatos dos escravocratas, geralmente fazendeiros, que tinham tido acesso à educação formal. Dos “humilhados e ofendidos”, nenhum relato, até porque não sabiam ler nem escrever.

Assim também se dá na reconstituição da história política contemporânea. De certo modo, é fácil reconstituir a história de um sindicalista que tenha ascendido na vida e chegado a ocupar cargos importantes num partido ou até mesmo no governo. Nunca faltam testemunhos daqueles que conviveram com ele na intimidade, a favor ou contra.

Já o “revolucionário” que prestou serviços a um partido clandestino e à causa operária, mas que nunca deixou os subterrâneos da História, deste dificilmente podemos conseguir relatos sobre a sua militância. Décadas depois, não só serão raros os testemunhos desse período — quase sempre marcado por assassinatos e “desaparecimentos” — como a memória dos sobreviventes acabará por vacilar e trair os fatos.

Nesse caso, a única saída é recorrer à ficção, que pode adquirir foro de grandeza se quem a desenvolver for um escritor da estirpe de Claudio Magris — não só o maior romancista italiano da atualidade como um ensaísta incomparável. É o que se pode constatar em “Às cegas” (Alla cieca), romance de 2005 publicado no Brasil em 2009 pela Companhia das Letras em tradução de Maurício Santana Dias.

Obra
Trata-se de um relato da vida de Sal­vatore Cippico. Nascido em 1910, o an­tigo militante do Partido Comunista italiano, também chamado Cipiko, aos 80 anos de idade, encontra-se internado em fase agônica numa grande clínica psiquiátrica de Trieste, cidade na fronteira com a Croácia — no início do século 20, Trieste abrigou aquele que é considerado o maior romancista de todos os tempos, o irlandês James Joy­ce (1882-1941); e foi onde nasceu e vi­veu o judeu Ettore Schmitz (1861-1928), mais conhecido como Italo Svevo.

O relato de Cippico é feito ao médico que o acompanha, doutor Ulcigrai, que o incentiva a colocar no papel as suas aventuras. Provavelmente em função do mal de Alzheimer que o acomete, Cippico já confunde realidade com ficção, ao se assumir como Jorgen Jorgensen, aventureiro dinamarquês que viveu no século 19 e foi a combate nas guerras napoleônicas.

Jorgensen foi ainda rei da Islândia por três semanas, fundou a capital da Tasmânia (Hobart Town), viveu como prisioneiro em Newgate e em Port Arthur e, dentre outros feitos, escreveu sermões e uma autobiografia — obviamente controversa, tal a aura fantástica que o cercava.
Sem saber bem quem é, confundindo o mundo vivido com o imaginado a partir de aventuras lidas ou ouvidas, Cippico é, na realidade, outro tipo de aventureiro, daqueles que embarcaram e naufragaram ao aderir a uma das utopias que empolgaram o século 20: o comunismo. A outra utopia — que não chegou ao poder — foi a anarquista e não a liberal, ao contrário do que se lê no texto de apresentação, na “orelha” do livro. Até porque o liberalismo não surgiu como ideia de um ou mais pensadores, mas como resultado da própria experiência humana, ainda que não faltem teóricos liberais.

Obviamente, o capitalismo defendido pela ideia liberal não é só virtude nem tampouco tem como objetivo o bem-estar da sociedade, mas está comprometido apenas com o lucro daqueles que detêm o capital. Mesmo assim, é ainda o melhor regime econômico — e talvez o único — já criado, ou ao menos aquele que apresenta mais virtudes que defeitos. E oferece oportunidades àqueles que sabem aproveitá-las. Cor­tar ou abrandar os seus de­feitos se­ria tarefa que caberia ao Estado, não fosse todo governo quase sempre um ajuntamento de corruptos.

Personagem
O relato de Cippico é a de um homem que viveu os mais conturbados episódios do século 20, combatendo na Guerra Civil espanhola (1936-1939), ao lado dos republicanos, que, como se sabe, eram influenciados pelo anarquismo catalão, e, depois, haveria de se engajar na resistência italiana ao fascismo de Benito Mussolini (1883-1945). Preso e torturado, ele seria deportado para o campo de concentração de Dachau, na Alemanha nazista, onde contraiu tuberculose óssea. Ao sobreviver, iria lutar pela construção do socialismo na Iugoslávia, do marechal Josip Broz Tito (1892-1980).

Em 1947, Cippico migrou para a Iugoslávia com mais dois mil monfalconeses — ou seja, trabalhadores dos estaleiros navais de Monfalcone, na Itália —, a pretexto de ajudar a construir o socialismo e trabalhar nas construções de Fiume, atual Rijeka, na Croácia. Mas, depois do rompimento de Tito com Josef Stalin (1878-1953), Cippico é preso e acusado pelos iugoslavos de membro do Cominform (birô comunista de informações que pretendia resgatar as ligações institucionais dos partidos comunistas do mundo inteiro). Seria deportado em 1949 para o gulag de Goli Otok, a ilha Nua ou Calva, no mar Adriático, onde acabaria submetido, como os demais, a trabalhos desumanos, sevícias e torturas.

Em outras palavras: depois de torturado pelos asseclas do nazismo, aquele que daria os melhores anos de sua vida pela causa socialista seria torturado exatamente por aqueles que diziam construir o socialismo na Terra. Ao lado dos companheiros, “que tinham decidido deixar tudo, casa, trabalho, pátria, para ir à Iugoslávia construir o socialismo”, Cippico seria acusado de espião de Stalin, de traidor da Iugoslávia, de inimigo do povo e, em seguida, torturado e deportado para uma ilha, perdendo por isso todas as esperanças que poderia ter na espécie humana.

