Edmar Monteiro Filho

“Silêncio é palavra de meu vocabulário. Tendo trabalhado a música, usei-a mais que os homens de outros ofícios. Sei como se pode especular com o silêncio; como se pode medi-lo e enquadrá-lo. Mas agora, sentado nesta pedra, vivo o silêncio; um silêncio vindo de tão longe, espesso de tantos silêncios, que nele a palavra cobraria um fragor de criação. Se eu dissesse algo, se eu falasse sozinho, como frequentemente faço, assustaria a mim mesmo.”

Penso num provérbio muito conhecido que diz: “A galinha do vizinho é sempre mais gorda”. A lição que contém parece suficientemente clara para prescindir de qualquer discussão. Entretanto, mais do que caracterizar a inveja, esse dito popular parece referir-se à eterna insatisfação que assola o ser humano, tornando-o escravo do desejo de ser e possuir aquilo que lhe é vedado.

O filósofo alemão Walter Benjamin (1892-1940) afirma que os provérbios são como ruínas de antigas narrativas e, como ruínas, estão reduzidos ao mais elementar delas: o conteúdo moral, o ensinamento, restos de sabedoria acumulada pelas gerações. Para chegar a essa ruína sintética, talvez uma longa narrativa que apresentasse o ser humano como criatura irremediavelmente invejosa ou insatisfeita tenha perdido seus adornos ao longo dos tempos, até se transformar numa árvore seca, um trecho de muro coberto pela hera, um retrato cru, exibindo sua essência para compreensão imediata.

O homem é um ser insatisfeito, afirma o provérbio. E o é, segundo mitos e religiões diversas, por culpa de um erro cometido em um passado distante. Segundo Mircea Eliade, historiador e filósofo romeno, nos tempos primordiais, logo após a criação do Cosmo, o homem convivia com as divindades, em um mundo de felicidade, paz, fartura. Apesar disso, acabou traindo a confiança dos seres sagrados, seja por buscar equiparar-se a eles, seja por desejar usurpar-lhes os poderes. Por conta do crime gravíssimo, a humanidade foi então condenada ao desterro, passando a viver uma existência marcada pela dificuldade e pelo sofrimento. Por isso, eternamente nostálgico de um passado idílico, o ser humano seguiria vagando pelo mundo à espera da redenção, quando então estaria autorizado a voltar ao convívio de seus deuses. Enquanto isso, buscaria reviver esses tempos felizes através dos mitos, verdadeira eclosão do sagrado no seio do mundo natural.

Alejo Carpentier: escritor cubano | Foto: Reprodução

O passado mítico da humanidade reveste-se de uma aura de fascínio. O homem, insatisfeito com as soluções de conforto e convivência que elaborou ao longo do tempo, parece acreditar que as culturas e os locais intocados pela civilização conservam-se superiores e desejáveis porque não conspurcados pelo pecado humano. Explicável, dessa forma, que navegantes europeus, quando dos primeiros contatos com as culturas das Américas, julgaram haver encontrado o paraíso terrestre.

Músico nas selvas da Venezuela

O personagem principal do romance “Os Passos Perdidos”, do cubano Alejo Carpentier, é um músico renomado que deixa a cidade grande e parte para as selvas da Venezuela. Seu objetivo é encontrar um conjunto de instrumentos musicais “primitivos” e trazê-los para compor o acervo de um museu. Se o objetivo inicial era cumprir sua missão e retornar ao mundo “civilizado” o mais depressa possível, ao se embrenhar na floresta o protagonista vai sendo progressivamente absorvido pelos encantos de um universo inusitado, cuja poderosa magia abre a percepção para as eras mais remotas da humanidade.

A fascinação cresce ao contato das paisagens intocadas, de homens e mulheres desenhados com traços brutos e simples, todos marcados ainda pelos sinais da criação e, portanto, pela proximidade divina. Os sentimentos que vão surgindo servem como alento possível para a angústia que aflige o personagem. A sedução se amplia quando assiste ao ritual mágico de uma tribo da floresta, durante o qual julga surpreender o instante em que nasce a música, numa das cenas mais impressionantes dessa impressionante narrativa. As paisagens da selva, os hábitos milenares que resistem à passagem dos tempos, as mudanças que se operam na consciência atormentada do músico-aventureiro: tudo é descrito numa linguagem quase barroca, que vai envolvendo o leitor numa atmosfera de sonho.

Carpentier parece afirmar que, entre os sinais indeléveis deixados pelo processo civilizatório, desponta a incapacidade de o homem reencontrar o caminho que conduz a uma compreensão primordial de sua própria alma, sua origem sagrada, sua magia. Ou talvez afirme que o castigo da humanidade não possui redenção e que as criaturas prediletas dos deuses devem permanecer mergulhadas na eterna insatisfação, mesmo quando confrontadas com o paraíso.

Edmar Monteiro Filho é crítico literário. É colaborador do Jornal Opção. E-mail:

[email protected]