Cantora Bruna Mendez: “Goiânia, de ‘Rock City’, passou a ter o ‘Selo Goiano de Qualidade’”

Com saldos positivos, ela conta um pouco de sua história, de Caetano e do que vem por aí

Na sexta-feira, 24, a cantora apresenta o último show do EP “Pra Ela”, ao lado da banda Carne Doce, no Sesc Centro | Foto: Divulgação

Na sexta-feira, 24, a cantora apresenta o último show do EP “Pra Ela”, ao lado da banda Carne Doce, no Sesc Centro | Foto: Divulgação

Põe mais açúcar e amor
Que hoje eu vou praí te ver
Põe a mesa pra lanchar
Que eu tô indo pra sua casa

Bruna Mendez

Yago Rodrigues Alvim

Não faz tanto tempo as­sim. Foi depois de “gran­de” que surgiu nela uma vontade de descobri sons, mexer em equipamentos, fazer as próprias gravações. Foi sem data marcada, em dia perdido de ano não tão amarelado assim, que se viu numa de querer compor, de querer cantar. A lembrança do gosto de ouvir, de escutar música, no entanto, é coisa antiga.

Não é de família de músicos e tampouco as tentativas da mãe fizeram com que as escolas de música fossem o lugar preferido da menina ainda pequena. Nada disso. Foi como qualquer um que escuta, sem sequer lembrar qual canção que escutou pela primeira vez. A música veio assim de mansinho, fez ninho e ficou. Foi assim pra ela, Bruna Mendez.

Recentemente, a cantora e compositora abriu o show do cantor Caetano Veloso no Festival Bananada. Na agenda, nada muito acertado. Apenas que, na próxima semana, apresenta o último show do EP “Pra Ela”, lançado em 2014, ao lado da banda Carne Doce –– o que também não quer dizer que vai ficar parada, como ela mesma diz.

De ensaios, já tem música muito boa registrada –– e olha que era só para eu ter uma ideia do que tem produzido. A maré que recorda o Rio está ali ainda, solar. Tem lugares novos, como “Pra Ela” já mostra. Os violões macios mesmo já haviam dado espaço às cordas de guitarra. E a batida, vez ou outra mais eletrônica, dá vontade de dançar, nem que seja devagarinho e a dois.

Com boas críticas, saldos positivos, Bruna Mendez conta um tico da sua história com a música. Conta de Caetano, da Goiânia Rock City, do que vem por aí. E sendo assim, põe mais açúcar e mais amor, que ela tá indo pra sua casa. E é pra ficar.

Um pouco mais de você, como é sua história de cantora e compositora?
Eu tive um contato normal com a música; aquela coisa só de ouvir. Lembro que gostava de ouvir as músicas e prestar atenção nos elementos. Minha mãe por duas vezes quis que eu aprendesse e me colocou em aula particular e depois no Veiga Valle (atual Basileu França), mas não tive paciência e não aprendi. Foi depois de “grande” que surgiu uma vontade de descobrir sons, compor e cantar, e foi só daí que as coisas começaram a andar, por volta de 2009.

Em suas canções, quando as escuto, sinto sempre como se estivesse no Rio de Janiero e olha que nunca estive lá. De onde vem essa afeição? É pela sua sonoridade, pelo MPB que você traz?
Essa afeição é meio inconsciente. Quando vou compor, só tento parecer o mais leve possível, talvez a junção disso com os acordezinhos (quase-sempre) meio bossa nova, tragam essa sensação.

O seu EP, “Pra ela” é uma dedicação. A quem? Como foi compô-lo, produzi-lo? Como foi esse processo de gravação e me conta quem fez aquele carinho de capa?
“Pra Ela” foi dedicado à dona Rosinha, minha vó. Ele foi praticamente uma saga, pois eu o produzi sozinha por 2 anos até conhecer o Goiaba (Eduardo Veiga, ex-integrante da banda Gloom). Depois, nós o produzimos por mais 1 ano até ser lançado. Durante esse processo tiveram músicas com três arranjos diferentes, músicas que não entraram e uma vontade enorme de desistir. Esse é o preço por produzir em casa. É difícil saber a hora de parar, mas no final deu certo.  Ele foi lançado em maio de 2014 e a capa foi feita pela incrível e goiana Camila Roriz, que hoje mora em Sampa.