Tateando no escuro, às cegas, num mundo que parece ter perdido o seu rumo, Cippico confunde-se com Jor­gen Jorgensen, ao rememorar sem pa­­rar: “(…) envelhecer, adoecer, ver morrer os amigos, acertar as contas com a infâmia, a vergonha e a traição que você traz dentro de si. E como se esse acúmulo não bastasse, ainda o amor? É uma guerra muito dura, entende-se perfeitamente que às vezes não resta nada senão desertar”.

Foto: Reprodução

Foto: Reprodução

Autor
Nascido em Trieste, em 1939, Claudio Magris foi professor catedrático de Língua e Literatura Alemã na universidade local, até se aposentar em 2006. Filólogo e tradutor para o italiano de Ibsen (1828-1906), Kleist (1777-1811) e Schnitzler (1862-1931), é também articulista do Corriere della Sera. Foi senador de 1994 a 1996. É autor de vários livros de ensaios e ficção, como “O mito habsbúrgico na literatura austríaca moderna” (1963), “Atrás das palavras” (1978), “Danúbio” (1996), “Microcosmos” (1997) e, dentre outros, “O senhor vai entender” (2006). No Brasil, a Companhia das Letras publicou também “Danúbio”, “Micro­cos­mos” e “O senhor vai entender”.

Nome frequentemente indicado nas listas para o Prêmio Nobel de Literatura, Magris, em 2013, foi contemplado em Portugal com o primeiro Prêmio Europeu Helena Vaz da Silva para a divulgação do Patrimônio Cultu­ral, instituído pela Europa Nostra, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Clube Português de Imprensa. Com “Microcosmos”, ganhou o Prêmio Strega de 1997, na Itália. Em 2009, na Feira do Livro de Frankfurt, recebeu o Prêmio da Paz dos editores alemães.

Vida imaginada
Para este resenhista, igualmente a caminho do ocaso de sua vida, as imagens do Adriático e de Trieste, de “Às Cegas”, são evocativas porque lembram uma tarde de agosto de 1982, ao pé do Castelo de San Giusto, a ler a edição do dia de Il Piccolo della Sera e a ouvir as transmissões da Rádio Tirana, da Albânia, em sua edição em português. Lembram ainda de como chegou à conclusão de que teria de recusar o convite de um emissário do Partido Comunista do Brasil para ir à terra de Enver Hoxa (1908-1985) recolher material para escrever um livro sobre aquele “paraíso” comunista que, em poucos anos, ruiria como um castelo de cartas. Olhando para a vida imaginada de Cippico, ainda bem que este resenhista não desperdiçou os melhores anos de sua vida com uma utopia desastrada nem virou coveiro de um mundo morto.

*Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de “Os vira-latas da madrugada” (Letra Selvagem, 2015), dentre outras obras.

 

Leia um trecho de “Às Cegas”, romance do escritor italiano Claudio Magris

Caro Cogoi, para dizer a verdade, mesmo se fui eu que escrevi, não estou certo de que alguém possa contar a vida de um homem melhor do que ele mesmo. Claro, aquela frase tem um ponto interrogativo; aliás, se me lembro bem — tantos anos se passaram, um século, o mundo aqui ao redor era jovem, uma alba úmida e verde, mas já era uma prisão —, a primeira coisa que escrevi foi justamente aquele ponto de interrogação, que arrasta tudo atrás de si. Quando o doutor Ross me incentivou a redigir aquelas páginas para o anuário, eu gostaria — e isso teria sido mais honesto — de ter lhe enviado muitas laudas com apenas um belo ponto de interrogação, mas não queria ser indelicado com ele, tão benevolente e gentil, ao contrário dos outros, e além disso não era o caso de contrariar alguém que podia tirá-lo de um bom cantinho como a redação do almanaque da colônia penal e mandá-lo para o inferno de Port Arthur, onde basta sentar no chão por um segundo, esgotado por aquelas pedras e a água fria, para cair na chibata.

Então pus diante daquele ponto interrogativo apenas a primeira frase, e não toda a minha vida, a minha, a sua, a de quem for. A vida — dizia Pistorius, nosso professor de gramática, acompanhando com gestos redondos e pacatos as citações latinas naquela sala atapetada de um vermelho que à tarde escurecia e se apagava, brasas da infância que ardiam no escuro — não é uma proposição ou uma asserção, mas uma interjeição, uma pontuação, uma conjunção, no máximo um advérbio. Seja como for, jamais uma das chamadas partes principais do discurso — “Tem certeza de que ele dizia assim mesmo?” — Ah… sim, doutor, pode ser, talvez não fosse ele que usasse esta última expressão, talvez fosse a professora Perich, depois Perini, em Fiume, porém mais tarde, bem mais tarde.

De resto, aquela pergunta inicial não pode ser levada a sério, porque já contém a resposta evidente, como as perguntas que são feitas aos fiéis num sermão, elevando o tom da voz. “Quem pode narrar a vida de um homem melhor do que ele mesmo?” Ninguém, é óbvio, parece espalhar-se o murmúrio das pessoas respondendo ao pregador. Se há uma coisa a que me habituei foi às perguntas retóricas, desde que passei a escrever, nas prisões de Newgate, os sermões para o reverendo Blunt, que me pagava meio xelim por cada um e enquanto isso jogava palitinho com os guardas, esperando que eu também fosse jogar, assim frequentemente recuperava aquele meio xelim — nada de estranho, eu também estava ali dentro porque tinha perdido tudo no jogo.

 

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.