Cineasta João Batista de Andrade: “A literatura é a loucura que pode salvar o mundo”

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Nascido em Ituiutaba, em Minas Gerais, João Batista de Andrade se tornou nome conhecido nacionalmente como cineasta por filmes como “Doramundo” e “Vlado, 30 anos depois”

Com mais de 40 obras em sua filmografia, Andrade nunca deixou de manter estreita ligação com a literatura. O livro “Poeira e escuridão” acaba de chegar às prateleiras

Adelto Gonçalves
Especial para o Jornal Opção

“Poeira e escuridão” dá nome ao livro de contos do escritor João Batista de Andrade, também jornalista e professor, que a Associação Cultural LetraSelvagem, de Taubaté, em São Paulo, acaba de colocar no mercado. São onze contos escritos em linguagem cinematográfica, com narrativas que espocam como flashes e se superpõem até completar um quadro inteiro. E não poderia ser diferente, não fosse o seu autor um dos cineastas mais importantes do Brasil ainda em atividade.

Como diz o poeta, crítico e jornalista Luís Avelima — e também tradutor de, entre outras obras, “Gente Pobre” (LetraSelvagem, 2011), de Fiodor Dostoievski (1821-1881), antigo editor do jornal Voz da Unidade, do Partido Comunista Brasileiro (PCB), e ex-locutor da Rádio Central de Moscou —, no texto de apresentação do livro, os contos constituem “onze retratos que se costuram entre o telúrico e a dureza urbana, a revelar o dia que escorre em poesia de amor e dor, de lembrança, cenas do agora, que logo se tornam cacos na massa infame que nos cerca e que logo adiante se recosturam e ganham forma”. Para ele, Andrade se firma a cada livro e mostra nessa última obra que “a literatura é a loucura que pode salvar o mundo”.

Já o crítico Ademir Demarchi, doutor em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), poeta e editor da revista cultural Babel, no prefácio que escreveu para o livro, prefere analisar, detidamente, os onze contos, sem deixar de apontar a sua relação com o cinema. E mostra para o leitor menos atento alguns detalhes como aquele que percebeu no conto “Ética pelas metades”: um carrinho de bebê põe à vista do leitor (espectador) uma famosa cena do clássico filme “O Encouraçado Potemkin” (1925), do russo Serguei Eisenstein (1898-1948), obra que é considerada, ao lado de “Cidadão Kane”, do norte-americano Orson Welles (1915-1985), uma das mais importantes na história do cinema.

Narrativas

Um dos contos mais bem urdidos desta coletânea — ainda que todos sejam relatos bem construídos, mesmo aqueles de página e meia — é “Morangos silvestres”, que encerra o livro. A narrativa é centrada em dois personagens, um mais velho, comunista sobrevivente de um massacre feito por esbirros da ditadura contra o seu grupo, e um jovem aspirante a revolucionário, cooptado pelo mais experiente, mas que, fora de lugar, parece ter chegado tarde ao mundo.

O diálogo ocorre exatamente num momento tenso em que ambos caminham por algumas ruas com o objetivo de cometer um atentado contra o presidente de uma republiqueta latino-americana, provavelmente um antigo pelego que, criado e amadurecido no ambiente dos sindicatos de trabalhadores, soubera como usar a linguagem populista de esquerda para encantar a população e perpetuar-se no poder eleição após eleição, traindo os ideais dos grupos esquerdistas que o ajudaram no início da caminhada. Eis um trecho do diálogo:

— Há um homem próximo de se eternizar no poder, ele saiu de nós, de nossa história, era a promessa de nossa vida, de nossa juventude, a esperança de que tudo voltasse a ser como antes, que a história não morresse, que o ar fosse de novo respirável. E ele nos traiu.

— Ele é apenas um homem — murmurou Ramírez.

— Quando chegam lá, eles deixam de ser “apenas um homem”.

É também numa republiqueta de pastelão, em que a cena política funciona sempre como farsa, que se passa o conto “O gato Guevara”, que faz lembrar “O outono do patriarca” (1975), de Gabriel García Márquez (1927-2014), “Tirano Banderas” (1926), de Ramón María del Valle-Inclán (1886-1936), e outros romances sobre a decadência de ditadores latino-americanos. Um general paspalhão, sem nunca ter chegado ao ápice da carreira, que seria a presidência da uma república bananeira, convive a contragosto com a abertura política que invade até mesmo a sua casa, com a presença de um cunhado “cabeludo, de brincos na orelha, irresponsável e transviado”, e até mesmo um gato que carrega nome de guerrilheiro, tudo em favor do bom convívio com a fogosa esposa Leonora.

