QAnon ou simplesmente Q – a teoria da conspiração de extrema-direita – agora associa acontecimentos relacionados ao filme “Som da Liberdade” a forças atribuídas à esquerda. O longa-metragem é uma produção do modesto estúdio Angel e estreou no Brasil em mais de 800 cinemas na quarta-feira, 20.

O filme se apresenta com a justificativa de conscientizar o público sobre a pedofilia, o sequestro e a exploração infantil. O protagonista se mostra forte e ao mesmo tempo sensível com os casos que investiga.

Apesar da dramatização, “Som da Liberdade” tem doses de humor. O enredo é inspirado na Operação Underground Railroad (OUR), coordenada por Tim Ballard. Ele era um agente do Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos, que conseguiu desmantelar uma organização internacional de tráfico humano.

Jim Caviezel é o ator que interpreta o protagonista do filme. Ele ficou conhecido por seu papel como Jesus, na produção “A Paixão de Cristo”. Nesta nova empreitada, o seu personagem se une a um ex-integrante do Cartel de Medellín, que diz ter ouvido o chamado divino para resgatar (“comprar”) crianças vítimas dos traficantes e mantê-las em segurança, mas a sua ação seria secreta, “no escuro”. No diálogo, Ballard diz: “Nenhum dos filhos de Deus está à venda.”

Personalidades da extrema-direita

Donald Trump ao lado do ator Jim Caviezel durante exibição de “Sound of Freedom” | Foto: divulgação/Instagram
Donald Trump ao lado do ator Jim Caviezel durante exibição de “Sound of Freedom” | Foto: divulgação/Instagram

Apesar de uma história que atrai, o sucesso extraordinário do filme é associado ao apoio de figuras ligadas à extrema direita americana. Dentre eles, o ex-presidente Donald Trump e o ator Mel Gibson. No Brasil, a falsa teoria ganhou eco com a senadora bolsonarista Damares Alves. “O filme foi produzido em 2018 e foi uma batalha para que ele chegasse aos cinemas. Ele conta histórias reais. A quem interessa impedir a exibição de um filme como o ‘Som da Liberdade’?”, supõe.

O roteiro de “Som da Liberdade” foi elaborado a partir de 2015. Isso, com dois anos antes do surgimento do QAnon. As filmagens do longa-metragem tiveram segmentos em 2018. Com o lançamento adiado devido a mudanças na distribuição. É esse fator que é atribuído por suposto boicote de Hollywood. Após as estreias, os fãs alegaram que a maior rede de cinemas dos EUA, a AMC, exibiu o filme em salas sem ar-condicionado, mesmo no verão. A medida seria para forçar o público a abandonar as sessões.

O produtor do filme, Jeffrey Horman, rechaçou os boatos. “O que aconteceu é que havia várias salas da AMC fechadas desde a pandemia e que foram reabertas para exibir o filme. Em várias delas, os aparelhos de ar-condicionado não eram ligados há anos e acabavam quebrando quando eram reativados. É isso. Não há conspiração alguma. Na verdade, a AMC abraçou o filme”, enfatizou, quando visitou o Brasil.

Tim Ballard é suspeito de abuso sexual

Mórmom e pai de nove filhos, Tim Ballard, que expira o filme, é suspeito de práticas questionadas nas missões à frente da OUR. Ao menos sete mulheres o acusaram de assédio sexual. Em algumas ocasiões, ele teria coagido elas a compartilhar a cama ou tomar banho junto com ele. Outro episódio relatado seria o envio de uma foto dele de cueca a uma das vítimas, com a mensagem se ela estaria com interesse de resgatar crianças vítimas do tráfico sexual.

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