Carlinhos, Felipe e tantos outros: o desaparecimento de crianças na literatura

Vencedor do Prêmio Sesc, Rafael Gallo mergulha na solidão de uma mãe que sofre em renunciar o luto da desaparição do filho

Gallo produz um narrar remansoso que, pouco a pouco, vai erguendo paredes que aprisionam o leitor num drama de dor e alijamento

Gallo produz um narrar remansoso que, pouco a pouco, vai erguendo paredes que aprisionam o leitor num drama de dor e alijamento

Sérgio Tavares
Especial para o Jornal Opção

A crônica policial brasileira tem a história de Car­linhos como um marco no caso de desaparecimento de crianças. Na noite de 2 de agosto de 1973, o menino Carlos Ramirez da Costa, de dez anos, assistia tevê com a mãe e os irmãos, quando as luzes da casa se apagaram. Ao religar o disjuntor, a família é surpreendida por um homem armado que rapta o menino. Um bilhete escrito à mão, com um pedido de resgate, é deixado, porém, apesar de a quantia ser entregue no local indicado, a transação não é consumada.

Assim dá-se início a uma investigação civil, no período mais assassínio da ditadura militar. Um labirinto de pistas, hipóteses e suspeitos variados, inclusive o próprio pai de Carlinhos, que, até os dias de hoje, conduz à mudez de um mistério insolúvel. Uma pergunta perseguida com obstinação por Maria da Conceição da Costa, a mãe, cujo amor nunca a esmoreceu na busca pelo filho, em usar de contatos e de novas tecnologias para revelar, num exame tardio de DNA, a parte que foi sequestrada de si. Nunca conseguiu. Há cinquenta anos, vive um ciclo que não se completa.

Ângela resolveu dar fim ao seu ciclo. Ela também teve um filho raptado. Felipe, então com cinco anos, desapareceu numa galeria, no interior de uma loja de brinquedos. Depois de trinta anos, Ângela sente que deve encerrar a procura pelo filho, renunciar o estado em suspensão sem nome. “Chama-se de órfão aquele que não tem pais. A condição dos pais e mães que perderam seus filhos, no entanto, nunca recebeu um nome”, formula a protagonista, nessas duas frases soberbas que dão início a “Rebentar”, primeiro romance de Rafael Gallo.

Em torno de Ângela, orbitam Otávio, o marido zeloso e complacente; Isabela, a afilhada criada como filha; Regina, a irmã intransigente e fosfórica; Suzana, a terapeuta e amiga; e Dora, fundadora do grupo Mães em Busca, entidade que auxilia na procura de crianças desaparecidas. Magnetizados pelo sumiço de Felipe, eles reagem de maneiras opostas frente à decisão da mãe. Ângela, de fato, vive em si um doloroso conflito. A cada passo que dá para fora desse cerco de tristeza e atonia, é detida como que por laços invisíveis que a prende à lembranças, ao quarto do filho mantido feito um altar, à incapacidade de lidar com a chance (mesmo que remota) de seu rebento ter se tornado um homem.

Ao contrário de Maria da Conceição da Costa, que achou dezenas de possíveis Carlinhos adultos ao longo dos anos, Ângela anseia por reencontrar, três décadas depois, o mesmo menino que perdeu na galeria. Nega-se a aceitar o rosto projeto através da técnica de envelhecimento digital. Para ela, “o único que poderia sê-lo é o garotinho (…) com os dentes faltando no sorriso e o cabelinho loiro caindo pela testa”. Refutar o tempo será o seu primeiro choque de realidade. Dar-se contar de que a cidade se reconfigurou, de que a casa, cuja fachada mantém intacta de modo que o menino, ao voltar, a reconheça facilmente, envelheceu, de que as aparências das pessoas não mais se compactuam com as feições do passado. A paralisia do curso maternal lhe cegou para as quedas cotidianas, o esboroamento ao redor, e, sobretudo, de si.

“Um filho desaparecido é um filho que morre todos os dias. Nem mesmo nas mitologias mais cruéis há tragédias equivalentes; essa dor nenhum deus teve de suportar. Cada noite que cai desaba sobre os pais com o peso renovado da notícia; você perdeu a sua criança e ela está em algum lugar nessa escuridão afora, desprotegida de seu lar. Essa mensagem silenciosa se impregna nas paredes da casa, nos vãos entre os azulejos, nos ponteiros dos relógios e nas páginas dos calendários, nos retratos da família, no chão que se pisa”.

