Calcildis! Livro da vidis de Mussum vale pela vidis de Renato Aragonis

Em  “Mussum Forévis: Samba, Mé e Trapalhões”, Mussum é retratado como um ingênuo. Seu alcoolismo é diminuído a uma questão semântica (“mé”). Seus casos extraconjugais, um pequeno detalhe que em nada parece alterar sua vida. Não é que o livro seja ruim, é um livro de fã 

Iúri Rincon Godinho
Especial para o Jornal Opção

Cultural_1885.qxd

Juliano Barreto, autor de “Mussum Forévis — Samba, Mé e Trapalhões”

Incensada pela Rede Globo (com direito a ampla reportagem no “Fantástico”), a recém-lançada biografia do músico e humorista Mussum (“Mussum Forévis: Samba, Mé e Trapalhões”, de Juliano Barreto”) a princípio assusta. O que esse cara fez de tão importante para render um patacão de mais de 400 páginas? Por mais dialético que pareça, a resposta é: nada de tão importante, a não ser estar no lugar e hora certa. O que não impediu que, anos depois de sua morte, ele ressuscitasse nas redes sociais com seus bordões e sua linguagem particular que coloca (e modifica) as palavras para um plural inexistente.

Mussum foi escolhido pelo destino. Nasceu condenado: negro, favelado, sem estudo. Entrou para o Exército, uma das únicas válvulas de escape social da primeira metade do século 20 no Brasil. Boêmio desde sempre, fundou os Originais do Samba, um filho torto do samba de raiz, que mistura a tradição popular com laivos popularescos. A música de maior sucesso do conjunto era sobre o assassinato de um camarão e as consequências do ato nos outros peixes, embora os Originais já assassinassem a língua portuguesa muito antes disso, quase sempre de propósito — o humor fazia parte da raiz do grupo.

O futuro Trapalhão nunca estudou música e nem coisa alguma. Tocava reco-reco. Tinha a seu favor um bom-humor inquebrantável, o gente boa da roda, o cara bacana que conversava com todo mundo com um sorriso no rosto. O bebedor que saia pela noite de bar em bar cantando com os amigos e conhecidos. De tanto fazer graça aceitou relutante um convite de Chico Anísio para ser um dos alunos da “Escolinha do Professor Raimundo”, pois receava a dificuldade que tinha em decorar textos.

Quando ele encontra Renato Aragão, o Didi, nos anos 1970, sua vida muda. Os Trapalhões foram o auge da carreira de Mussum. Estava na emissora que liderava sozinha a audiência, em um horário nobre (começo da noite dos domingos), rodava dois filmes por ano, que levavam mais de três milhões de pessoas às salas de exibição — alguns até hoje entre as maiores bilheterias do cinema nacional. Fazia shows por todo país.

Mesmo com sucesso e o dinheiro entrando, em 1983 Mussum, Zacarias e Dedé se separaram de Renato Aragão, abriram outra empresa e até conseguiram fazer um filme sem Didi. Os três dissidentes queriam mais visibilidade, mais participação e mais “granis”.

Indiscutivelmente, Renato Ara­gão era o cérebro, o coração e os músculos do grupo. Indiscu­tivelmente, Renato Aragão é de longe o personagem mais interessante no livro de Mussum. A grande biografia é a dele (e ainda não foi escrita). Sua empresa, a RA Produções, sonhava alto. Quase tudo que ganhava com a Globo e o cinema, reinvestia em novos projetos. Didi montou um estúdio monumental que poderia ter sido a Hollywood brasileira, no qual até Mick Jagger gravou. Seu esquema de distribuição dos filmes era tão ou mais eficiente do que qualquer concorrente internacional. Era dele a Granja Comary, onde hoje treina a Seleção Brasileira de futebol — usada como locação pelo Trapalhão.

