Carta aberta aos jovens empresários

Nunca se viveu nada parecido com a Covid-19 e, durante a  vida produtiva dos meus pais, não houve nada  semelhante

Isabella Toiansk*
Especial para o Jornal Opção

Sou empresária. Tenho 26 anos, pertenço a um privilegiado grupo de jovens que teve a sorte de ter pais que investiram em seus projetos. Em três anos, venho construindo uma empresa ao lado do meu sócio, de 24 anos. Enfrentamos com muito trabalho várias crises no decorrer desse tempo, mas é muito claro para mim que, não fosse a oportunidade que tivemos e o investimento, não estaríamos onde estamos e provavelmente não conseguiríamos sair dessa crise como iremos. 

Esta não é a realidade da maioria dos “jovens empresários”. Este é um grupo composto principalmente por pessoas brancas, privilegiadas, entre seus 20 e 30 anos, que serão os próximos sucessores na frente de grandes empresas e grandes lideranças políticas, ou seja, os próximos a tomarem decisões pela sociedade. Me desculpem colegas, mas vocês me assustam!

Nunca se viveu nada parecido com a Covid-19 e, durante a  vida produtiva dos meus pais, não houve nada  semelhante. É compreensível que a geração passada tenha como reação inicial “não podemos parar”, afinal eles nunca pararam. Por 30 anos eles sempre estiveram produzindo; a produção vem antes da saúde e das relações afetivas porque, sem produzir não se sobrevive, e quando se associa alta produção a oportunidades e investimento, passa-se a lucrar. Este é o ponto em que finalmente se consegue viver, e é muito difícil, para um grupo acostumado a viver, pensar que terá que sobreviver como o resto da sociedade tem feito normalmente, mesmo em épocas pré-vírus. 

Durante o período em que estamos isolados – a quarentena sendo prorrogada por mais 15 dias – Belchior, como sempre, vem sendo minha trilha sonora. “Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”. O discurso está se repetindo sem mudança e me assusta ver colegas, jovens empresários, com a capacidade de transformar se posicionando da mesma forma, sem perceber que o fato de a economia ser tão frágil é um problema causado pela forma que herdamos do passado. 

Somente agora, com o parar do produzir obrigatório, tornam-se claras as realidades diárias do Mundo de milhões de trabalhadores: a desigualdade social, a diarista não pode parar porque se passaria fome. E, nesse, contexto alguns colegas se permitem em tatear uma esperança falaciosa de um sucesso “grandes empresários aproveitaram de crises como essa para prosperar”. Não é tempo de pensar no indivíduo, é tempo de pensar no coletivo. É engraçado notar que nenhum colega que pinta o desabamento da economia como um monstro maior do que o próprio vírus irá de fato passar fome nesses trinta dias de quarentena. Todos os meus colegas com este posicionamento têm a opção de ficar em casa, de reduzir custos, de cortar serviços sem se preocupar se seus servidores irão em 30 dias pagar as contas ou não. É assustador o fato de que quem vem perguntando “mas e a economia?” ser a parcela da população que não corre risco nenhum referente a sua alimentação e a sobrevivência básica. Quem corre esse risco, continua fazendo a pergunta que fez durante toda sua vida: “terei o que comer amanhã?”.

Frente a estes questionamentos, um colega compartilhou comigo a seguinte frase, atribuída a Churchill: “Alguns veem a empresa privada como um tigre feroz a ser abatido, outros como uma vaca a ser ordenhada, apenas uns poucos a enxergam como ela realmente é: um poderoso cavalo puxando uma pesada carreta.”  Quando li, compreendi onde está o alívio de consciência do empresário e o que é ensinado às gerações seguintes, o empresário se absolve de qualquer sentimento de culpa porque se coloca em primeiro lugar como responsável pelo sustento das famílias. Nós realmente somos isto, mas nos esquecemos que também somos responsáveis por permitir que pessoas atravessem toda suas vidas apenas sobrevivendo. Outra frase, de uma personagem da série nerd Jornadas nas Estrelas, exemplifica: Sobreviver é insuficiente. E somos nós quem tiramos a possibilidade de várias famílias viverem plenamente, somos nós que pagamos o mínimo possível por um trabalho que sem ele não teríamos lucro, somos nós que tiramos a possibilidade de igualdade para poder lucrar mais.

Meus colegas queridos, citando novamente Belchior, o responsável pela trilha sonora de minha vida e desse texto: “o passado é uma roupa que não nos serve mais”, nós precisamos mudar; temos a obrigação de agir diferentemente; temos o dever de, através das oportunidades que tivemos, fazer a diferença; observar que o nosso sistema econômico é frágil e precisa de mudança. Temos, sim, a chance de achar formas para prosperar coletivamente, diminuindo a desigualdade entre o trabalhador e o empregador, horizontalizando as hierarquias e permitindo que a sociedade como todo viva plenamente, assim seremos mais fortes nas lutas que virão.

Me desculpe se fui um pouco ríspida meus amigos mas, amar e mudar as coisas me interessa mais…

 

*Isabella Toiansk é formada em Engenharia Civil, mas trabalha como empresária, tendo uma firma na área de alimentação.

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