Você está em estúdio, me parece até que com a capa do álbum divulgada. É isso mesmo? Tem muita cor, diferentemente da primeira capa, isso quer dizer que serão músicas mais solares? “Pra ela” já é mais vivo, quando me recordo da primeira música sua que escutei, “Sem você” que ganhou novos arranjos, depois de um tempo que a escutei, em um show no Goiânia Ouro lá para o ano de 2012.
Várias pessoas me perguntaram sobre isso, sobre um disco novo e capa. Na verdade não existe disco e a capa foi só uma brincadeira de Facebook em referência a capa do Naldo Benny, feita pelo Romero Britto. O show do dia 24, com o Carne Doce, será o último do EP “Pra Ela”. Não sei pra onde caminhar, mas não quer dizer que eu tenha parado. Tenho feito algumas coisas eletrônicas sozinha, tenho incomodado o Adriano Zago (Chimpanzés de Gaveta e Cherry Devil) e o Emanuel Mastrella com isso também. Mas não tenho pressa, pode ser que seja lançado em algum momento e com outro nome. E “Sem Você” foi uma dessas músicas que tiveram três arranjos.

Emendando uma pergunta noutra, como vêm as letras? Quais suas referências musicais? Em que onda sonora fica sintonizado seu fone de ouvido?
As letras são basicamente sobre o que eu vejo ou vivo. Não tenho essa preocupação de ter referências fortes. A principal intenção, nas músicas que faço, é de transparecer sinceridade e simplicidade. Procuro ouvir muita coisa. Ultimamente, tenho ouvido bastante Grimes, Flying Lotus, Badbadnotgood, o sensacional disco do Diogo Strauzs, “Spectrum Vol. 1”, e o disco novo do Rafael Castro, “Um Chopp e um Sundae”.

Você já caminhou um tanto, desde que tenho acompanhado seu trabalho. Tenho amigos loucos pelo seu trabalho e, agora, tem muito mais gente que tem admirado seu som não só aqui, mas pelo país afora. Como tem sido cativar esse publico aqui na cidade e fora? Afinal, somo conhecidos como Goiânia Rock City. Você faz rock? Como avalia esse espaço que a música que você faz tem por aqui? E fora, como está sendo essa repercussão?
O legal disso tudo é que, mesmo tendo divulgado pouco o EP (por motivos diversos), ele ainda conseguiu chegar longe. Tivemos uma linda crítica de um jornal português, rolou também um site espanhol e conhecemos (Goiaba, Tomé e eu) muita gente legal, além das críticas positivas dos jornais/sites daqui. Então só posso dizer que o EP deu certo. Ao longo desse tempo, o contato com as pessoas que gostaram do trabalho foi tão incrível que elas acabaram virando, de certa forma, amigas e nos juntamos pra além do som.

Goiânia deixou de ter só o selo de “Goiânia Rock City” e passou a ter o “Selo Goiano de Qualidade”, independente de estilo. Ninguém mais entra pra brincar no “rolê”, não temos mais espaço pra bandinhas de final de semana. E isso fora daqui não poderia repercutir de forma melhor. As pessoas já ficam atentas quando a gente fala que é um som feito em Goiânia, porque temos boas referências de gente legal; Boogarins, Hellbenders, Carne Doce, MQN, Cherry Devil e o próprio Rafael Stefanini que vem agora com grandes chances de ser só sucesso.

Caetano. O que você sentiu? Houve alguns problemas técnicos. Hoje, já com os nervos acalentados, qual foi o saldo do show no Bananada?
Quis não pensar que era Caetano pra não pirar, mas a parte mais incrível não foi nem o show (em que sim, houve problemas técnicos chatos); a parte mais incrível foi quando acabou o show e eu fui pro backstage e, quando olhei pra trás, dei de cara com Caetano sorrindo. Parecia que tinha uma luz em volta. Senti uma aura boa e até esqueci que o show não foi como o esperado.

Por fim, os novos passos, para onde é que querem ir?
Nada muito certo, mas tenho feito algumas coisas eletrônicas, tenho conhecido pessoas (queridas) e tenho tido calma. Não me prendo a essa coisa de MPB ou fórmulas. Nunca tive muita fórmula pra fazer as coisas na vida. Isso reflete bem nos meus processos (tortos) de composição e produção.

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