Didi foi o responsável pela mina de ouro, que vinha da tv, do cinema, mas também de contratos de licenciamento de centenas de produtos, de revistas em quadrinhos, dos shows e até da exibição do grupo fora do Brasil. Quase naturalmente abocanhava metade do que o grupo faturava. Extrema­mente organizado e abusado, conseguia atrair todo mundo que im­portava (Pepsi e Coca-Cola brigavam por ele). Até Pelé filmou com Didi, numa ampla lista que têm ainda Xuxa e Angélica, para ficarmos apenas nas mais “formosis”.

cul7De outro lado, a DeMuZa, empresa montada por Dedé, Mussum e Zacarias vivia capengando e, para piorar, entrou em uma disputa inglória de ego com a RA Produções. Acabaram falidos, processados e quebrados. Quando contrataram uma auditoria, descobriram que estavam sendo roubados pelos funcionários, que havia notas fiscais duplicadas e assinaturas forjadas. De maneira infantil, denunciaram os empregados na imprensa, citando nomes. Como a Justiça do Trabalho no Brasil olha mais o lado do servidor e quase nunca o do patrão, pagaram indenização àqueles que os havia lesado. Os três se desfizeram de parte do patrimônio e, no final, foram salvos por um empréstimo da Rede Globo, devidamente descontados de seus salários. Juntos de Renato Aragão eram fortes. Separados, um desastre.
“Mussum Forévis: Samba, Mé e Trapalhões” é um livro de fã. Ele é retratado como quase um ingênuo, o artista que apoiou Paulo Maluf contra Tancredo Neves. Seu alcoolismo é diminuído a uma questão semântica (“mé”) e não um caso de saúde que ajudaria a matar o humorista. Seus casos extraconjugais, como o filho que teve com mais de 50 anos, é um detalhe que parece em nada alterar sua vida — Mussum assumiu o filho e ficou tudo bem.

Não é que o livro seja ruim, mas a divisão de Juliano Barreto entre contar a história de Mussum e dos Trapalhões deixa a história do grupo no meio do caminho. A parte mais emblemática é a da morte de Zacarias, o primeiro a ir para o andar do beleléu. Com sua peruca, voz fina e os trejeitos meio afeminados meio infantis, Zacarias não se parecia com o careca de fala grossa e sério da vida real. Vítima de uma depressão, emagreceu e não saia de casa, o que gerou comentários de que estaria com Aids. O autor se limita a contar a história de sua morte rápida e súbita, sem encontrar fontes que poderiam ou não confirmar os boatos e sem muitos detalhes. Da mesma forma, não se aprofunda sobre o longo processo de separação de Dedé e não toca na vida pessoal de Didi. Embora bem-escrito, fica tudo com jeito de biografia “autorizadis”.

Nem a vida de Mussum é esmiuçada fora de sua existência profissional. Pouco se fala em seus filhos e em sua mulher. O alcoolismo também parece não ter influenciado nem na vida frente as câmeras e nem na pessoal. Um monstro de disposição para o trabalho, não chegava atrasado e nem se cansava de uma rotina maluca e corrida. Quando adoeceu, subitamente, o corpo não conseguia mais reagir, efeito dos excessos na bebida — diz o autor que ele conseguia entornar toneladas industriais. Mas o livro também não deixa claro a importância do vício na sua morte.

Mussum hoje é mais lembrado pelos “pluralis louquis” que criou do que até pela sua carreira como músico e comediante. O motivo pelo qual o Trapalhão virou um fenômeno das redes sociais — em especial o Facebook — é outro daqueles mistérios que devem reunir filosofia, antropologia, sociologia, psicologia e todos os outros ias que se possa imaginar. Ou “todis os outris is que se podis imaginaris”.

Iúri Rincon Godinho, jornalista e publisher da Contato Comunicação.

2 respostas para “Calcildis! Livro da vidis de Mussum vale pela vidis de Renato Aragonis”

  1. Avatar Leandro disse:

    Só uma correção: Mussum foi da aeronáutica e não do exército.

  2. Avatar Maria José disse:

    Era um biografia do Mussum por isso ele limitou-se a falar da vida pessoal dos outros três Trapalhões

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.