O efeito água

Dias depois ao rapto de Felipe, Ângela encontrou refúgio num cais antigo, onde passa horas contemplando o mar. O movimento infindo das ondas se chocando contra as rochas, que lhe traz a sensação de suspensão do tempo. “O mar: a solidão espelhada” tem o papel de um elemento latente para diversas analogias, sendo a do escoamento o mais forte, do perder-se entre os dedos, de ser algo imenso, no entanto passível de desaparecer. O verbo “rebentar”, que intitula o livro, também fornece ligações multifárias durante o desenrolar da trama. Além de derivar para o substantivo “rebento”, ainda apresenta-se como o ocorrer de uma fissura (rebentar num choro) ou de uma passagem (a ampulheta do tempo rebentava). Complexa em significações, a tessitura é constituída de nuances facetadas e sutilezas imagéticas.

Gallo, que venceu o Prêmio Sesc com a coletânea de contos “Réveillon e outros dias”, produz uma escrita de envolvimento, um narrar remansoso que, pouco a pouco, vai erguendo paredes que aprisionam o leitor num drama de dor e alijamento. Dividido em meses, num período de quase um ano, o romance foca-se no movimento de expulsão da personagem. Um recorte de tempo monocromático, de um clima bacento e ressacado, tal um céu que “fecha-se opaco por um telhado de nuvens espessas”. Há um uso seguro da imprecisão, um desnorteio calculado.

Outro ponto pulsante é o cuidadoso trabalho de pesquisa que antecede o livro. É notável a preocupação do autor em se ambientar dos órgãos, das pessoas e dos métodos relacionados ao desaparecimento de crianças. A transposição dessas informações técnicas para a ficção ocorre de maneira fluída, sem criar pausas didáticas no corpo narrativo, e revela o caso real do qual se extraiu o ger­me do livro. Co­nhecendo-o, fica evidente o acerto de Gallo em não se comprometer em descrições exageradas, ainda que haja um trecho pesado en­vol­vendo o reconhecimento de um cadáver infantil.

A chegada e o adeus

Todo livro que parte de um desaparecimento carrega uma aura de suspense. Essa, no entanto, não é a motivação que embala “Rebentar”. Gallo se detém ao trabalho de composição. Dimensionar seus personagens por meio de aspectos subjetivos e torná-los, assim, demasiadamente humanos. Pouco se conhece das características físicas de Ângela, por exemplo, contudo é impossível se esquivar do peso de suas angústias, de suas inseguranças, de sua melancolia. Há um nó que se ata logo nas primeiras páginas e o leitor vai com ele até o parágrafo derradeiro. Um poder de atração recorrente nas narrativas em que o autor usa a ficção para dar conta de uma experiência pessoal. Neste caso, apenas invenção. Por isso, admirável.

Tal arroubo se manifesta com mais clareza, no momento em que Ângela recebe a notícia de que Isabela está grávida. Uma vida que tem início justamente quando ela decide dar um desfecho à história do filho, aceitar a sua morte. O que guinaria naturalmente para um conflito é utilizado como dispositivo para amplificar o mergulho reflexivo na perda feito um relógio que se paralisa, para se munir de lirismo e encontrar, em camadas tão profundas de escuridão, beleza.

“Agora percebe que uma despedida sempre atravessa, indivisível, o passado, o presente e o futuro daquilo que se vai, iniciando-se antes mesmo da ausência e encerrando-se muito depois de se já ter perdido aquilo a que se diz adeus, o adeus que já não pode mais alcançar o que se foi”.

Num tempo em que vem à tona a discussão ultrapassada se um autor é capaz de dar voz a uma personagem feminina, Gallo responde à altura com um livro cinzento e vigoroso.

Leia a seguir um trecho do primeiro romance de Rafael Gallo, “Rebentar”:

Chama-se de órfão aquele que não tem pais. A condição dos pais e mães que perderam seus filhos, no entanto, nunca recebeu um nome”, escreve Gallo em “Rebentar”, seu primeiro romance

Chama-se de órfão aquele que não tem pais. A condição dos pais e mães que perderam seus filhos, no entanto, nunca recebeu um nome”, escreve Gallo em “Rebentar”, seu primeiro romance

Ela respira lentamente, regida sem perceber pelas pulsações da maré. O ar gélido atravessa seus pulmões conforme a orla inala e exala a espuma das ondas. O inverno parecia já estar se recolhendo nos últimos dias, mas seu hálito frio se reerguera de forma inesperada. Ângela se contrai um pouco, cruzando contra o peito os braços desprotegidos e as mãos guardadas; pensa em como as estações do ano se tornaram apenas mais um dos desenredos na trama do tempo, desfeita desde o dia em que Felipe desapareceu, quando tinha cinco anos.