No conto “No tempo do cinema”, Andrade deixa mais uma vez explícito o seu fascínio pela sétima arte e presta homenagem a Auguste Marie Louis Nicholas Lumière (1862-1954) e Louis Lumière (1864-1948), os irmãos Lumières, inventores do cinematógrafo, considerados os pais do cinema, filhos do industrial Antoine Lumière (1840-1911), dono da Usine Lumière, em Lyon, na França. O conto é composto por narrativas que igualmente se superpõem, enfocando a infância de meninas pobres, que se desdobram umas nas outras, como matrioscas russas, até dar numa jovem operária francesa que participa do primeiro filme dos Lumières.

Mais tarde, a jovem vem para o Brasil com o marido que iria negociar “filmadoras, projetores e até mesmo algumas pequenas latas circulares de rico conteúdo, filmes realizados pelos próprios Lumières que tanto sucesso faziam por toda parte”. Sem, contudo, esquecer o olhar do patrão Louis Lumière, por quem sonhava ser seduzida, paixão tão imorredoura que a levaria a dar o seu nome ao primeiro filho, ao primeiro neto e ao primeiro bisneto também.

Autor

Globo

Nascido em Ituiutaba, em Minas Gerais, João Batista de Andrade, militante do PCB na época mais dura da repressão promovida pela ditadura civil-militar (1964-1985), tornou-se nome conhecido nacionalmente como cineasta, depois da realização de filmes como “Doramundo”, vencedor do Festival de Gramado-RS, em 1978, inspirado no romance do jornalista Geraldo Ferraz (1905-1979), publicado em 1956; “O homem que virou suco”, Medalha de Ouro de Melhor Filme no Festival de Moscou, em 1981; “O tronco”, Prêmio de Melhor Filme pela Comissão das Comemorações dos 500 Anos do Brasil no Festival de Brasília, em 1999; e “Vlado, 30 anos depois”, de 2005, que reconstitui a trajetória do jornalista Vladimir Herzog (1937-1975), assassinado nos porões de uma unidade do Exército.

Com mais de 40 obras em sua filmografia, Andrade nunca deixou de manter estreita ligação com a literatura, tendo transportado para as telas, além de “Doramundo” e “O tronco”, de Bernardo Élis (1915-1997), outras obras literárias como “Veias e vinhos”, de Miguel Jorge (1933) e, seu 17º longa-metragem, “Vila dos confins”, de 2011, baseado em romance de Mário Palmério (1916-1996).

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Com prefácio de Ademir Demarchi e apresentação de Luís Avelima, o livro lançado pela editora paulista LetraSelvagem, reúne onze contos escritos em linguagem cinematográfica

Em 1983, dirigiu “A próxima vítima”, um de seus melhores filmes, que causou forte impressão ao desmistificar violentamente a ilusão da abertura democrática, ainda à época em que o regime civil-militar já permitira o retorno dos exilados e baixara lei de anistia para os perseguidos e seus perseguidores. Em 1987, ganhou quase todos os prêmios do Festival de Brasília, com o polêmico “O país dos tenentes”, com temática também ligada ao fim do regime ditatorial.

Em 2010, foi o grande homenageado do Festival Latino-Americano de Cinema, em São Paulo. Foi secretário de Cultura do Estado de São Paulo de 2005 a 2007, quando criou a Lei da Cultura (Proac), com editais e incentivos para a produção cultural. Em 2012, foi nomeado presidente da Fundação Memorial da América Latina, cargo que ainda ocupa.

A par de sua carreira como cineasta, publicou mais sete livros de ficção, incluindo quatro romances: “A terra do Deus dará” (1980), romance infanto-juvenil; “Perdido no meio da rua”, escrito em 1964 e publicado 20 anos depois (Editora Global, 2ª ed., 1989); “Um olé em Deus”, publicado em 1989 e republicado pela Editora Scipione em 1997; “O portal dos sonhos” (Ufscar Editora, 2001); “Sozitos, a lenda da terra ronca” (Editora Lazuli, 2013), romance infanto-juvenil; “Confinados: memórias de um tempo sem saída” (Editora Prumo, 2013) e “A terra será azul” (Editora Lazuli, 2014).

Foi professor na Escola de Comunicação e Artes (ECA) da USP, onde, em 1999, defendeu a tese de doutorado “O povo fala — um cineasta na área de jornalismo da TV brasileira”, aprovada pela banca com distinção e louvor e publicada em 2002 pela Editora Senac, de São Paulo. A jornalista Maria do Rosário Caetano dedicou-lhe o estudo “João Batista de Andrade — alguma solidão e muitas histórias”, publicado pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, em 2010.

Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de “Os vira-latas da madrugada” (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981; Taubaté, Letra Selvagem, 2015), dentre outros.

 

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