Cinema de protesto: Judas e o Messias Negro é lançado com boas chances no Oscar

Primeiro filme de grande porte de Shaka King, o longa-metragem emplacou seis indicações ao Oscar 2021, entre eles, o de Melhor Filme e Melhor Roteiro

Cena de Judas e o Messias Negro | Foto: Reprodução

Judas e o Messias Negro é o primeiro grande longa-metragem de Shaka King, jovem diretor nova-iorquino que mal chegou e já conquistou seis indicações ao Oscar. Lançamento de 2021, o filme estava em cartaz nos poucos cinemas abertos do país. Com o crescimento da pandemia, resta esperar que ele chegue nas plataformas de streaming.

O longa biográfico, histórico e dramático com ares de thriller conta duas novas celebridades do cinema hollywoodiano, que são Daniel Kaluuya e LaKeith Stanfield. Os dois atores representam, respectivamente, o Messias e o Judas da história.

Mas calma lá, não é um filme religioso!

Essa produção vem para contar a história real de Fred Hampton, o líder do partido Panteras Negras em Illinois. Aliás, o protagonista, na realidade, é o vilão e não o mocinho. LaKeith interpreta William O’Neal, um informante do FBI que infiltra no partido para entregar Hampton e outras lideranças ao governo norte-americano.

Partido Panteras Negras no filme Judas e o Messias Negro | Foto: Reprodução

A história começa e termina, na realidade com o espectador acompanhando a trajetória do Judas da história, o Bill O’Neal. A gente acompanha a empreitada dele primeiro como um assaltante disfarçado de agente, que utiliza um distintivo falso para roubar carros, depois como um traíra sangue frio.

E como bem colocado pelo jornalista A.O. Scott para o New York Times, a alma, o senso de consciência, seu posicionamento político e sua vida pessoal são mantidos fora do nosso alcance. A gente não sabe muito sobre esse personagem. O filme não tenta revelar o homem por trás do disfarce. Esse personagem contraditório se mantém até o fim como um mistério insolúvel.

Lakeith Stanfield interpreta Bill O’Neal, um infiltrado do FBI nos Panteras Negras | Foto: Reprodução

Vale ressaltar que Hampton tinha 21 anos à época e O’Neal tinha apenas 17. Ou seja, é uma história real, sobre pessoas que fizeram coisas muito significativas e que eram mais jovens do que a maioria das pessoas que estão lendo esse texto agora.

O roteiro é de Shaka King com Will Berson. Para um primeiro grande trabalho, a realização foi de fato muito primorosa. Um filme muito maduro e bem acabado. Cotado para o Oscar nas categorias de Melhor Filme, Canção Original, Fotografia, Roteiro e duas indicações de Melhor Ator Coadjuvante para Lakeith e Kaluuya, as chances do segundo levar a estatueta são muito altas.

A atuação de Daniel Kaluuya como Hampton é extremamente sensível e convincente. Dono de uma oratória extremamente cativante, inflamada e capaz de unir inimigos (daí essa referência a Jesus). Um verdadeiro revolucionário das palavras, um líder nato.

Mas não apenas uma figura histórica e revolucionária para o movimento negro, para o chefe do FBI, o também histórico e revolucionário Edgar J. Hoover (interpretado pelo Martin Sheen), Hampton é uma figura quase que demoníaca. Um líder violento capaz de lobotomizar pessoas e transforma-las em seguidores igualmente agressivos e que representam uma ameaça para o governo norte-americano. Para o FBI, Hampton é tão nocivo e extremista quanto a Klu Klux Klan.

O’Neal se infiltra como chefe da segurança de Hampton, amigo e aliado, que além de repassar informações do grupo ao FBI, entrega o layout do apartamento onde mora essa liderança de Illinois.

Além de uma biografia, o filme também tem cenas de violência, tensão e mistério, dando ares de suspense criminal, ao mesmo tempo que um drama, com uma bela fotografia escura e contrastada que reforça todas essas características.

O filme se une a um conjunto de obras muito bem feitas que despontaram desde 2020, após os protestos de Black Lives Matter, sobre a morte de George Floyd por um policial truculento e racista.

A onda de manifestações não ficou apenas nas ruas e ganhou a cultura popular, especialmente por meio do cinema de protesto. E que jeito é o mais eficaz de se transformar uma sociedade, senão por meio da cultura?

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