Foi naquela data que deu início ao hábito de vir a esse lugar, o antigo cais. Hoje será a última vez que o repete. Dentro dos trinta anos que separam os dois momentos, em praticamente todos os dias ela visitara esse refúgio particular, onde sentia uma espécie de suspensão do tempo. Nem mesmo ela poderia explicar isso, mas esse recanto sempre representou uma pausa segura, desde os primeiros instantes da procura. Após chamar pelo nome de Felipe por toda a cidade surda, Ângela chegou a esse ancoradouro e, diferentemente do que ocorrera em outros pontos, não sentira que cada minuto passado ali, sem encontrar seu menino, representava uma chance desperdiçada de tê-lo recuperado em algum outro lugar. Não sentiu que deveria sair dali imediatamente, tomando outra rota dentro desse labirinto da ausência do filho, cujas paredes começavam a se erguer do chão despedaçado. O que pesou sobre ela foi perceber o fim daquele lapso inicial: ali, onde a cidade acabava no mar, também encontrava fim a chance de que seu garoto estivesse a apenas um pequeno engano de distância e tudo pudesse ser resolvido de forma simples; que ele tivesse somente perdido o caminho entre os corredores da galeria, ou algo assim, e tentado voltar para casa sozinho, em desnorteios não decifrados pelos adultos. A ampulheta demoníaca a medir cada segundo das primeiras buscas fracassadas a partir dali cederia lugar a calendários contando dias, meses e anos — que ela ainda não sabia quantos seriam — tragados por esse vazio que se abrira.

Felipe não tinha sumido por conta própria, ficava mais claro. E foi enquanto a sombra de um raptor crescia no pensamento de Ângela, no dia do desaparecimento, que ela ouviu pela primeira vez sua voz interior reverberar contra si: ele desapareceu. Repetindo-se cada vez mais forte e mais rápido, em espirais que a afogavam: ele desapareceu, ele desapareceu, ele desapareceu…

Naquele instante, Ângela, depois de tanto correr contra o tempo, caiu sobre os joelhos e permaneceu paralisada, deixando-se pela primeira vez rebentar em choro pela perda do filho. Nesse cais abandonado. Na beira da plataforma interrompida, diante da qual se estendia o mar. Era um fim de tarde cinza e frio como o de agora — no inverno culminante do mês de julho —, e ela sentia sua pele arder trêmula sob a superfície, perpassada pelo hálito gélido da morte. Depois de trinta anos, ainda persistem essas vibrações em formigamentos ocasionais. A morte passara a inalar e exalar cada um dos dias de Ângela, em um movimento infindo. Felipe nunca foi encontrado. Não restou nenhum vestígio comprovado dele. Nas últimas três décadas, desde aquele instante em que ela soltara a mão dele na galeria até hoje, a solução de seu caso não tivera avanço algum. Apesar de todos os esforços, mãe e filho não deram nenhum passo rumo a uma reaproximação verdadeira.

À época do desaparecimento, esse cais já estava abandonado. Foram realizadas por esses arredores algumas buscas pelo garoto — por seu corpo sujeito a emergir das águas —, e ao fim dessas missões, que Ângela acompanhara de perto, ela sempre se detinha solitária no cais abandonado, quando todos já haviam se retirado de mais um dia de fracassos. Nesse recanto, cercado por montanhas que ocultavam a cidade e seus ruídos, ela encontrava seu retiro. Passara a postar-se ali todos os dias, restabelecendo a vocação do porto, que já não guardava mais nenhuma embarcação; apenas a mulher ancorava-se ali com sua solitude, tentando não ser levada pelas correntes do tempo.

Uma resposta para “Carlinhos, Felipe e tantos outros: o desaparecimento de crianças na literatura”

  1. Avatar Carlos disse:

    Prezados, boa tarde…

    Também escrevi um livro sobre pessoa desaparecida: precisamente Carlos Ramires da Costa, o menino do “Caso Carlinhos”.

    Veja detalhes aqui dessa linda campanha: http://www.bookstart.com.br/casocarlinhos

    Obrigado pela atenção,

    Carlos

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