Braudel admirava Freyre, mas o criticou por omitir o Brasil para além das casas e senzalas

O que Fernand Braudel esperava de Gilberto Freyre era uma ampliação dos horizontes da casa grande para além das senzalas, e dos sobrados para além dos mocambos

Gilberto Freyre, autor do clássico “Casa Grande & Senzala”, exerceu grande influência sobre o historiador francês Fernand Braudel — mas uma influência não isenta de críticas

Christiano Galvão
Especial para o Jornal Opção

Muitos anos antes de os historiadores culturais confessarem sua admiração pelo ‘sincretismo científico’ e a ‘hibridização metodológica’ praticados por Gilberto Freyre (co­mo faz Peter Burke, no ensaio “Gil­ber­to Freyre e a Nova História”), o historiador Fernand Braudel, autor de uma monumental história do Me­di­ter­râneo, e grão-mestre da segunda ge­ra­ção de reformadores da historio­gra­­fia francesa, já o tinha distinguido pela habilidade incomum de a­preender e entrelaçar as mais variadas temporalidades.

Em 1943, o futuro autor de “Civi­lização Material, Economia e Capita­lismo”, havia concluído a leitura do quinto livro de Freyre e estava ansioso para mostrar a seus colegas franceses como um antropólogo genial, sem o acanhamento típico dos historiadores, dominava os jogos de sincronia e diacronia, compondo análises que perseguiam o incoercível fluxo do tempo e, a seu talante, conseguia fixá-lo numa imagem estática.

Para tanto, Braudel publicou na revista “Mélanges d’histoire sociale” (n.4) um ensaio de quase 20 páginas, intitulado “A Travers un Continent d’Histoire: le Brésil et l’Œvre de Gilberto Freyre”, no qual convidava seus confrades a uma travessia intelectual cujo guia era dotado de uma perspicácia viva, atrevida, e, como um Proust dos trópicos, sabia justapor lembranças particulares e coletivas – exibindo a mesma destreza narrativa para, desde o mais imediato acontecimento, captar fenômenos repetitivos que desvelavam estruturas socioculturais de extrema longevidade.

Nada disso, asseverava Braudel, resultava dos inquestionáveis dotes literários de Gilberto Freyre, mas do talento (igualmente proustiano) para despertar um documento morto através de um testemunho recém-colhido, ou vice-versa. Tratar-se-ia, portanto, de um método indutivo quase involuntário, pelo qual uma percepção atual coincidia com lembranças remotas, ligando as marcas dos acontecimentos que faziam o passado e o presente se esclarecerem reciprocamente.

Assim como Proust buscava o tempo perdido no sabor de um biscoito, no desnível de um pavimento ou no retinir de louça e talheres, Freyre também fazia de sua pesquisa uma experiência sensorial, recorrendo a sabores, sons e odores como fontes documentais. Com efeito, diz Braudel, ele não era somente o mais brilhante e lúcido dos analistas brasileiros, mas o mais bem documentado.

Enquanto seus pares restringiam-se à sondagem de governos, impostos, leis, tratados, mapas, classes e manufaturas, com questionários e arranjos de fichas perfuradas, Freyre, mais consciencioso e instintivo, avançava para a sondagem de mobiliários, roupas, penteados, fachadas de casas, anúncios de jornal, anedotas, cantigas populares, receitas culinárias, diários de viagem, jazigos de cemitério, etc. Tudo foi por ele lido e utilizado como o mais informativo estoque de documentos. O progresso foi imenso, assinalou o mestre francês.

Entretanto, para contrabalançar o entusiasmo dos elogios, Braudel declarou que, apesar da aguçada percepção “extra-sensorial” que lhe dava singularidade, a obra daquele guia apresentava falhas, ou melhor, incorria em omissões consideráveis.

Primeiro, diz ele, temporal e espacialmente, Freyre se deteve num dinamismo socioeconômico litorâneo que, apesar de quatro vezes secular, compreendia uma estreita curva do território brasileiro, que começava no Maranhão e terminava em São Paulo, tendo como centros de interesse Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia e Pernambuco.

