Cinco fábulas politicamente incorretas

A onça levou a vaca até um banquete onde essa onça havia conseguido pegar uma paca, um cavalo e um bezerro. Mas aí um enorme tronco caiu bem em cima da onça, deixando o banquete todo para um urubu (trecho da fábula “A Vaca e a Onça”)

Fabulista grego Esopo (620-564 a.C.) imaginado pelo pintor espanhol Diego Velázquez (1599-1660)

Leonardo Teixeira
Especial para o Jornal Opção

Fábula, como se sabe, é uma narrativa literária onde as personagens são animais (com características humanas, como a fala, os costumes etc). Com o passar do tempo esse conceito foi ampliado para objetos e seres inexistentes. Normalmente eram histórias (com ensinamento moral de caráter instrutivo) feitas para crianças (e adultos também). Dela veio a famosa expressão “moral da história”. De origem oriental, depois utilizada pelos gregos, foi difundida por Hesíodo, Arquíloco e principalmente o famoso Esopo. Sem a pretensão de contrariar aqueles que se seguiram a Esopo, como os irmãos Grimm, Hans Christian Andersen e La Fontaine, apresento aqui as minhas próprias fábulas.

O bambu e a aroeira
Era uma vez, um bambu jovem que se curvava de modo havaiano, dançava ao bel prazer do vento. A façanha inspirou um poeta chinês – chapéu pontudo, tamanco de madeira, inventor de provérbios – que homenageou o bambu contorcionista num poema. Talvez um hai-cai. Uma enorme aroeira – com muita inveja – disse para o bambu ter fibra, rigidez e sustança para aguentar as adversidades da vida. Pois o bambu poderia ser arrancado do solo por um menino de olhos puxados, serviria como vara de pescar ou poderia ser utilizado para confecção de talheres (dois pauzinhos).

Eis que uma tempestade oriunda das monções asiáticas arrasou a região. A aroeira estalou e começou a se quebrar. O bambu, feliz da vida, dançava e se emborcava todo, desvencilhando-se do vendaval, orgulhoso pela sobrevivência. Mas a enorme aroeira, pesada e dura, esmagou o jovem bambu, enterrando-o.

Moral: até quando morrem os orgulhosos destroem os humildes.

Passada a terrível estação, a aroeira virou barco e dos brotos do bambu enterrado surgiram vários bambuzinhos chineses que dançariam com o vento.

Outra moral: a esperança alimenta a alma dos humildes.

Um menino chinês – chapéu pontudo, tamanco no pé, futuro inventor de provérbios – ao ver tantos ramos de bambu, arrancou todos para servir de ornamentação e brinquedo.
Última moral: a realidade às vezes faz da esperança uma vertente da ilusão.

O lobo-guará e a garça
Certa vez, o lobo-guará resolveu convidar a garça para um almoço em sua toca, com o intuito de promover a paz social do território, evitando a selvageria pela sobrevivência dos bichos herbívoros e carnívoros. A garça clamava trégua e ficava com tanta pena (nos dois sentidos).
Eis que o lobo serviu uma canja de pato silvestre num prato de porcelana. Irritada, a garça não poderia banquetear-se devido ao seu longo e pontiagudo bico. O lobo ainda disse que não utilizava nenhum recipiente mais fundo. “Os incomodados que se retirem!” A garça, com fome e com desejo de vingança, convidou o lobo-guará para um almoço no dia seguinte na beira do lago. O mingau de milho foi servido num vaso chinês de gargalo comprido, com o fito de deixar o lobo faminto, pois somente a garça tinha bico para se alimentar no fundo do vaso. O lobo, que não era burro, tinha acabado de ler Maquiavel para aprender a ser um bom príncipe, já que a cadeira do rei pertencia ao leão; também tinha degustado Dostoiévsk em Crime e Castigo.

O lobo quebrou o vaso e co­meu todo o mingau. A garça, espalhafatosa e histérica, de raiva sofreu um infarto fulminante. Apro­veitando o embalo, o lobo degustou a garça de sobremesa e nem precisou pagar consumição extra.

Moral: vingança é veneno suicida. Outra moral: punição e recompensa existem para quem os merece.

O gavião e os patinhos
Um gavião muito esbelto chegou todo solícito na beira da lagoa, elogiando a mãe pata pelos maravilhosos patinhos que aprenderam a nadar naquele instante. Todo risonho, o gavião contou histórias de seus irmãos quando aprenderam a voar pela primeira vez. Mas a mãe pata, que era uma macaca velha, picou a mula dali.

Moral da história: Quem conta muita prosa tem duvidos a querência. Quem ri muito tem diversa maldade. Alegria juntada num acúmulo sem preceito é tampo de tristeza ou intento de prejuízo!

O toco e a praça
Muitas cidades possuem praças acolhedoras. Deve haver algo místico nas praças! Há pessoas que frequentam mais seus bancos do que as cadeiras e tamboretes de suas casas, e dali percebem qualquer movimentação nova para acompanhar com os olhos. Havia um toco que passeava em volta das praças com o intuito de vigiar o movimento das outras pessoas e animais. O toco adorava fuxicar mexericos para outros. Não podia ver alguém fazendo coisas que crescia os olhos. Até que um dia, o toco foi atravessar a rua para ver o que um veado-campeiro aprontaria e acabou sendo atropelado por um carro. O toco se lascou!

Moral da história: Quem gosta de cuidar da vida dos outros acaba se lascando.

A vaca e a onça
Certa vez uma vaca ficou de sentinela, vigiando para que as onças não viessem comer alguns dos novos bezerros. Mas a vaca, já de noite, percebendo que estava tudo tranquilo, foi deixando o sono tomar conta de seus olhos. Se ela ficasse o tempo todo acordada, teria impedido que a onça chegasse tão perto, fazendo com que o gado saísse dali em disparada. Mas a onça ao perceber aquela soneca, chegou bem perto da vaca e pensou: “bem melhor uma vaca de muita carne do que uma novilha magra!”

A vaca percebeu que a onça estava muito perto e correu rapidamente. Entrou no meio do mato e a onça bem no seu encalço, cada vez mais perto. Aí a vaca foi para o brejo!

Moral da história: Na lida das obrigações, a vida escapa aos que dormem.

Logo adiante, a vaca se desvencilhou da correria e a onça ficou presa num banco de areia.

Outra moral: A sorte pode aparecer entre muitos momentos de azar.

Mas a vaca foi lenta ao atravessar o rio e outra onça acabou fazendo da vaca uma presa fácil.

Mais uma moral: Toda sorte é passageira!

A onça levou a vaca até um banquete onde essa onça havia conseguido pegar uma paca, um cavalo e um bezerro. Mas aí um enorme tronco caiu bem em cima da onça, deixando o banquete todo para um urubu.

Última moral: Quem muito quer acaba sendo tirado por Deus ou pelo acaso.

Leonardo Teixeira é escritor e escrivão de polícia.

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ADALBERTO DE QUEIROZ

Bravo! Gênero quase esquecido, aqui revisitado de forma criativa. Parabéns, Leonardo Teixeira.