As imensidões interioranas, que se estendiam dos Pampas à Amazônia, tendo a caatinga, o cerrado e os pantanais de permeio, foram sumariamente abordadas como uma vasta adjacência, quase inexplorada, despovoada, desimportante. O que não deixava de ser um fato, Braudel o reconhece; mas emenda que era, precisamente, nesse ermo onde ocorria uma significativa transumância de sertanejos, quilombolas, farroupilhas, boiadeiros, caipiras, tropeiros, posseiros, seringueiros, garimpeiros, ja­gunços – enfim, toda aquela massa humana flutuante, vagabunda, sem casa nem senzala, que por viver à margem das vilas prósperas e sedentárias, acabara à margem da investigação de Freyre.

Seu panorama analítico, portanto, não teria mapeado o Brasil em sua totalidade histórica, geográfica e social; mas um Brasil menor, cujas dimensões pareciam ainda confinar com as convenções perimetrais do Tratado de Tordesilhas.

Braudel adverte que Freyre sabia e tinha muito a dizer sobre essa gente, mas optou por gastar sua erudição e seus poderes interpretativos com os citadinos ou, quando muito, com aqueles que tinham um paradeiro e uma cultura já definidos. Nestas circunstâncias, Freyre estandardizou a casa grande e a senzala, bem como os sobrados e mocambos, em referências genéricas que podiam facultar uma organização e uma leitura mais coerente de realidades sociais ainda não observadas.

Recai sobre o mestre de Api­pucos a objeção contra o procedimento que incidia como sustentáculo de permanências e regularidades, mas também como obstáculo que circunscrevia as experiências humanas em ecossistemas de relações produtivas e culturais quase invariáveis. Braudel questiona então se as enormes distâncias do território brasileiro – no qual os acentos linguísticos alteram-se tanto quanto os climas e as paisagens – consentiriam na aplicação daquele modus vivendi praieiro aos recantos de todas as províncias.

Bem entendido, Braudel não estava duvidando das notáveis afinidades e semelhanças entre as casas grandes (e senzalas) de norte a sul, que, apesar de distantes, eram quase todas aparentadas. Ele se perguntava então se os reclusos vizinhos do interior e os exclusos imigrantes de além-mar, tão fora das categorias estabelecidas e tão diferentes entre si, não teriam afetado os sedentários, alterando-lhes os padrões. Braudel reclamava, assim, a mesma atenção para as linhas de continuidade e rupturas que emergiam dos mares e dos sertões. E não exigia uma renúncia aos esquematismos da casa e da senzala, do sobrado e do mocambo, mas que os recolocasse no complexo campo das vizinhanças e proximidades que os rodeavam, para mensurar, através de novas comparações, a sua validade estrutural.

Noutros termos, o que Braudel esperava de Gilberto Freyre era uma ampliação dos horizontes da casa grande para além das senzalas, e dos sobrados para além dos mocambos, tal como ele próprio fez com os horizontes do mar mediterrâneo que, mesmo circunscrito ao tempo do Rei Felipe II de Espanha, era uma confluência de tempos e espaços.

Nos livros de Braudel, o macrocosmo mediterrânico, à semelhança do microcosmo da casa senhorial, era um poderoso núcleo de atividades humanas ao redor do qual gravitavam as civilizações mais influentes da história e, por conseguinte, as suas adjacências. Malgrado as similitudes geográficas de suas praias, aquele mar compunha um mosaico variadíssimo onde era possível penetrar no arcaísmo dos mundos insulares e surpreender-se diante da extrema juventude de cidades antiquíssimas, abertas a todos os ventos da cultura e do lucro, e que, há séculos, banhavam-se naquele mesmo mar.

Fernand Braudel então reprochava Gilberto Freyre por ter limitado o alcance da mais criativa análise social do Brasil ao declinar das extemporaneidades que indicavam outras estruturas – mas suscetíveis, também elas, de serem interpretadas desde a casa grande e da senzala, desde os sobrados e mocambos.

Christiano Galvão é historiador e colaborador do Blog Miméticos

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